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O correto TRANSPORTE das máquinas

O deslocamento de máquinas e equipamentos por estradas e outras vias públicas deve seguir a algumas normas de segurança no trânsito, ou poderá provocar acidentes aos motoristas e demais usuários dos locais

Prof. Dr. Leonardo de Almeida Monteiro, coordenador do Laboratório de Investigação de Acidentes com Máquinas Agrícolas da Universidade Federal do Ceará, Deivielison Ximenes Siqueira Macedo e Viviane Castro dos Santos, integrantes do Laboratório de Investigação de Acidentes com Máquinas Agrícolas (Lima)

O uso de tratores tem se intensificado nas últimas décadas no Brasil, em virtude da atual situação da agricultura no País. A máquina tornou-se indispensável para produtores que pretendem obter o máximo de sua produção. A Região Sul é uma grande produtora de soja, milho e trigo, culturas que necessitam em seus tratos culturais da utilização de máquinas agrícolas para atingir uma grande produção. Além dos tratos culturais, muitas vezes o trator é utilizado para transportar a produção do campo para o armazém.

Porém, em algumas propriedades, a plantação localiza-se em lugares diferentes de onde se armazena a produção, havendo a necessidade de que os operadores de máquinas agrícolas entrem com os tratores em rodovias, estradas e vias públicas. Com o maior tráfego de máquinas nas vias públicas, tem-se uma maior susceptibilidade na ocorrência de acidentes com tratores devido às limitações da máquina para trafegar em rodovias.

Tratores são máquinas para realização de trabalho, não para estarem trafegando como veículo de passeio, mas caso haja a necessidade de deslocamento, o transporte deve ser feito em caminhões

Acidentes com máquinas agrícolas, mesmo os que ocorrem em horário de trabalho, em vias públicas, não são considerados pelos órgãos públicos gestores como acidente de trabalho, e sim como acidente de trânsito. Em decorrência dessa diferenciação, essas informações não são computadas nas estatísticas de acidentes de trabalho, ficando os números omitidos pelo fato de os acidentes com outros veículos serem muito maiores do que os acidentes com tratores.

Colisões com outros veículos — Este trabalho é fruto da parceria entre a 16ª Superintendência da Polícia Rodoviária Federal e do Laboratório de Investigação de Acidentes com Máquinas Agrícolas (Lima). Segundo Macedo (2014), a Região Sul, no período de janeiro de 2008 a setembro de 2011, teve em suas rodovias federais 244 acidentes. Um dos motivos desse grande número de acidentes foi pela região possuir a maior frota de máquinas do País. Um dos principais riscos aos quais os operadores de máquinas agrícolas estão sujeitos quando entram em vias públicas é a interação com outros veículos, por isso, os principais tipos de acidentes são devido a colisões.

A colisão traseira foi o tipo de acidente mais frequente nas rodovias federais na Região Sul, tendo sua ocorrência agravada por conta da diferença de velocidade. Os tratores são máquinas que se locomovem a baixas velocidades, em torno de 20 km/h, muito diferentes das velocidades atingidas por carros em rodovias que superam 80 km/h. Essa diferença de velocidades muitas vezes interfere na ação do motorista entre visualizar o problema, raciocinar e reagir para evitar a colisão, não existindo tempo hábil para evitar o acidente. Por conta disto, a colisão traseira geralmente é o principal tipo de acidente nas vias públicas.

A colisão lateral está associada a ultrapassagens em locais proibidos, por parte dos motoristas de veículos de passeio. Isso pode ocorrer devido à impaciência dos motoristas com as baixas velocidades de locomoção do trator, após acharem que realizaram a ultrapassagem, por julgar o trator um veículo lento, ao tentarem voltar para sua faixa, os motoristas colidem lateralmente com o trator. Outro fator que influencia são as dimensões do trator, que são diferentes das dos outros veículos com as quais os motoristas estão acostumados. Isso influencia no resultado final da manobra, principalmente se a ultrapassagem for realizada em locais estreitos, necessitando de uma maior perícia por parte do motorista ou de prudência para que o mesmo não tente ultrapassar.

