Integração

 

Estudo comprova a VIABILIDADE econômica da ILPF

A integração lavoura-pecuária-floresta mostrou-se rentável ao produtor em estudo conduzido pela Embrapa em parceria com o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária, Famato e Senar-MT, a partir de experiências em Unidades de Referência Tecnológica e Econômica

Júlio César dos Reis, economista e pesquisador da Embrapa Agrossilvipastoril

Com o crescente avanço nas tecnologias aplicadas à agricultura e buscando obter melhores resultados, tanto em termos econômicos, quanto sociais e também ambientais, os produtores de Mato Grosso têm buscado conhecer novas técnicas produtivas. E o estado, em função de suas potencialidades e sua atual situação de líder nacional na produção de diversas culturas, necessita de novas e consistentes alternativas para continuar avançando em relação à sua agricultura.

É nesse contexto que se encontra a proposta de organização do sistema produtivo baseado na integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). De acordo com o Marco Referencial, publicado pela Embrapa em 2011, a ILPF é uma estratégia de produção que tem como princípios básicos a produção sustentável por meio da integração de atividades agrícolas, pecuárias e florestais, realizadas em uma mesma área, em cultivo consorciado, em sucessão ou rotacionado, buscando efeitos sinérgicos entre os componentes do agroecossistema, contemplando a adequação ambiental, a valorização do homem e a viabilidade econômica.

Nesse sentido, a Embrapa, em parceria com o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar- MT) e a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato), propôs o desenvolvimento e o acompanhamento de Unidades de Referência Tecnológica e Econômica (Urte) com o objetivo de identificar a viabilidade técnica e econômica de propriedades rurais que utilizam diferentes modalidades da estratégia ILPF em Mato Grosso, além de transferir as tecnologias e a gestão financeira aplicada para os produtores. Esse projeto é uma iniciativa de longo prazo e teve sua primeira etapa finalizada em 2014 com resultados promissores. Para o primeiro ano de projeto foram acompanhadas seis propriedades nas regiões Sul, Médio-Norte e Norte do estado, além dos dois sistemas de ILPF implementados no campo experimental da Embrapa Agrossilvipastoril em Sinop.

Considerando os resultados observados, inicialmente vale destacar a inovação na organização do sistema de custos, que foi baseado no sistema ABC. Como principal vantagem em relação aos demais métodos utilizados, esse sistema permite a identificação dos custos de produção associados a cada atividade que é realizada, e isso é fundamental tendo em conta o atual estágio de entendimento sobre sistemas de ILPF, no qual muitas práticas de condução e manejo ainda precisam ser estabelecidas e validadas.

Reis: muitos dos potenciais efeitos positivos dos sistemas ILPF, como os serviços ambientais, não foram considerados, ou seja, é possível que os resultados econômicos que já foram positivos tendam a ser ainda melhores

Outro aspecto importante dessa primeira fase é que, devido à grande complexidade em relação aos aspectos produtivos do sistema de ILPF, e considerando os inúmeros cálculos e detalhes envolvidos na apuração dos resultados econômicos, desenvolveu- se uma planilha eletrônica com o intuito de padronizar e facilitar a coleta e os cálculos. O objetivo é que essa ferramenta, uma vez validada, seja disponibilizada para técnicos, extensionistas e produtores que trabalhem com sistemas ILPF.

A título de exemplo do que foi desenvolvido e realizado nessa etapa do projeto, é possível destacar os resultados de uma das propriedades de produtores parceiros do projeto e de um dos sistemas conduzidos na área experimental da Embrapa Agrossilvipastoril. Na primeira situação, tem-se a Urte localizada na Fazenda Brasil, em Barra do Garças, com 110 hectares de experimento com sistema silviagrícola, com a semeadura de soja entre os renques de eucalipto, plantados em faixas de linhas triplas a cada 23 metros com espaçamento entre plantas de dois metros na linha e três metros entre linhas. Esse sistema, para a safra 2012/2013, registrou um lucro operacional de R$ 535,4/hectare, já que a receita líquida de R$ 1.942,6/ha superou a soma dos custos com produto vendido, com as despesas administrativas e com vendas, que juntos atingiram R$ 1.407,2/ha.

Comparando esses resultados com os dados observados para o sistema exclusivo de lavoura mais representativo para a região de Barra do Garças e tendo em conta as informações levantadas pelo Imea para a safra 2012 e 2013, o sistema soja e milho safrinha, para a propriedade modal da região, com 600 hectares, apresentou um custo de produção, para as duas culturas, de R$ 3.355,78/ha e uma receita líquida de R$ 3.552,04/ha. Deduzindo-se os custos com produto vendido, com as despesas administrativas e com vendas, implica-se em um prejuízo de R$ 237,60/ha, resultado influenciado diretamente pela queda dos preços do milho, e muito inferior ao apresentado pelo sistema integrado.

Já em relação a um dos sistemas de ILPF implementados na área experimental da Embrapa Agrossilvipastoril, formado pela combinação eucalipto plantado em faixas de linhas duplas, com distância de 58 metros entre renques e espaçamento entre plantas de dois metros na linha e três metros entre linhas, silagem de milho e feijão-caupi e gado de leite, que possui 2,9 ha, para a safra 2013/ 14, o custo total para sistema de produção foi de R$ 4.454,2/ha.

Esse valor ficou muito próximo ao observado pelo Imea em seus levantamentos de custos totais para o sistema soja e milho para a região Médio-Norte, que foi de R$ 4.200/ha para uma propriedade típica de 1.500 hectares. Ainda, em virtude dos bons preços para o feijão-caupi, R$ 55/saca de 60 kg, o lucro líquido para esse tratamento foi de R$ 583,5/ha, valor muito próximo ao observado para os sistemas soja e milho, considerando a região Médio-Norte do estado, que para o último ano apresentou média de R$ 580/ha, de acordo com dados do Imea.

Os resultados observados mostraramse muito relevantes, pelo seguinte: 1) permitiram a inovação em relação às avaliações realizadas anteriormente, que sempre consideravam os sistemas ILPF como um agregado de sistemas produtivos exclusivos, o que limitava a observação dos principais efeitos da integração que é a sinergia entre os componentes; 2) mesmo tendo em conta o caráter experimental, os resultados econômicos observados em alguns casos foram bem próximos e, em outros, foram superiores aos observados para os principais sistemas de produção agrícola de Mato Grosso. Esse ponto é importante, pois muitos dos potenciais efeitos positivos dos sistemas ILPF, como os serviços ambientais, não foram considerados. Ou seja, é possível que os resultados econômicos que já foram positivos tendam a ser ainda melhores.