Saude

 

Protetor SOLAR também é EPI

Projeto criado no Rio Grande do Sul alerta trabalhadores e produtores sobre a importância de proteger a pele dos efeitos nocivos da exposição solar

Denise Saueressig [email protected]

Não é só a sanidade da plantação que deve estar em dia. Para garantir a qualidade de vida e um trabalho bem feito, o produtor e o trabalhador rural não podem descuidar da própria saúde. Para quem trabalha no campo, as recomendações são importantes para evitar acidentes e a contaminação por agroquímicos utilizados na lavoura. Mas os cuidados devem ir além e incluir a proteção da pele, que em boa parte do tempo fica exposta ao sol.

A necessidade de alertar sobre a importância dessa prevenção motivou a criação do Programa Campo e Saúde, lançado em março pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural no Rio Grande do Sul (Senar/RS), em parceria com a Bayer CropScience e com o apoio da Sociedade Brasileira de Dermatologia no estado.

Uma das motivações para o projeto veio da grande procura por cursos do Senar relacionados à saúde no ano passado. Tanto que o treinamento mais solicitado foi o de Aplicação Correta e Segura de Agroquímicos, com 420 atividades realizadas.

A meta do Campo e Saúde é promover 200 palestras para 10 mil produtores, trabalhadores rurais e seus familiares ainda este ano, detalha o superintendente do Senar/RS, Gilmar Tietböhl. “No final do ano vamos fazer uma avaliação e analisar a possibilidade de continuidade do programa, de acordo com a demanda e com os resultados obtidos”, afirma.

As primeiras atividades foram realizadas em maio, em municípios do interior do estado. Além de assistir a uma apresentação, os participantes também recebem um kit com protetor solar, boné árabe, protetor auricular e óculos transparentes de segurança. O conteúdo das palestras inclui a abordagem dos riscos decorrentes do trabalho a céu aberto, os sintomas das principais doenças de pele e o correto manuseio e armazenamento de defensivos.

A gerente de Stwardship da Bayer CropScience, Adriana Ricci, destaca que o projeto está alinhado com as ações de responsabilidade social realizadas pela empresa. “Acreditamos que a educação é uma ferramenta essencial para a conscientização e mudança de atitude”, avalia. Para ela, além do enfoque sobre o uso do tradicional Equipamento de Proteção Individual (EPI), é essencial que seja estimulado o uso do protetor solar. “Muitas vezes o produtor está mais exposto ao sol do que aos agroquímicos. É um comportamento comum, a maioria das pessoas é displicente em relação ao sol, mas o risco é diário”, constata.

No Rio Grande do Sul também vigora, desde o ano passado, a chamada Lei do Protetor Solar, que prevê a distribuição gratuita de protetores a agricultores familiares por meio da Secretaria da Saúde do estado. Cada agricultor cadastrado junto a um sindicato da categoria tem direito a receber três unidades do produto por ano.

Alerta para o câncer de pele – O câncer de pele é o mais frequente no Brasil e corresponde a 25% de todos os tumores malignos registrados. “Os estados onde predomina uma população com características europeias, como pele clara com baixa capacidade de bronzeamento, olhos azuis ou verdes, cabelos loiros ou ruivos, que possuem muitos sinais espalhados pelo corpo, mostram maior incidência de casos”, relata o médico dermatologista Sérgio Dornelles.

O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima um aumento de ocorrência da doença no Brasil. Em 2012, o registro foi de 134.170 casos novos de cânceres não-melanoma (sinônimo de carcinomas na pele). Em 2014, o número passou para 182.130. O melanoma tem a letalidade elevada, mas a incidência é baixa. São 5.890 casos, sendo que as maiores taxas encontram-se na região Sul.

O efeito cumulativo solar está entre as principais causas da doença. Existem estudos comprovando que o período que determina maior risco às transformações celulares futuras em função da exposição solar está na faixa de zero até 16 anos de idade. “Sendo assim, trabalhadores que precisam se expor ao sol precocemente têm maior risco de desenvolver câncer de pele na vida adulta. Sabe-se, por exemplo, que muitas famílias de agricultores levam seus filhos pequenos ao campo durante suas atividades profissionais”, menciona Dornelles.

O cuidado adequado com a pele inicia com a aplicação de filtros solares clássicos, que podem ser com altos fatores de proteção solar (FPS) quando a exposição for de várias horas/dia (FPS 50 ou mais). O indicado é reaplicar o produto a cada duas horas. “É necessária também a utilização de chapéus de abas largas ou bonés e cobrir o corpo com roupa de tecidos filtrantes, como o nylon e o poliéster, que têm maior poder de proteção, ou tecido de algodão de densidade alta. É importante lembrar que não só a cabeça e o rosto, mas também as orelhas, o pescoço e os braços, que costumam estar menos protegidos, precisam de cuidados”, orienta o dermatologista. O especialista ainda recomenda a proteção dos olhos com óculos escuros de ótima qualidade para ajudar a evitar o aparecimento de catarata precoce.

Atenção aos sinais — Mudanças em manchas ou lesões que já existiam de forma inalterada por meses ou anos são indicadores de que a pessoa deve procurar um médico para investigação. “Os carcinomas, que mais comumente aparecem em áreas de maior exposição, como rosto, orelhas, pescoço, dorso das mãos e antebraços, podem ser caracterizados por pequenas feridas que não cicatrizam dentro do prazo habitual de lesões benignas traumáticas (10-20 dias), mas também podem aparecer como lesões elevadas e avermelhadas, que aumentam gradativamente”, descreve Dornelles. Já o melanoma cutâneo é um tumor mais grave e, na maioria das vezes, é uma mancha que pode ter as bordas irregulares e é predominantemente escura. No entanto, ressalva o dermatologista, também podem surgir várias cores na mesma lesão.