Conjuntura

 

Um EQUÍVOCO sobre a agropecuária brasileira

Ao contrário do que muitos interpretam, as exportações do campo não são intensivas no uso de recursos naturais. Incorporado a esses produtos há um modelo moderno e muito bem sucedido de inovação tecnológica, validado pela competência dos produtores e de eficientes indústrias

Ignez Vidigal Lopes e Mauro de Rezende Lopes, respectivamente chefe e pesquisador do Centro de Estudos Agrícolas, da FGV/RJ, [email protected]

O propósito deste texto é desfazer um grave equívoco de que as exportações agropecuárias são intensivas em recursos naturais, somente. A produção de cereais, fibras e oleaginosas dependem de fato de água, solos e luz do sol. Mas, as exportações agrícolas são também intensivas em tecnologia de ponta. Não se pode incluir os produtos agrícolas em uma categoria genérica em que estão o minério de ferro e o petróleo; eles distinguem-se desses dois minerais, os quais são, sim, dependentes de recursos naturais, pela tecnologia empregada.

O grande equívoco sobre os produtos agrícolas decorre de carência de conhecimento e desatualização do que seja a agricultura moderna. Devemos desfazer esse equívoco e atualizar as informações acerca do que é o conteúdo tecnológico dos produtos agropecuários, sobretudo para muitos acadêmicos e principalmente para os formuladores de políticas públicas.

Além de desinformação há, também, em casos extremos, preconceito. Há imagens distorcidas do que seja produto agrícola devido a imagens criadas por Pero Vaz de Caminha (“em se plantando tudo dá”). Há ainda a persistência na memória de paradigmas oriundos de imagens criadas por Monteiro Lobato, de um Chico Bento. A ideia que ainda muitos economistas e formuladores de política têm é a do Brasil dos ciclos econômicos, do café e da cana-de-açúcar, dos séculos XVIII e XIX. Estamos no século XXI e não podemos raciocinar com uma cabeça de séculos antes do século XX.

De fato, houve um tempo em que a agricultura resumia-se ao uso de machado, fogo e enxada. As sementes eram como o “milho de paiol” e grão. Hoje tudo isso não mais existe. Até as sementes dos produtores, a semente crioula, é resultado de experimentação por parte do homem do campo e é tratada como um produto com tecnologia. A agricultura não tem nada disso. As tecnologias biológicas e mecânicas usadas pelos produtores colocaram o país na fronteiras do conhecimento e no limite da tecnologia de produção. As nossas tecnologias são hoje o benchmarking dentro de padrões mundiais, principalmente em matéria de tecnologia de agricultura tropical.

Além da denominação de commodity, há ainda o debate sobre a “maldição dos recursos naturais”, que ganhou intensidade no Brasil nos últimos anos a partir da escalada dos preços dos produtos básicos de exportação. Essa suposta maldição refere- se à aparente contradição entre uma melhoria nos termos de troca do País, a par dos ganhos de curto prazo em termos de poder de compra do País, e as consequências negativas também no curto prazo de, por exemplo, um grande afluxo de dólares, que fazia com que o dólar caísse e o real sobrevalorizasse.

Ignez e Mauro: além de desinformação, há também, em casos extremos, preconceito. Há imagens distorcidas do que seja produto agrícola devido a imagens criadas por Pero Vaz de Caminha (“em se plantando tudo dá”)

“Economia primário- exportadora” mesmo? — Assim, as consequências negativas do aumento das exportações agrícolas estariam associadas à “primarização” da pauta de exportações, um Brasil com uma “economia primário-exportadora” – tudo isso, termos com conotações pejorativas. Pensava- se que só os produtos industriais tinham tecnologia. Os fatos incumbiramse de mostrar que as indústrias perderam ímpeto em anos recentes, enquanto as exportações agrícolas foram a sustentação da balança comercial brasileira.

