Reportagem de Capa

 

Custos pesados: como enfrentar essa ASSOMBRAÇÃO

Todos os ingredientes para fazer a próxima safra de verão subiram: fertilizantes, defensivos, sementes, diesel, energia elétrica, mão de obra e até os juros do custeio. Não adianta reclamar: o plantio que vem aí está e será bem mais caro. Em todas as regiões, em todos os cultivos. Uma média de 15% a 20%. Até mais. Porém, é possível, sim, na prática, tanto no âmbito da gestão do negócio como na execução da lavoura, fazer os cultivos menos onerosos – mas igualmente ou mais produtivos que os anteriores. Acredite, dá para gastar menos e/ou melhor – e colher muito bem

Leandro Mariani Mittmann
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Um espectro ronda a safra de verão 2015/16, independentemente da região, do cultivo, do perfil e do tamanho do produtor: os custos de produção. Não que este fundamento em qualquer negócio nunca tenha sido uma grande preocupação de todo empreendedor. Bem pelo contrário. Mas para a safra vindoura os desembolsos com defensivos, fertilizantes, diesel, mão de obra, juros e assim por diante viraram assunto nacional.

Produtores estão perdendo o sono, entidades classistas trouxeram o tema aos debates e para a pauta de reivindicações, experts em cultivos foram acionados para prestar orientações sobre como produzir com menos dinheiro, para máquinas e equipamentos serem reguladas com mais precisão para evitar desperdícios.

A questão é que há uma unanimidade: na prática, a realização da nova safra será mais cara. Fala-se que a mais dispendiosa até hoje na agricultura brasileira. A principal explicação – mas não a única – para a necessidade de se desembolsar mais para plantar o mesmo tem cinco letras: dólar. O câmbio – leia-se real desvalorizado, circunstância macroeconômica que tanto ajudou o produtor a incrementar seus ganhos na recente safra 2014/15, agora está cobrando sua conta na de 2015/16. Além disso, o dinheiro do Tesouro sumiu dos bancos. E o Plano Agrícola e Pecuário da nova safra terá juros mais caros, um salto e tanto de 6,5% para 9%. Portanto, como a lavoura que vem aí será muito mais pesada, nada mais lógico do que melhorar a eficiência no uso de insumos. Para utilizá-los em menor quantidade e para feitos mais eficazes.

Dólar, de amigo a vilão — Em um segmento econômico como a agricultura que funciona à mercê das oscilações do real em relação ao dólar – afinal as cotações das principais commodities são definidas em Chicago e Nova Iorque, enquanto as matérias-primas dos insumos essenciais chegam pelos portos –, é natural que uma significativa desvalorização da moeda brasileira frente à americana cause um terremoto. Meses atrás, quando o produtor vivia a fase de comercialização da safra, a economia brasileira passava por dias de destemperos, e a cotação do dólar superou os R$ 3. Eram tempos de uma certa bonança. Mas a tempestade chegou quando o produtor precisou botar a mão no bolso para comprar fertilizantes e defensivos. E o susto foi grande.

“A desvalorização do real por conta das incertezas do rumo da economia e da política foi o principal condutor da elevação dos preços dos insumos, porém, não foi o único”, avalia Bruno Lucchi, superintendente técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). “Citamos também o aumento dos preços dos produtos administrados, como o diesel, a energia elétrica e a mão de obra, fatores que subiram 10%, 41% e 9% em 2015, quando comparados à ultima safra”, complementa. Ele lembra que o clima também contribuiu para aumento nos custos, seja por excesso de chuvas nas regiões Norte e Sul ou pela falta das precipitações nas demais, o que causou quebra na produção de algumas culturas.

O dinheiro no banco evaporou — O consultor Carlos Cogo, da consultoria homônima, lembra que o Brasil importa em valores 72% das matérias-primas dos fertilizantes e defensivos. “Dessa forma, a alta da taxa cambial impacta diretamente sobre esses insumos. A alta acumulada real de 20% do dólar em 2015 deve ser integralmente repassada aos custos para fabricação/produção e, portanto, aos preços desses insumos”, destaca seu relatório de maio de custos de produção e margens de lucratividade de grãos. “O pacote de insumos básicos (sementes, fertilizantes, e defensivos, entre outros) responde por 58% a 65% dos custos de produção dos grãos no Brasil”, esclarece. “Isso é muito importante. O que acontece com esse pacote afeta todo o custo de produção”, diagnostica. Além disso, o consultor menciona o caso da energia elétrica que chegou a aumentar 50%. “É muito, é muito...” Já o diesel subiu de 6% a 8%.

