Mão de Obra

 

Tecnologia exige braços QUALIFICADOS

A necessidade de capacitação da mão de obra é uma constante no meio rural e precisa obrigatoriamente ser encarada como estratégica para o desenvolvimento agrícola do Brasil. Sem a qualificação do trabalhador, não tem como adotar novas tecnologias e nem expandir áreas e produtividades

Rogério Beretta, superintendente do Senar/MS

Não restam dúvidas quanto a importância da mão de obra dentro de qualquer atividade produtiva, seja ela urbana ou rural. Antes de discutirmos sobre a qualificação da mão de obra, é importante fazer algumas inferências sobre a sua disponibilidade. A taxa de desemprego levantada pela Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (Pnad) e divulgada em maio é de 7,9%, evidenciando que a grande maioria da mão de obra está ocupada. Porém, ainda há um contingente populacional que não está estudando, nem empregado, nem à procura de emprego. E quanto ao meio rural, como está a situação?

Segundo o Censo 2010, menos de 19% da população brasileira vive na zona rural. Na Região Centro-Oeste esse percentual cai para menos de 14% e, para o Mato Grosso do Sul, a taxa está em torno de 17%. Percebe-se que há um número muito reduzido de pessoas residindo no meio rural. Considerando que esses dados envolvem todo o perfil populacional, ou seja, desde recém-nascidos a idosos, o universo de pessoas disponíveis para o trabalho é mais reduzido ainda.

Paralelamente à disponibilidade de mão de obra no meio rural, é importante também observar a escolaridade desste público. No que diz respeito à qualificação formal da população rural, podemos fazer algumas inferências baseado no trabalho “A Educação no Brasil Rural”, publicado em 2006 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O trabalho mostra que a taxa de analfabetismo entre maiores de 15 anos na população rural do Brasil estava em 29,8%, sendo que, no Centro-Oeste, ficava em torno de 20%. Segundo o Censo 2010 esses números vêm sendo reduzidos, mas estão longe de serem eliminados.

Outro dado publicado no relatório do Inep aponta que, na população rural do Centro-Oeste, na faixa de 10 a 14 anos, cerca de 2% não frequentam a escola e 50% frequentam com algum atraso, taxa semelhante à mesma faixa etária da população rural nacional. Esse contexto de baixa escolaridade da população rural devese em parte às dificuldades de acesso dessa população à educação formal, principalmente pela distância da residência até a escola, bem como pela infraestrutura das escolas disponíveis.

Fazendo referência ainda ao relatório do Inep, considerando a infraestrutura das escolas de ensino médio no meio rural, identificou-se que existe biblioteca em apenas 55,5% das escolas; o kit composto por TV, vídeo e parabólica, somente em 28,2%; o laboratório de ciências, em 20,3%; e o laboratório de informática, em 19,8%. Acrescentam-se a esse contexto as distâncias percorridas pelos estudantes de sua residência até as escolas. Por tudo isso, entendemos que, além de pensarmos na qualificação profissional da população rural brasileira, é necessário um esforço nacional para promoção da educação formal, habilitando essa população a condições razoáveis de formação.

Mecanização — Na direção oposta, principalmente na agricultura empresarial, há a crescente mecanização dos processos produtivos, a utilização de máquinas com maior capacidade, a utilização do GPS e o surgimento da agricultura de precisão. Historicamente, segundo relatado em bibliografias da área, a mecanização agrícola no Brasil inicia em 1930 com a utilização de máquinas para colheita de arroz, agilizando consideravelmente a operação que era realizada manualmente. Posteriormente, na década de 1950, logo após a 2ª Guerra Mundial, tem início um processo de importação de máquinas agrícolas. Entretanto, dificuldades com manutenção, peças de reposição e adaptações climáticas levaram muitas dessas máquinas a ficarem paradas.

Na década de 1960, com a vinda de montadoras para o Brasil, há de fato o início da produção de máquinas agrícolas em território nacional. A partir daí houve um processo de evolução e desenvolvimento tecnológico que abrangeu diversas culturas agrícolas, facilitando significativamente o trabalho no campo, permitindo a expansão da área produtiva e a celeridade das operações.

No MS, o Senar tem um portfólio de mais de 160 cursos em diferentes áreas, desde tradicionais como o casqueamento de cavalos até as demandas mais urgentes, como operador de colheitadeira

A evolução das máquinas agrícolas chegou a cultivos onde se imaginava ser “impossível” a mecanização, como a colheita do café, colheita e plantio da cana-de-açúcar e plantio e a colheita de eucalipto. Há que se destacar que, nas culturas tradicionais como grãos, houve um aumento exponencial na capacidade operacional das máquinas. Com o advento do plantio direto, arados e grades foram aposentados da função de preparar o solo e deram lugar a plantadeiras de alta capacidade, com sistemas pneumáticos, puxadas por tratores super potentes guiados por GPS, com computadores de bordo e softwares de agricultura de precisão. As pequenas colhedoras foram substituídas por máquinas gigantes, que registram a produtividade instantaneamente, elaboram mapas de produtividade e armazenam em seus graneleiros expressivos volumes de grãos colhidos.

