Plantio Direto

 

Plantas de COBERTURA para lavouras paulistas

Engenheiro agrônomo Wander Luis Barbosa Borges, doutor em Sistemas de Produção, pós-doutorando do Departamento de Produção e Melhoramento Vegetal da FCA/Unesp, pesquisador do Centro Avançado de Pesquisa Tecnológica do Agronegócio de Seringueira e Sistemas Agroflorestais do Instituto Agronômico (IAC)

O sistema de semeadura direta na palha pode gerar grandes benefícios ao meio ambiente pela conservação da água e do solo, através da redução do impacto direto da gota da chuva e da velocidade de escorrimento superficial da água, melhorando a infiltração da água no solo e evitando perdas de solo por erosão. E também através da diminuição da amplitude térmica do solo, o que proporciona redução da evapotranspiração e manutenção da umidade do solo. Essa conservação da água e do solo é proporcionada pela cobertura permanente do solo, ou seja, pela manutenção do solo coberto durante todo o ano por uma camada de palha (palhada), um dos três pilares necessários para se ter um eficiente sistema de semeadura direta, complementado pelo não-revolvimento do solo e pela rotação de culturas.

No entanto, segundo Brancalião et al (2008), a dificuldade de produção e persistência dessa palha é um dos entraves na consolidação desse sistema no estado de São Paulo. Isso reforça a preocupação de se produzir resíduos vegetais que tenham decomposição mais lenta, o que significaria manter o resíduo protegendo o solo por maior período de tempo (Ceretta et al, 2002). De acordo com Stone Etal (2006), a utilização da palhada originada dos resíduos vegetais de culturas anteriores e de plantas daninhas geralmente é insuficiente para a plena cobertura do solo, devido às altas temperaturas, associadas à umidade adequada, nos trópicos, que promovem sua rápida decomposição.

Para se simular a colheita de grãos e/ou sementes, foi realizado o corte das panículas do sorgo granífero, do milheto (na foto) e do capim-sudão aos 115, 110 e 125 dias após a semeadura, respectivamente

Por essa razão, para se manter o solo coberto durante todo o ano, na maioria das vezes é necessária a utilização de culturas com o objetivo principal de formação de palhada para o sistema de semeadura direta, as chamadas plantas de cobertura. À medida que o sistema de semeadura direta foi substituindo o sistema de semeadura convencional, o interesse pelas plantas de cobertura aumentou, uma vez que, associadas aos preparos conservacionistas, elas favorecem o controle da erosão e, ao mesmo tempo, podem resultar em melhoria de atributos físicos e químicos do solo que refletem na produtividade (Trabuco, 2008).

Alvarenga et al (2001) enfatizaram que, na escolha das plantas de cobertura, é fator decisivo conhecer a sua adaptação à região e sua habilidade em crescer em um ambiente menos favorável, uma vez que as culturas comerciais são estabelecidas nas épocas mais propícias. Além disso, devese levar em consideração produtividade de fitomassa, disponibilidade de sementes, condições do solo, rusticidade quanto à tolerância do déficit hídrico, possibilidade de utilização comercial e o potencial dessas plantas serem hospedeiras de pragas e doenças.

Características das plantas — Por isso, sempre que possível, devese conhecer as características das plantas de cobertura na região em que serão cultivadas. Essas informações podem ser obtidas em trabalhos de pesquisa desenvolvidos em todo o País. Para a região Noroeste do estado de São Paulo, essas informações estão disponíveis em um livro intitulado “Plantas de Cobertura em Rotação com Soja e Milho”, lançado pela editora Novas Edições Acadêmicas, sob minha autoria e dos professores Dr.ª Marlene Cristina Alves e Dr. Marco Eustáquio de Sá, da Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira-Unesp.

