O Segredo de Quem Faz

 

O sonho (possível) das 100 SACAS/HECTARE

Leandro Mariani Mittmann [email protected]

Os integrantes do Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb), uma entidade de direito privado sem fins lucrativos formada por instituições e empresas ligadas à oleaginosa, têm uma obsessão: dobrar a produtividade brasileira média de soja, estacionada em menos de 50 sacas/hectare há uma década. Para tanto, a entidade criou, há sete anos, o Desafio de Máxima Produtividade de Soja, concurso pelo qual produtores separam uma parcela de sua lavoura para participar de um campeonato municipal, estadual, regional e nacional de produtividade. No Desafio 2014/15, o campeão foi um paranaense, com quase 142 sacas/hectare. Muitos outros superam a cada edição as 100 sacas/hectare. “O Desafio mostra que o potencial produtivo da soja pode ser atingido, que pode ser o dobro do que a gente tem hoje. Ou mais”, atesta Luiz Nery Ribas, presidente do Cesb desde abril. Mas quais são as estratégias e ações?

A Granja — Quais são os objetivos do Cesb, quem o integra e quais as ações desenvolvidas durante o ano?

Luiz Nery Ribas — O Cesb é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) que reúne vários elos da cadeia produtiva da soja, representada por profissionais da área, pesquisadores de vasta experiência, produtores no caso da Aprosoja, universidades e a iniciativa privada na área de pesquisa. Então, é um grupo de experientes pessoas que têm o objetivo de pensar estrategicamente a soja dentro da sua cadeia como um todo e trazer os melhores benefícios para o setor. Temos como principal produto hoje dentro desse trabalho em sete anos de existência o concurso Desafio da Máxima Produtividade de Soja. Dentro dos pilares do Cesb, é um dos itens mais visíveis, em que se trabalha estrategicamente em muitas áreas, e o concurso torna muito visível essa atuação. E o que se busca com o Desafio? Os resultados fantásticos nessas últimas seis, sete safras buscamos mostrar e provocar.

O intuito ao produtor de soja do Brasil é muito provocativo, visto que a nossa cultura tem potencial de altas produtividades, altíssimas produtividades. Então, são fatores que, de forma isolada, não são trabalhados, não funcionam, mas que aliados, em conjunto, no que envolve solo, clima, fertilidade, manejo e perfil, uma série de fatores que, agregados e convergentes, dão a capacidade potencial à cultura da soja produzir com alta produtividade. Isso inicia com melhoramento genético, com a tecnologia de máquinas e implementos, uma série de itens que formam esses fatores. Então, o Desafio tem esse senso provocativo e tem mostrado que há áreas neste ano acima de 120 sacas por hectare no caso do vencedor, e muitas outras áreas acima de 100 sacas.

O Desafio mostra que o potencial produtivo da soja pode ser atingido, que pode ser o dobro do que a gente tem hoje. Ou mais. Hoje a gente trabalha com 50 sacas por hectare, mas podemos colher 120, 130, 140. Aí vem o grande questionamento de um público que é muito variado. O nosso produtor questiona: “Bom, em uma parcelinha onde eu planto na mão, arranco o mato na mão, mato a lagarta na unha e rego com regador, aí eu colho mesmo...” O Desafio é muito claro e tem regras e critérios bem interessantes. Um dos critérios básicos é que seja área comercial. Ou seja, eu tenho que plantar, usar as máquinas, equipamentos, implementos, plantadeira tratorizada e colher da mesma forma, com colheitadeira automotriz, além de fazer os tratamentos e as aplicações da mesma maneira.

É possível e é passível de ser real. O produtor que participa do processo no restante da área tenta implementar (as práticas da parcela do Desafio). E a provocação é muito interessante porque no próximo ano esse mesmo produtor, seus vizinhos e o Brasil inteiro, vão se espelhar nesse pessoal, para começar a tentar melhorar a sua produtividade. Tem sido incrível, interessante o resultado. São mais de três mil participantes, e uma grande gama atingiu as 100 sacas por hectare. Então, temos um carro de Fórmula 1 com a mais alta tecnologia possível e imaginável.

E que devagarinho, aos poucos, a indústria do automóvel que está aí na nossa rua está implementando essa tecnologia, sendo possível trazer câmbio automático, uma potência diferenciada. Então, o comparativo de um carro de Fórmula 1 a um carro comum de rua é o que a gente tenta provocar no Cesb: a cultura comum de 50 sacas por hectare, e no Desafio, colhendo mais de 120, 130, 140 sacas. Essa é a linha, o pensamento.

A Granja — De tudo o que os produtores aplicam nas lavouras do Desafio, tem algo que não é aplicável em uma lavoura comercial? Surgiu uma polêmica sobre o plantio cruzado, usado por alguns produtores do Desafio...

