Florestas

 

AGREGAÇÃO de valor à produção florestal em ILPF

A agregação de valor ocorre conforme se adota o manejo da floresta com a realização, por exemplo, de desbastes, ou seja, o corte de árvores com baixo desenvolvimento e/ou com defeitos

Ronaldo Trecenti, especialista em Programa ABC e consultor ILPF, [email protected]

A adoção de Sistemas Agropecuários de Produção Integrada (Sapi) tem crescido significativamente no Brasil, especialmente depois da realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD), no Rio de Janeiro, em 1992, mais conhecida como “Rio 92”. Naquele evento, 179 países participantes acordaram e assinaram a Agenda 21 Global, apelidada de “Agenda 21”, a mais abrangente tentativa já realizada de promover, em escala planetária, um novo padrão de desenvolvimento, denominado “desenvolvimento sustentável”. A Agenda 21 é um instrumento de planejamento para a construção de sociedades sustentáveis, em diferentes bases geográficas, que concilia métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica.

Os Sapis ganharam um grande destaque em função dos compromissos voluntários assumidos pelo Brasil na 15ª Conferência das Partes – COP15, realizada em Copenhague, Dinamarca, no ano de 2009. Pelos quais se prevê a redução das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), em especial dióxido de carbono ou gás carbônico (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O), projetadas para 2020 entre 36,1% e 38,9%, estimando assim uma redução da ordem de 1 bilhão de toneladas de CO2 equivalente.

Para dar suporte a essas metas, o Governo brasileiro estabeleceu o Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura, também denominado de Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono). O Plano ABC tem o objetivo de garantir o aperfeiçoamento contínuo dos sistemas e das práticas de uso e manejo sustentável dos recursos naturais, que promovam a redução das emissões dos GEE, e, adicionalmente, também aumentem a fixação de CO2 atmosférico na vegetação e no solo dos setores da agricultura brasileira. No Plano ABC estão previstas diversas ações de capacitação e informação de técnicos e produtores rurais, estratégias de transferência de tecnologia, pesquisa, fortalecimento da assistência técnica e extensão rural, incentivos econômicos, linhas de crédito rural, entre outras.

Dentre as ações e metas previstas destacam- se as seguintes: a recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas; o incremento de 8 milhões de hectares com o sistema plantio direto (SPD); a ampliação do uso da fixação biológica de nitrogênio (FBN) em 5,5 milhões de hectares; a expansão da área com florestas plantadas em três milhões de hectares; o tratamento de 4,4 milhões de metros cúbicos de dejetos animais; e o aumento da adoção de sistemas de Integração Lavoura- Pecuária-Floresta (ILPF) em quatro milhões de hectares até o ano de 2020.

Para estimular a adoção dessas tecnologias que mitigam o desmatamento e reduzem a emissão de GEE e/ou promovem o sequestro de carbono atmosférico, o Ministério da Agricultura criou o Programa Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (Programa ABC), que é uma linha de crédito para financiamento da adoção das mesmas pelos produtores rurais. Iniciou-se uma grande força-tarefa nacional para a divulgação dessas tecnologias, com ações para desenvolvimento de pesquisa e validação junto aos produtores rurais, em especial em relação aos sistemas ILPF, por se tratar de uma tecnologia não consolidada nos diferentes biomas brasileiros.

A Embrapa implantou centenas de Unidades de Referência Tecnológica com a ILPF, nos seus diversos centros e unidades de pesquisa espalhados pelo País e também em parceria com produtores inovadores, com o objetivo de desenvolver novas alternativas tecnologias e validar regionalmente outras já desenvolvidas. Alguns estados também criaram programas para fomentar a adoção da ILPF, com destaque para Minas Gerais, que, através da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, com suporte técnico da Emater, e em parceria com a Embrapa, desenvolveu ações de capacitação técnica e de implantação de Unidades Demonstrativas com pequenos produtores.

Recentemente, o Ministério da Agricultura celebrou um convênio com o Banco Mundial, por meio do Fundo de Investimento Florestal (FIP), para aplicação de recursos no fomento e na difusão das tecnologias do Programa ABC e estabeleceu uma parceria com o Senar para capacitação de técnicos multiplicadores (instrutores) e de produtores. O projeto é denominado “ABC Cerrado”, com o qual se espera contribuir para a ampla adoção da ILPF no Brasil.

Na ILPF, as árvores são plantadas em faixas denominadas de renques ou “aleias”, em fileiras simples ou múltiplas. Quando se deseja privilegiar a produção de madeira, deve-se utilizar renques com maior número de fileiras (mais árvores/hectare); quando se deseja privilegiar a produção agrícola e/ou pecuária, utilizam-se espaçamentos maiores entre renques, com menos linhas por renque. A maioria das áreas implantadas com a ILPF no País utilizaram o eucalipto por diversas razões, por ser a espécie florestal mais conhecida e mais plantada no Brasil, a boa adaptação para os sistemas integrados, a disponibilidade de mudas, a produção de madeira para usos múltiplos (energia, tratamento, laminados e serraria), e o mercado para a produção florestal. A produção final de madeira na ILPF é um pouco menor do que a obtida no cultivo tradicional do eucalipto, em função do menor número de árvores. Porém, ocorre uma compensação na produção em função do aumento no diâmetro das árvores, possibilitando a produção de madeira para usos múltiplos com maior valor agregado, em especial para o tratamento de estacas, mourões, esteios e postes, produção de laminados e produção de madeira serrada.

A valorização da madeira pode ser facilmente percebida quando se compara o valor do metro cúbico de madeira para as diferentes finalidades: lenha para energia = R$ 30; madeira para tratamento de estacas e mourões = R$ 45; madeira para tratamento de postes = R$ 150; madeira serrada = R$ 1.300.

Para viabilizar a ILPF — A agregação de valor à produção florestal é fundamental para viabilizar a ILPF, ocorrendo proporcionalmente à medida que se adota o manejo da floresta com a realização de desramas (eliminação dos ramos laterais) para evitar a formação de nós e de desbastes (corte de árvores dominadas, com baixo desenvolvimento e/ou com defeitos), retardando-se a colheita (corte das árvores), permitindo o maior crescimento em diâmetro e maior densidade da madeira.

Essa agregação de valor também pode ser feita na propriedade, através do tratamento da madeira a frio por imersão, para produção de estacas e mourões, para uso próprio ou comercialização local. Ou ainda por meio da utilização de minisserraria para produção de réguas visando à construção de currais e produção de vigotas, caibros e tábuas para construção de barracões, reduzindo despesas com o frete no transporte de madeira adquirida no mercado e contribuindo para reduzir a pressão pelo uso de madeira de florestas nativas.