Na foto, a Urochloa ruziziensis à frente do capim-sudão, no experimento conduzido em Votuporanga/SP, onde produziu até 15.700 quilos de fitomassa por hectare

O livro apresenta resultados de uma pesquisa realizada com o apoio da Fundação Agrisus - Agricultura Sustentável, e que teve como um dos seus objetivos avaliar a produtividade de fitomassa de cinco plantas de cobertura utilizadas para produção de grãos, sementes e forragem, em diferentes densidades de semeadura, e de uma área com vegetação espontânea (pousio), na região Noroeste de São Paulo.

A pesquisa foi desenvolvida no Centro Avançado de Pesquisa Tecnológica do Agronegócio de Seringueira e Sistemas Agroflorestais, do Instituto Agronômico (IAC), em Votuporanga/SP, e na Fazenda de Ensino, Pesquisa e Extensão da Unesp, Campus de Ilha Solteira, na Seção de Produção Vegetal, localizada no município de Selvíria/MS, a 13,9 quilômetros de Ilha Solteira/SP, e com as mesmas características de solo e de clima.

Foram utilizadas as seguintes plantas de cobertura, com as respectivas densidades de semeadura: sorgo granífero (Sorghum bicolor), 6, 7 e 8 kg/ha; milheto (Pennisetum americanum), 10, 15 e 20 kg/ha; capim-sudão (Sorghum sudanense), 12, 15 e 18 kg/ha; híbrido de sorgo granífero com capim-sudão, 8, 9 e 10 kg/ha; e Urochloa ruziziensis (Syn. Brachiaria ruziziensis), 8, 12 e 16 kg/ha. Na área em pousio, a vegetação espontânea era composta principalmente por capim- carrapicho (Cenchrus echinatus) e capim-colchão (Digitaria horizontalis) nos dois locais, e recebeu os mesmos tratos culturais (manejo e adubação) das plantas de cobertura.

Para se simular a colheita de grãos e/ou sementes, foi realizado o corte das panículas do sorgo granífero, do milheto e do capim-sudão aos 115, 110 e 125 dias após a semeadura, respectivamente. O híbrido de sorgo com capim- sudão e a U. ruziziensis foram cortados a 20 centímetros do solo e retirados da área aos 95 e 145 dias após a semeadura, respectivamente, simulando-se ensilagem do híbrido e fenação da U. ruziziensis, e na área em pousio as plantas daninhas puderam se desenvolver.

Após o manejo das coberturas, no primeiro ano de estudo, foi semeada a cultura da soja em toda a área, e no segundo ano, semeou-se o milho, ambos em sistema de semeadura direta sobre a palhada das plantas de cobertura e da vegetação espontânea na área em pousio. Na tabela 1 estão apresentados os valores da fitomassa acumulada pelas coberturas, somando-se a quantidade de fitomassa obtida antes do manejo das coberturas à fitomassa obtida na pré-semeadura da soja, no primeiro ano, e na pré-semeadura do milho, no segundo ano de estudo.

Verifica-se que, nos dois anos de estudo e nos dois locais, as diferentes plantas de cobertura, nas três densidades de semeadura, promoveram um acúmulo de fitomassa próximo a 10 mil kg/ha, quantidade mínima de fitomassa acumulada por ano, em região de cerrado, para manutenção adequada do sistema de semeadura direta, segundo Cordeiro (1999) e Amado (2000). No entanto, a área em pousio, com a mesma adubação das plantas de coberturas sem produzir grãos, sementes ou forragem, acumulou uma quantidade de fitomassa inferior a 7 mil kg/ha.

Por essa razão, a utilização de áreas em pousio para o sistema de semeadura direta pode não trazer ao agricultor os vários benefícios promovidos pela utilização dessa prática, além de dificultar o manejo de plantas daninhas nas culturas comerciais, pelo aumento do banco de sementes das plantas daninhas. Assim, para que a agricultura brasileira continue a obter ganhos de produtividade de uma forma sustentável, é necessária a adoção dessa prática importantíssima, o uso de plantas de cobertura no sistema de semeadura direta.