A realidade é que as chamadas commodities agrícolas eram mais do que produtos intensivos em tecnologia agropecuária. Na verdade, eram produtos intensivos em tecnologia mecânica, em tratores, colheitadeiras e equipamentos; em competência dos produtores, em tomar riscos e vencer as vicissitudes da natureza com tecnologia, conhecimento e ciência da gestão; além da contribuição de indústrias das mais eficientes do mundo, a montante e a jusante do elo de produção. A agricultura brasileira e as indústrias que lhe dão apoio estão na vanguarda da ciência, tecnologia e inovação (CT&I) no mundo. O Brasil, mercê de suas pesquisas lideradas pela Embrapa e instituições a ela associadas, colocou-se entre as maiores nações agroexportadoras do mundo.

De fato, a agropecuária do nosso País distingue-se da indústria porque seus avanços tecnológicos foram gerados dentro de um Modelo de Inovação Tecnológica e Institucional implantado nos anos 1980 com a Embrapa e instituições parceiras (organizações estaduais de pesquisa agropecuária e fundações privadas de pesquisa agropecuária nos estados). Com investimentos em CT&I, com a competência dos produtores do Brasil e a pujança das indústrias de insumos, máquinas e equipamentos, o País assumiu uma posição indisputável de nação de elevados níveis de competitividade no mundo – posição essa validada pelos grandes países importadores. O Brasil é hoje uma das maiores nações agroexportadoras de produtos agrícolas de alta tecnologia. A agricultura compete no exterior com nações na vanguarda da pesquisa.

Mesmo os solos têm importância relativa. O que é solo hoje é fruto de uma construção de uma base sólida de áreas de cultivo feita com tecnologia e investimentos, e competência dos produtores que dominaram as tecnologias dos cerrados – outrora considerado uma região com solos quase inservíveis para os cultivos. Vale notar que, depois de se “abrir” uma área, o solo não apresenta boa produtividade no primeiro ano. O solo só será altamente produtivo depois de três a cinco anos de aplicação de calcário e fertilizantes, além do uso de práticas sofisticadas de manejo do solo e muita, muita experiência.

Os recursos naturais pesam pouco nos custos de produção. No custo de produção de uma tonelada de soja, de recursos naturais mesmo só há 20,2%, que é o custo do fator terra. No restante dos custos – na cadeia de agregação de valor à terra – o custo do trabalho pesa 6,79%; a química fina (defensivos), com 12,5%; as máquinas e equipamentos, com 19,3%; fertilizantes, com 18,8%; sementes e royalties de transgênicos, com 7,3; a armazenagem, com 4,1%. A amortização do capital fixo monta a 3,1%; e os demais itens somam 32,9% dos custos da produção. Não está computada a remuneração da atividade empresarial, que é obtida por resíduo: se o produtor acertou nas decisões, ele ganha; se não, perde.

Da porteira da fazenda ao porto de embarque das exportações não há despesas com “recursos naturais”. Portanto, quando exportamos a terra, há uma participação ínfima nos custos de produção. Exportamos, sim, produtos de alta tecnologia. A semente, sem o pagamento dos royalties – que participa com 4,7% dos custos –, é um invólucro que contém as mais avançadas tecnologias em genética e biotecnologia. A semente pesa pouco nos custos e muito na eficiência produtiva e na competitividade do agro brasileiro.

Note-se que, com esses avanços tecnológicos e com a densificação de espaços geográficos outrora vazios, como os cerrados, o Brasil deixou de produzir commodities intensivas em recursos naturais e passou a exportar produtos de elevados níveis de tecnologias (biológica e mecânica).

Na verdade, incorporado aos produtos há um modelo muito bem sucedido de inovação tecnológica, testado e validado pela competência dos produtores; há um complexo industrial de elevados padrões tecnológicos, que são o benchmarking das indústrias similares no mundo; e há um conjunto de médias e pequenas empresas prestadoras de serviços técnicos de grande competência. Esse grande complexo é parte integrante do desempenho do agronegócio brasileiro. O desempenho do agronegócio brasileiro não é uma maldição oriunda do uso de recursos naturais. A sobrevalorização cambial tem outras causas. As receitas de exportações de produtos agrícolas são uma bênção para o País.

O que é solo hoje é fruto de uma construção de uma base sólida de áreas de cultivo feita com tecnologia e investimentos, e competência dos produtores que dominaram as tecnologias dos cerrados