Florestas

 

A BIOTECNOLOGIA de base florestal na agricultura familiar

Juliana Degenhardt e Ivar Wendling, pesquisadores da Embrapa Florestas

Biotecnologia refere-se a qualquer aplicação tecnológica que utilize sistemas biológicos, organismos vivos ou seus derivados para produzir ou modificar produtos para usos específicos (Convenção de Diversidade Biológica, 2000). Essa definição inclui material para aplicações industriais e medicinais, assim como várias das técnicas e ferramentas comuns na agricultura e na produção de alimentos.

O uso de biotecnologias é muito antigo e teve suas raízes em descobertas fascinantes, como a fermentação de cervejas e vinhos. No entanto, foi somente em meados do século XX que a biotecnologia ganhou espaço no meio acadêmico como disciplina, com a combinação de estudos de bioquímica e biologia molecular. Desde então, a variedade de produtos e serviços disponíveis tem aumentado muito em diversos campos da indústria, incluindo a produção de alimentos e commodities, polímeros, biocombustíveis, medicamentos, energia e a provisão de serviços de proteção ambiental.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO Glossary of biotechnology) utiliza o termo biotecnologia de forma ampla como a Convenção da Diversidade Biológica (CBD), ou de forma mais restrita, como “várias técnicas moleculares como a manipulação genética, a transferência genética e a clonagem de animais e vegetais” (FAO, 2001). De qualquer forma, as novas biotecnologias envolvem, em sua maioria, grande quantidade de pesquisa. Devido aos custos elevados, muitas vezes essas pesquisas são desenvolvidas por grandes empresas de capital privado, para justificar o desenvolvimento de produtos de alto valor agregado ou destinados a grandes áreas de cultivo.

No entanto, o investimento governamental em empresas e universidades públicas pode viabilizar a pesquisa, o desenvolvimento e a inovação de várias biotecnologias para uso em menor escala, como, por exemplo, na agricultura familiar ou em pequenas empresas, entre elas a de base florestal.

A micropropagação de espécies florestais, por exemplo, propagação de plantas in vitro, possibilita a obtenção de mudas com características de interesse, geralmente selecionadas em programas de melhoramento genético. Essa técnica tem várias vantagens, como o aumento da juvenilidade das plantas, o que leva a taxas mais elevadas de enraizamento de materiais que, por outras técnicas, como a estaquia, apresentaria maiores dificuldades. Essa biotecnologia simples pode ser aplicada em combinação com viveiros comerciais e produzir mudas em média/larga escala, inclusive para produtores familiares. Um exemplo é a produção de mudas de eucalipto e, mais recentemente, a criação de viveiros de pupunha, que aliam a multiplicação da espécie com mudas melhoradas vindas de cultura de tecidos.

Marcadores moleculares — Outro exemplo é o estudo da biodiversidade, por meio de marcadores moleculares, técnicas que permitem a avaliação da variabilidade existente em populações de espécies nativas e exóticas, tanto para fins de conservação quanto de melhoramento genético. Pesquisas nessa área podem afetar diretamente o pequeno produtor, por viabilizar a produção comercial de espécies consideradas marginais pelas grandes empresas, que baseiam a sua produção em espécies exóticas, como pínus e eucaliptos.

Outra aplicação da técnica de marcadores moleculares é sua associação com o melhoramento clássico. Desse modo, é possível o melhoramento de espécies tradicionalmente utilizadas em pequenas comunidades do melhoramento participativo, sendo que técnicas moleculares podem garantir que a seleção seja dirigida para a obtenção de produtos de alto valor agregado, garantido maior renda para os pequenos agricultores e preservando o conhecimento popular.

A transgenia em espécies florestais também é uma biotecnologia que pode apresentar vantagens para a agricultura familiar. Pode ser aplicada para aumentar a tolerância da planta a pragas e doenças ou a estresses como a seca, ou para aumentar o rendimento de celulose por área, por exemplo, e por consequência de produtividade. Vale ressaltar que atualmente as pesquisas com transgênicos em espécies florestais resumem- se à inserção de genes de interesse em espécies exóticas, principalmente de pínus, eucaliptos e populus.

Independentemente da biotecnologia aplicada, é importante sempre assegurar que o seu desenvolvimento observe, em todas as suas fases, a legislação vigente e respeite a ética, a biossegurança e os direitos das comunidades tradicionais, indígenas e locais, garantindo a repartição dos benefícios.

A Embrapa Florestas, a FAO e a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf-Sul) organizaram o Simpósio Internacional em Biotecnologia Florestal na Agricultura Familiar, no mês passado, em Foz do Iguaçu/ PR. O evento tem como objetivo compartilhar informações, conhecimentos e experiências sobre o uso de biotecnologias para melhorar a produtividade e o manejo florestal sustentável e apoiar a produção de madeira industrial por agricultores familiares, incluindo o fomento florestal. O simpósio abrangeu a utilização de ferramentas da biotecnologia, como a macro e micropropagação, as aplicações de marcadores moleculares, a biotecnologia baseada em micro-organismos, a genômica e a modificação genética.

O evento teve palestras de posição e estudos de caso nos temas biotecnologia florestal, biotecnologia e comunidades tradicionais, florestas na agricultura familiar e fomento florestal, além de apresentação de trabalhos científicos em formato pôster. Mais informações sobre o evento em www.fbs2015.com.br.