Ribas — Você viu como é provocativo? Em um ano que o campeão usou plantio cruzado, no outro ano tivemos 200 mil, 500 mil, quase 1 milhão de hectares com plantio cruzado. Então, a gente trabalha com essa provocação, com os resultados finais de alta produtividade, sempre trabalhando a questão agronômica, técnica, econômica, social e ambiental. Nós podemos ver a cultura da soja ali no campo produzindo. A gente tem um vasto campo ao redor que congrega tudo isso. Não adianta eu gastar 101 sacas por hectare em custo para colher 100 sacas. Pra mim, não resolve nada. Então, tem se pensado nos últimos tempos a questão econômica, o que se gastou em custo de produção. Porque tem que implementar. Obviamente que o produtor tem que ter um solo preparado, corrigido, na melhor condição que tenha na sua propriedade.

Ele conhece a propriedade e define uma área para participar do Desafio. E no restante ele aplica (as práticas) também. Aí é que está: nós queremos, sugerimos que todas as práticas que foram feitas, utilizadas da área do Desafio, sejam possíveis e passíveis de serem usadas na área comercial, e o pessoal tem utilizado. Mas um evento interessante foi o plantio cruzado. O campeão de 2010, Leandro Ricci, do Paraná (de Mamborê), foi campeão nacional com 108 sacas por hectare porque um dos itens que ele utilizou foi o plantio cruzado. Ou seja, ele dobrou a população e obteve um resultado interessante. Aí a gente vai para a pesquisa, a Embrapa entre outras instituições, como universidades.

Na pesquisa, “olha, Embrapa, o plantio cruzado deu retorno, resultados, é importante...” A Embrapa e outras instituições de pesquisa, universidades, respondem “olha, a gente já testou, foi feito dez, 15, 20 anos atrás o plantio cruzado e não obtivemos esses resultados. Ou seja, vamos reestudar o caso de novo. É uma demanda que o setor está trazendo que a gente tem que dar uma resposta.” E foram ao trabalho, buscaram novamente essa prática. Tanto o produtor como o pessoal leigo acha que o plantio cruzado seria uma solução, seria uma prática definida e recomendada. Não, de maneira nenhuma. Desde que não tenha uma validação científica, e para isso são no mínimo três, quatro, cinco anos – três anos dá para ter um norte – não se pode afirmar. Deduz-se, espera-se, mas não se tem nada validado.

Levamos à Embrapa, que faz parte com a gente do comitê, e os testes, as pesquisas são feitas em três, quatro anos, e mostraram que não se teve resultado nenhum. Então, não se recomenda essa prática. O que se recomenda é o arranjo espacial diferenciado, é população de plantas por hectare, é tratamento, é a fertilidade daquele solo. Não necessariamente, e isso que é o legal, o interessante, a provocação, aquela prática feita pelo produtor naquele ano vai ser a prática número um, recomendada, definida. Então, mostrou e já definiu que tem que ter tantas mil plantas por hectare, espaçamento, aeração, luminosidade, tratamento fitossanitário que chegue à planta toda e assim por diante. Mas claro que o participante do Desafio pega a melhor área de sua propriedade.

A Granja — De tudo o que vocês viram do praticado pelos produtores, o que chamou mais a atenção? Algo que seria um ponto em comum entre eles. O que poderia servir de exemplo a outros produtores?

Ribas — Nós temos os dez cases ganhadores de todos os anos e esses cases nos mostram algumas coisas em comum realmente. Algum detalhe de arranjo espacial, ou seja, população de plantas por hectare de acordo com aquela cultivar que ele planta, e cada um planta cultivar diferente. Os tratamentos fitossanitários que ele faz na lavoura comercial não se alteram. Agora, algum insumo que não se utiliza no dia a dia, como micronutrientes procurando o equilíbrio de solo, isso tem que ser uma busca não só na utilização de produtos, mas na tentativa de equilibrar os nutrientes, o equilíbrio nutricional da planta. Em cada solo é diferente, mas todos buscam o equilíbrio nutricional, ou seja, que o solo esteja adequado, o perfil esteja corrigido. Porque há anos e safras diferentes umas das outras a vida toda. Ou chove demais, mais que no ano anterior, ou a estiagem é maior que no ano passado, os períodos diferenciados do início de plantios e assim por diante. Além do que, temos as diferenças regionais. Enquanto no Mato Grosso, a partir de 15 de setembro, já está se plantando soja e colhendo no Natal, no Rio Grande do Sul, planta-se a partir de novembro. São diferenças regionais que têm que ser adaptadas. Mas em comum eles buscam potencial produtivo dentro dos materiais.

A Granja — Por que a média da produção brasileira de soja estacionou há dez anos em cerca de 50 sacas/hectare?

Ribas — O Brasil está há dez anos, o Mato Grosso está há 15 anos... e tivemos a evolução de sair de 35 para 40 (sc/ha) em um patamar muito rápido, mas não saímos mais (das 50)... E por quê? Em primeiro lugar, porque temos 30 milhões de hectares de soja no País. No Mato Grosso, são 9 milhões. Por que estagnou? Porque se eu não trouxer para o mesmo nível, o mesmo padrão todos esses fatores que a gente comentou agora, não consigo elevar a produtividade.