O grande dilema de tudo isso é onde encontrar mão de obra habilitada para operar esses equipamentos? Por um lado, existe a indústria de máquinas, produzindo equipamentos destinados ao trabalho rural, com alta tecnologia embarcada, alguns com painéis e comandos em inglês, sistemas digitais e conexão com satélites. E por outro lado, uma população rural cada vez menor, com reduzida formação educacional. Cabe ainda outro questionamento pensando no lado social: como inserir estas pessoas nas atividades laborais, evitando que a tecnologia gere desemprego e consequentemente aumente o êxodo rural?

Educação é a única fórmula — A resposta a essas questões passa necessariamente por um caminho: educação. Não há fórmula mágica. Em linhas gerais, o investimento em qualificação deve ser proporcional ao investimento em tecnologia. É necessário que haja um esforço para o acesso à educação formal de qualidade para o público rural, pois ela habilita o formando a receber a qualificação profissional. É nesse contexto que entra o Serviço Na-cional de Aprendizagem Rural (Senar). Com uma capilaridade garantida pelos sindicatos rurais, o Senar chega ao campo para oferecer gratuitamente a qualificação que se propõe como elo entre essas duas pontas: a falta de escolaridade e dificuldade de acesso a ela verificada no meio rural e a crescente tecnificação do trabalho no campo.

Beretta: “A necessidade de qualificação é uma constante no meio rural e deve ser encarada como estratégica para o desenvolvimento agrícola do País”

Não somos e não temos a pretensão de sermos os redentores desse processo, tampouco achamos que a solução é fácil ou rápida. Porém entendemos que o trabalho continuado, atuando em várias frentes, poderá sanar pelo menos emergencialmente essa lacuna, cada dia mais significativa na evolução do setor agropecuário.

Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, o Senar tem um portfólio de mais de 160 cursos em diferentes áreas, voltados para a formação profissional e social do homem do campo. São formações que abordam desde aspectos tradicionais como casqueamento de equídeos até as demandas mais urgentes, como operador de colheitadeira. E do mesmo modo que precisamos dar o trato adequado aos animais que ainda exercem seu papel de tração animal, temos a necessidade de qualificar um trabalhador que vai operar uma máquina computadorizada que vale milhões. Aceitamos diariamente esse desafio de atender uma gama vasta de demandas diante de um público que apresenta baixa escolaridade básica.

Outra alternativa é tentar atrair mão de obra urbana para essas atividades. Daí se depara com outra dificuldade, que é achar quem esteja disposto a morar durante a semana na propriedade rural. A ausência de Internet, redes de celulares e de telefonia afasta muitos candidatos. São poucos os que estão dispostos a morar 80, 100 ou 150 quilômetros afastados de um centro urbano. O que mostra outra lacuna do meio rural, que é deficiência na infraestrutura.

Ainda dentro do tema qualificação, vale lembrar que a agricultura familiar é a que mais precisa de qualificação, tanto a técnica como a de gestão. Em períodos em que as margens produtivas estão cada vez mais apertadas, com preços dos insumos em elevação e a necessidade de produzir em escala e volume para atender determinados mercados, é necessário também capacitar os pequenos e médios produtores com ferramentas gerenciais que facilitem a sua vida. Desde ensinar a apurar o resultado bruto de sua atividade, fazendo anotações de receitas e despesas em cadernos, até o cálculo para dimensionar o tamanho de um canteiro de alfaces para atender uma venda na feira. Os agricultores familiares são importantes na produção de alimentos básicos, de hortaliças, frutas e verduras. O sucesso deles em sua produção contribui para o abastecimento das cidades e evita o êxodo rural.

Como exposto, a necessidade de qualificação é uma constante no meio rural e deve ser encarada como estratégica para o desenvolvimento agrícola do país. A ausência de mão de obra qualificada impede a expansão de novas áreas, a implantação de novas tecnologias e a inclusão das pessoas na atividade laboral. Sabemos que o tema é complexo e que envolve ações governamentais conjugadas com a iniciativa privada. Enquanto isso, nós do Senar assumimos com empenho a missão de qualificar adequadamente o produtor e o trabalhador rural, em nome de uma agropecuária que se desenvolve com agilidade e eficiência, o que a torna atualmente o pilar de sustentação fundamental da economia brasileira.