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Congresso reúne autoridades da SOJA

Maior fórum brasileiro de debate sobre o complexo da soja foi realizado em Florianópolis, no mês passado, e reuniu especialistas, inclusive internacionais

O VII Congresso Brasileiro de Soja e o Mercosoja 2015 promoveram um amplo debate econômico, técnico e institucional sobre o segmento durante quatro dias, no mês passado, em Florianópolis. A abertura teve a presença da ministra da Agricultura, Kátia Abreu, e de Maurício Lopes, presidente da Embrapa, que abordou o tema “Políticas, investimentos, pesquisa e inovação - Bases para o desenvolvimento da agricultura brasileira”.

O congresso, realizado a cada três anos pela Embrapa Soja, constitui-se no maior fórum de discussão sobre a cadeia produtiva da oleaginosa. Neste ano foi realizado conjuntamente com o Mercosoja, encontro que reúne países produtores de soja do Mercosul, como Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai. A realização de ambos juntos aumentou o intercâmbio de conhecimento entre os países da América do Sul.

Presidente da Embrapa, Maurício Lopes, abordou o tema “Políticas, investimentos, pesquisa e inovação – Bases para o desenvolvimento da agricultura brasileira”

O evento que teve neste ano como tema “Tecnologia e mercado global: perspectivas para a soja” promoveu em torno dessa abordagem 75 palestras, das quais 25 internacionais, 15 painéis, 12 conferências e a apresentação de 370 trabalhos na sessão pôsteres. Um dos assuntos econômicos em pauta foi o comprometimento da competitividade da soja brasileira em razão dos problemas logísticos do País. Segundo o economista do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) Warren Preston, o Brasil deverá ser responsável por suprir de 30% a 40% do aumento da demanda mundial por alimento, já que tem novas áreas para serem transformadas em lavoura e capacidade de aumentar a produtividade. Entretanto, disse, será necessário maior investimento em logística para o escoamento da produção. “Mesmo com o alto custo de transporte, a soja brasileira ainda tem uma vantagem competitiva. Mas é preciso investir em logística”, alertou.

Para o consultor em logística da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Luiz Antônio Fayet, a falta de infraestrutura de transporte pode não só comprometer a exportação, como já tem reprimido a produção de grãos em algumas regiões brasileiras. “Fizemos um levantamento que mostrou que no ano passado nós deixamos de produzir 4 milhões de toneladas de soja e milho por serem locais onde não compensava produzir, porque o custo para tirar não ia deixar margem para o produtor. Qualquer variação no preço do grão ou piora nos preços logísticos acaba inviabilizando a produção”, afirma. De acordo com ele, com os investimentos atuais, a projeção é que somente em 2025 o Brasil tenha uma estrutura portuária com capacidade de atender a demanda de exportação atual do setor. Considerando a projeção de aumento da produção e o ritmo de melhoria da infraestrutura, seriam necessários de 18 a 20 anos para haver um equilíbrio entre a oferta e demanda.

Ameaças fitossanitárias — No campo técnico, foi levantada a questão de o Brasil se preparar para novas ameaças fitossanitárias. Afinal, em um mundo cada vez mais bioglobalizado, a chegada de novas pragas como o caso da recente lagarta helicoverpa é questão de tempo. Portanto, é preciso se preparar para minimizar os danos produtivos e econômicos. Atualmente existem no mundo 395 pragas de soja que não ocorrem no território brasileiro. Dessas, 18 são consideradas quarentenárias, ou seja, já reconhecidas pelo Governo brasileiro como indesejadas no País. Com o aumento do volume de comércio de alimentos e com a movimentação intensa de pessoas pelo planeta, é cada vez mais fácil ocorrer a disseminação das pragas. “Há a tendência de aumento nos registros de novas pragas no Brasil. Atualmente temos a média de quatro novas pragas sendo relatadas por ano”, afirmou o pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia Marcelo Lopes da Silva.

De acordo com o pesquisador, o Brasil precisa estabelecer estratégias para lidar com todos esses riscos fitossanitários, que envolvem insetos, fungos, plantas daninhas, vírus, ácaros e nematoides. “Temos de estar preparados não para eventos isolados, mas para todo o cenário que está ocorrendo”, alertou. O trabalho com modelagem é uma das ferramentas usadas pela pesquisa. Por meio dele, é possível simular os danos causados por determinada ameaça em diferentes regiões do País. A partir daí, são traçadas as estratégias de atuação, que podem ser de melhoramento genético preventivo, programas de contenção ou mesmo desenvolvimento de produtos para o combate e manejo.

“A modelagem é feita para definir a região de maior vulnerabilidade e para definir a estratégia para evitar que a praga chegue naquela região. Antes de ela chegar, você tem tempo para desenvolver variedades e produtos e pesquisar um manejo para aplicar, caso ela chegue”, explica o pesquisador da Embrapa que citou o pulgão-da-soja como exemplo de praga que já é alvo de trabalhos de prevenção no País. Outra ação que pode ser adotada pelo Brasil é a criação de um programa de monitoramento preventivo, de preferência, envolvendo os países vizinhos. Exemplo dessa necessidade é a grande quantidade de ameaças presentes na fronteira Norte do País. A região da Venezuela, Guianas, no mar do Caribe, é o local no mundo com maior ocorrência de pragas de todos os locais do planeta.

Mudança climática — Para enfrentar os desafios das mudanças do clima e as exigências do mercado internacional, a pesquisa brasileira tem de estar na vanguarda do conhecimento. Foi o que afirmou o professor e pesquisador do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), Carlos Cerri. Conforme ele, cientistas brasileiros precisam conhecer os sistemas produtivos e quantificar a pegada de carbono de cada cadeia. “O Brasil precisa gerar dados, precisa estar na vanguarda. Temos de fazer pesquisa de ponta e publicarmos para termos os dados e proteger a nossa agropecuária”, disse.

O maior uso de biocombustíveis é uma das ações apresentados por Cerri para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e consequentemente o aquecimento global. Como uma das principais atividades emissoras de gases, a agropecuária também pode contribuir nesse processo. Para isso, estratégias como a recuperação de pastagens degradadas, a fixação biológica de nitrogênio, o plantio direto na palha, a integração lavoura-pecuária-floresta, o reflorestamento e o tratamento de resíduos animais são ações que contribuem para menor emissão e fixação de carbono no solo. “As alternativas já existem e outras estamos produzindo. Na medida em que conhecemos as fontes de emissão, vamos encontrar novas alternativas”, argumentou.