Cogo ainda acrescenta que outro elemento para a subida dos custos foi a impossibilidade de muitos produtores efetuarem as compras antecipadas neste ano em razão da falta de recursos disponibilizados pelo Governo. Segundo ele, normalmente no mês de maio 90% da contratação de insumos já teria sido realizada, mas em 2015 isso não aconteceu. Ou seja, o produtor não conseguiu comprar mais cedo e vai pagar mais caro pelos produtos. O Banco do Brasil, principal financiador da agricultura brasileira, liberou até abril um volume de recursos 18,8% inferior em comparação aos primeiros quatro meses de 2014, o menor volume em dois anos. “Isso mostra que o dinheiro encolheu”, deduz. De acordo com ele, os bancos não estão recebendo recursos do Tesouro, e assim até se dispõem a emprestar ao agricultor, mas a taxas de 15% a 18%/ano, e não a 6,5%, conforme o Plano Agrícola e Pecuário 2014/15 (em vigência até 30 de junho).

Cogo, que realiza um levantamento dos custos nas principais regiões agrícolas do País, calculou que os desembolsos para fazer a safra de verão aumentaram de 7% a 25%, conforme a cultura e a região. E o produtor pisou no freio. De janeiro a abril houve queda de 8,7% nas vendas de fertilizantes e 15% em insumos na comparação ao mesmo período de 2014. No caso dos fertilizantes, apenas em abril caiu 20,9%, “um tombo, completamente incomum”, define.

O consultor lamenta que, sem recursos, o Governo não liberou o dinheiro para o pré-custeio, como vinha ocorrendo há muitos anos ainda em fevereiro, março. “Tem que ser praxe, não regra flutuante”, diz. Dessa forma, o agricultor vai acabar reduzindo o uso de tecnologias, o que não é uma saída recomendável. “É a hora de apostar em cima da tecnologia. O produtor tem que focar no que sabe fazer: plantar direito, plantar na área que já conhece”.

Lucchi, da CNA, lembra que uma boa estratégia ao produtor é fazer a compra dos fertilizantes, um item representativo na planilha dos custos, no momento em que normalmente o insumo custa menos. “De acordo com o Rabobank, nos últimos dez anos os valores desse insumo sempre sobem no segundo semestre, época em que o produtor inicia o plantio (maior demanda) e devido a problemas de infraestrutura e logística (ineficiência dos portos e alta no frete)”, esclarece. “Quanto ao dólar, apesar da forte valorização no primeiro trimestre, no segundo houve queda. No entanto, grande parte dos boletins econômicos indica aumento no segundo semestre, o que remete aos produtores utilizarem algumas ferramentas para minimizar os riscos, como o barter ou hedge de câmbio”, sugere.

Além das ações individuais por parte do produtor, ele defende políticas mais consistentes para amparar situações como a do momento. “Dadas às circunstâncias econômicas e climatológicas atípicas, o setor agropecuário necessita de políticas em diversos níveis de complexidade para auxiliar o produtor a passar pelas adversidades”, afirma. “Entende-se que são necessárias ações emergenciais, estruturantes e plurianuais que atendam as cadeias produtivas do agronegócio. O crédito rural apresenta-se complexo, com alto custo operacional, com exigência de certidões em papel e fiscalizações sem efetividade”. Ele acrescenta que os produtores têm assumido quase que integralmente os riscos e as incertezas da produção agropecuária, sobretudo a volatilidade da renda.

Os pesquisadores do Centro de Estudos Avançados de Economia Aplicada, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Cepea/ Esalq) Mauro Osaki e Renato Garcia Ribeiro lembram que o câmbio não é o único fator que justifica a elevação do custo de produção. No início do ano, os preços regulados pelo Governo sofreram fortes reajustes, como 11% do diesel entre dezembro e março, enquanto a energia elétrica encareceu a irrigação e o armazenamento, e aumentaram os juros sobre capital investido.

“Em média, em abril, tomando por base preços de insumos agrícolas e coeficientes técnicos coletados em painel, os custos podem ficar em média 20% maiores que a mesma época da safra passada”, afirmam. Eles estimam que os fertilizantes, tomando por base o mês de abril, chegaram a ficar cerca de 15% a 20% mais caros quando comparados a abril de 2014.

“O momento atual exige cautela, e que o produtor consiga aproveitar da melhor forma possível todos os fatores de produção que já possui a fim de otimizar as receitas e consequentemente seus ganhos”, advertem. Conforme eles, os produtores de grãos, na maioria das regiões, vêm de safras passadas boas e conseguiram realizar todos os tratamentos e adubações que as culturas necessitavam. Assim, é possível aproveitar, mas quando a análise de solo permitir, a reserva de nutrientes que existe no solo e reduzir um pouco o uso de fertilizantes.

Osaki e Ribeiro ainda deixam para pensar uma sugestão aparentemente radical, afinal o produtor não deve deixar de contabilizar os custos e avaliar se a sua atividade vale mesmo à pena. “Estamos passando por um período em que os juros estão mais altos, os custos também estão em alta e os preços das commodities em baixa.