Um dos itens, mas não é “o item”, principalmente na região de novas áreas, novas fronteiras, Mapitoba (Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia), Mato Grosso, Goiás, Norte e Centro-Oeste do País, tem sido o aumento da produção em função do aumento da área em novas fronteiras, nos últimos dez anos, sem derrubar nenhuma árvore, mas com a implementação e o incremento e a transformação da pecuária em agricultura, ou seja, a incorporação de áreas de 20, 30, 40 anos de pastos sem correção. Então, tem que fazer, preparar um solo para que daqui a três anos ele esteja bom. Então, isso não deixa que a minha produtividade aumente, e incremente o número global.

Não que esse seja o único fator, mas é uma das razões fortes. Na incorporação de novas áreas, eu não consigo ter a produtividade de 50 sacas no primeiro ano. E tem um custo alto. E há outros fatores que têm que ser analisados caso a caso, região por região. Se eu planto uma soja super-precoce para plantar a segunda safra de milho ou algodão, o potencial genético dessa soja não se compara ao potencial de uma soja de ciclo normal, que eu posso colher 70, 80, 90 sacas. Não consigo alinhar uma coisa com a outra. Temos aqui no estado (Mato Grosso) 3 milhões, 4 milhões de hectares (com safrinha). No Brasil, tem milhões de hectares em que se planta segunda safra, onde a soja precoce não tem o mesmo potencial de uma soja normal.

Esse é o segundo ponto, mas há outros. Será que nessas áreas mais antigas já não teria que ser corrigido o perfil de solo em profundidade? Então, são fatores limitantes que vão começando a trancar. E no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso, o veranico de janeiro é fato histórico. Então, o potencial de soja de 60 sacas vem para 35. São vários fatores que, aliados, travam o universo de 30 milhões para que não se consiga sair. Chegar a 50 sacas não foi fácil, mas sair das 50 é muito difícil. Impossível? De maneira nenhuma, tanto que o Cesb está provando isso. Mas temos notado evolução por talhão, não por área total. O produtor não consegue fazer na área total da fazenda, mas no talhão tem superado as 70 (sc/ha). E se ele não partir para isso, não sobrevive na atividade porque o custo está cada vez maior, as dificuldades de rentabilidade estão cada vez maiores.

A Granja — Em uma safra como esta 2015/16 de custos altos, históricos, que “economias” o produtor de soja não deve fazer de maneira alguma para não comprometer a produtividade e a rentabilidade?

Ribas — O produtor deve naturalmente, por ser sua atividade principal, o seu ganha-pão, o seu dia-a-dia, fazer o planejamento de sua safra muito bem feito. E com um profissional habilitado, um engenheiro agrônomo, um técnico de sua confiança, um profissional ao seu lado para fazer esse planejamento, o acompanhamento durante toda a safra. Esse profissional paga-se com a rentabilidade que o produtor vai ter no final. Então, um planejamento muito bem feito e estruturado, um profissional ao seu lado para troca de experiências e informações e tomada de decisões. O produtor tem que ter um histórico de sua área em função da fertilidade do solo com as análises de solo.

Tem que conhecer o potencial da sua propriedade. Por quê? Em um ano de crise como este, de dificuldades previstas, em que o crédito está escasso e curto, no qual o custo de produção está aumentando, e temos os dados em mão que o fertilizante que sempre foi o maior custo de produção da soja está empatando com os químicos, o óleo diesel, a mão de obra e os insumos em geral, além de tendências climáticas e previsões, o produtor tem que fazer esse planejamento como um todo. Há produtores que têm condições de fazer uma poupança no seu solo em termos de nutrientes, poupança de perfil de solo corrigido, nutrientes equilibrados.

Ele consegue racionalmente, com acompanhamento de um profissional, fazer uma redução (de adubação) que não afete de maneira nenhuma o seu solo, que atenda o que a planta exporta, o que ela vai tirar do solo, conseguindo assim fazer uma redução no uso de fertilizantes, por exemplo. Se ele tem uma poupança nos últimos cinco anos em nível de nutrientes recomendados, definidos pela pesquisa, consegue em um ano, em uma safra, e não é regra geral, utilizar a poupança que tem.

Outro fator, obrigatoriamente, não é mais “eu acho, eu sei, eu penso”, mas a forma como eu tenho que proceder é morar dentro da soja, conversar com a sua soja no dia-adia, ao meio-dia que o sol está escaldante e no final da tarde. Ele tem que fazer o Manejo Integrado de Pragas (MIP) com monitoramento efetivo, com profissionais na equipe, com conhecimento. O MIP é prático e fantástico no controle de pragas e na redução de aplicações e redução de custos. É fácil, não tem mais “ah, vou aplicar, vou ‘calendarizar’ as aplicações”. O Manejo Integrado de Doanças (MID) é o monitoramento e o acompanhamento efetivo dentro da lavoura para ver e utilizar o produto correto e adequado na hora correta e adequada na dose correta e adequada. Constantemente.