A ocorrência da colisão transversal está associada ao desrespeito à sinalização, seja por parte dos operadores ou dos motoristas. Esse tipo de colisão ocorre quando um veículo colide frontalmente com a lateral do outro, ocorrendo principalmente em locais onde existem semáforos e sinalizações indicando preferências, sendo ambos desrespeitados. A ocorrência desse tipo de acidente torna clara a necessidade de os operadores de máquinas agrícolas terem a carteira de habilitação com a categoria necessária para operar máquinas agrícolas, já que, no processo de aprendizagem para obtêla, o futuro motorista passa por um curso de legislação de trânsito.

A ocorrência da colisão transversal é tão associada com o desrespeito do operador com as normas de trânsito que Welch (2006) relata que, nos Estados Unidos, grande parte desses acidentes seria evitada se os operadores de máquinas agrícolas procedessem com o simples fato de tornar suas intenções claras, ligando o pisca-alerta quando os mesmos fossem realizar manobras como conversões à direita ou à esquerda.

No meio rural, o capotamento/tombamento é apontado por alguns autores (Schlosser et al, 2002; Arnal et al, 2005; Ansr, 2009; Juatino, 2009) como um dos principais tipos de acidentes com tratores, principalmente devido a sua locomoção em terrenos sinuosos e declivosos, associado com a inexistência de um sistema de amortecimento no trator e ao seu alto centro de gravidade. Todavia, em rodovias federais, o que se encontra são pistas asfaltadas e planas, diminuindo muito a ocorrência desse tipo de acidente. Porém, o trator continua sendo uma máquina propícia ao tombamento caso o operador não o maneje corretamente.

Falta de atenção — A saída de pista pode ocorrer por inúmeras razões, desde fatores relacionados ao operador, como falta de atenção, dormir ao volante e ingestão de bebida alcoólica, como também a situações inseguras, circunstâncias que ocorrem independentemente da conduta do operador, como a quebra do trator no meio da estrada, animal ou pessoas na pista e desvio proposital para evitar alguma colisão. O que é certo é que algumas atitudes ou práticas podem influenciar e muito para a ocorrência desse tipo de acidente.

Os freios do trator devem estar destravados para o trabalho, mas ao trafegar em estradas e vias públicas, devem ser travados, para que o operador não perca o controle da máquina

Uma delas é a seguinte, apontada por Santos, Monteiro e Macedo (2013), em um dos capítulos do livro “Segurança na Operação com Máquinas Agrícolas”, de Monteiro e Albiero (2013): o simples fato do travamento ou destravamento do sistema de freio pode causar acidentes. Quando o operador estiver trabalhando no campo e for realizar alguma manobra, ele deve deixar os freios destravados, porém, sempre que for trafegar em estradas, vias públicas ou outros locais de circulação, ele deve travar os freios, pois caso não o faça, quando for acioná- los, o operador pode perder o controle do trator saindo da pista em que está trafegando.

Acidentes relacionados à colisão com objetos fixos, como placas de sinalização, poste de iluminação ou propaganda, árvores, entre outros objetos, é um tipo de acidente que também pode estar associado à quebra da máquina, à falta de atenção do operador ou à tentativa de se evitar a ocorrência de um acidente mais sério, sendo necessário avaliar a ocorrência de cada caso individualmente.

Avaliando essa situação é prudente a recomendação da não utilização de tratores em vias públicas, independentemente de qual motivo que o leve a fazer. Tratores são máquinas construídas para realização de trabalho, não para estarem trafegando como veículo de passeio. Caso haja a necessidade de transitar com a máquina entre propriedades, transporte o trator em caminhões. Caso não seja possível, evite vias onde são permitidas maiores velocidades, pois de acordo com o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) a velocidade mínima de deslocamento em uma via é a metade da velocidade máxima permitida na mesma. Ou seja, em vias onde a velocidade máxima é de 80 km/h, a velocidade mínima de deslocamento será de 40 km/h. Como tratores se deslocam em velocidades inferiores, não estão aptos de acordo com o CTB para se deslocarem em tal via.

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