Glauber em Campo

 

LOGÍSTICA: GOVERNO NÃO FEZ E NÃO FAZ. VAI DEIXAR ALGUÉM FAZER?

GLAUBER SILVEIRA

Perdemos há pouco um grande homem, Olacyr de Moraes. Ele foi um homem sempre à frente do seu tempo. Não sabia que existiam coisas impossíveis de se realizar. Com esse pensamento, contribuiu de forma expressiva com o desenvolvimento da agricultura no Cerrado brasileiro. Quando muitos achavam inviável, ele iniciou uma ferrovia, a Ferronorte, que hoje é fundamental ao Brasil. Olacyr de Moraes parecia movido pelo lema “Não espere que façam, faça você mesmo, ainda mais se for mais eficiente a fazer”. Investiu em pesquisa, mineração, hidrelétricas, agricultura, chegou a ter mais de 40 empresas, por inúmeras vezes acreditou no Governo e se decepcionou. Ele sabia o quanto as concessões são fundamentais ao crescimento da economia.

O Governo anunciou um plano de concessões, o que não era sem tempo, após os Programas de Aceleração do Crescimento (PAC) I e II, que ficaram longe de se efetivar e realmente estruturar as infraestruturas que neles estavam planejadas e que seriam prioridades – ou seja, projetou, disse que ia fazer, mas não fez. São centenas de exemplos Brasil afora de obras iniciadas e inacabadas ou obras não iniciadas. Sendo assim, os PACs ficaram longe de acelerar algum crescimento.

Uma das grandes mudanças nesse novo pacote é que o financiamento público será de, no máximo, 70%. Sendo assim, a intenção é buscar investimentos privados, mas sabemos que o financiamento do Governo ficará longe disso. Com isso, o Governo rendeu- se a modelos da época de FHC, quando se iniciaram inúmeras concessões, outorga e privatizações, que inclusive levaram o Partido dos Trabalhadores a fazer severas críticas de que estaria vendendo o País.

Pelo visto, o Governo que, com certeza, há muito tinha entendido que tem capacidade limitada em realizar obras de infraestrutura, vai agora deixar que os setores interessados as realizem. Sendo assim, o Governo vai leiloar rodovias, ferrovias, portos, e com isso temos agora a oportunidade de modernizar, manter e fazer infraestruturas fundamentais não só ao agronegócio, mas a todo o setor propulsor de crescimento e geração de riqueza no Brasil.

A Confederação Nacional de Transporte divulgou um estudo que relata entraves logísticos ao escoamento da produção brasileira. Só o precário estado das rodovias gera custos adicionais no transporte superiores a 30%, ou seja, um prejuízo de quase R$ 4 bilhões ao ano apenas ao setor da soja e do milho. Estimam-se perdas de US$ 70 por tonelada transportada no caminho das fazendas até os portos.

A falta de uma infraestrutura de transporte no mínimo adequada tem causados danos irreparáveis ao Brasil. O resultado da falta de se priorizar obras estruturantes, e também a má qualidade do pouco que se faz, tem nos feito colher um amargo resultado que é o baixo ou quase negativo crescimento nacional. A única solução do Governo agora é reconhecer sua ineficiência e deixar que façam por ele.

Porém, por outro lado, temos uma preocupação que é esse plano de concessões andar, pois na concessão portuária temos visto entraves muito estranhos. Ou seja, para ser claro, parece que estamos vivendo o tempo que aqueles que tinham balsas para travessia de rios moviam montanhas para impedir a construção de uma ponte. Isso é notório no Brasil. Se estou sozinho e cobrando caro, mesmo com ineficiência, por que modernizar e ter concorrência?

Aí fica a pergunta: teremos investidores se a burocracia brasileira continuar sendo tão complexa e as licenças não saem? Segundos escalões do Governo mandam mais que ministros, e até ordens presidenciais em um país presidencialista não surtem efeito devido ao entrave burocrático, que nada mais é devido a interesses mais que escusos. Temos exemplos de obras no Brasil cuja burocracia custou mais caro que a própria obra. A velha máxima “criar dificuldade para gerar facilidade” deve, de uma vez por todas, gerar cadeia.

O Governo brasileiro, em todas as suas esferas, tem a mania de lançar planos, e o pior é que em sua maioria são anuais, quando deveriam ser de médio a longo prazo, com metas anuais. Nosso problema é que realizamos pouco. Estamos passando por uma crise severa, cuja retomada do crescimento dependerá da nossa capacidade em reagir com produção competitiva e exportação competitiva. Para isso, é preciso infraestrutura; caso contrário, ficaremos no atoleiro, patinando onde o Brasil se meteu.

Presidente da Câmara Setorial da Soja, diretor da Aprosoja e produtor rural em Campos de Júlio/MT