Caso a rentabilidade esteja negativa na sua avaliação, o produtor pode optar por arrendar para um vizinho, ou mesmo buscar outra atividade que tenha menos risco no momento, como a pecuária”, preconizam. Eles apontam ainda que um dos principais equívocos de muitos agricultores é não saber exatamente quanto gastam para fazer a lavoura. “É muito claro que no campo ele é um profundo conhecedor da agricultura, mas por diversas vezes, uma maior produção não implica diretamente em maiores ganhos”, justificam.

Pés no chão — No Mato Grosso, maior produtor de grãos, os dirigentes das entidades classistas mostram-se muito preocupados. “A soja está 15% mais cara no mínimo”, mensura Ricardo Tomczyk, presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso (Aprosoja- MT), a realidade no seu estado no momento em relação a maio de 2014. “O custo vem em crescente constante”. O dólar um ano atrás valia R$ 2,30, e agora gira em torno de R$ 3,00, lembra ele, um incremento de 30%. Felizmente algumas matérias primas de insumos em nível global diminuíram de preço, “mas não o bastante para segurar o custo em real”, avalia.

Em meados de maio, as compras de insumos no Mato Grosso para a safra de verão estavam “bem travadas”, conforme Tomczyk. Afinal, ninguém achava mais nos bancos um centavo dos recursos do Plano Agrícola e Pecuário 2014/15 a juros de 6,5%. Já os recursos próprios das instituições bancárias eram oferecidos a taxas de 18%/ano. Ou seja, um dinheiro impraticável, assim como é oneroso o apoio financeiro oferecido pelas tradings. “O produtor não tem dinheiro para comprar porque não tem crédito”, justifica o dirigente. A falta de recursos quebrou um ciclo de cinco anos estáveis. Além disso, explica Tomczyk, neste ano atrasou o anúncio do Plano Agrícola e Pecuário (de 19 de maio foi empurrado para 2 de junho), cujos recursos ficam sempre à mão do produtor antes mesmo da solenidade de oficialização do pacote. Ele resume: “A taxa de juros vai contribuir ainda mais para o aumento dos custos”.

Tomczyk recomenda ao produtor muita, mas muita cautela ao pensar e realizar a próxima safra. “As compras têm que ser muito bem negociadas, bem planejadas”, diz. Assim como utilizar de maneira racional os insumos. “Não perder o controle das pragas para fazer o uso dos defensivos disponíveis”, exemplifica. “É hora de estar com os pés no chão. Responsabilidade nos compromissos. É um momento para muito controle. Não é hora para aumentar a área”, lista o dirigente. “Estamos no limite para a safra. A dificuldade de plantar vai dar resultado lá na frente”, anuncia. “Mas ainda é tempo de ser corrigido”, complementa.

A união encolhe os custos — “Estamos vivendo um ano atípico, principalmente depois dos últimos seis, sete anos. Diferente dos anos anteriores, estamos com dificuldades muito grandes nas linhas de crédito para a próxima safra”, traduz a realidade do produtor o diretor administrativo e financeiro da Federação da Agricultura do Mato Grosso (Famato), Nelson Piccoli. “Isso pode impactar para o produtor em custos muito altos”, avalia as consequências. “É um futuro negativo para esta safra para o Brasil inteiro”. Piccoli estima o aumento do custo de produção da próxima safra 15% a 20% ante a atual. Além disso, conforme o dirigente, nos dois últimos anos o produtor mato-grossense recebeu em média US$ 20 pela saca de soja, mas neste ano a cotação caiu para US$ 16 a US$ 18. Mesmo com o dólar valorizado perante o real, Piccoli estima que o agricultor tem recebido entre R$ 8 e R$ 9 a menos por saca.

Porém, alguns produtores, entre eles Piccoli, estão enfrentando a alta dos custos de insumos de maneira unida. Mas eles não se juntam para lamentar, e sim em cooperativas de compras e vendas. Ele integra a Coacen e a Coavil, ambas de Sorriso, instituições que negociam diretamente com as indústrias a aquisição de insumos, com preciosa redução nos valores, compras que depois são efetuadas de forma individualizada pelos produtores. A Coacen é integrada por aproximadamente 140 produtores que cultivam 200 mil hectares, enquanto a Coavil possui 22 produtores em 60 mil hectares. A compra de insumos sem intermediários possibilita reduções de 10%, 12% e 15% em comparação às efetuadas nas revendas locais. Já na venda conjunta, a receita a mais varia de meio a um dólar por saca. O Mato Grosso já possui 18 cooperativas como essas. Conta não fecha — “Estamos observando um aumento significativo nos custos. Realmente, estamos entrando no vermelho”, observa o produtor de 6.400 hectares de soja e 4.500 de milho de segunda safra em Campo Novo do Parecis/MT Alex Utida, também presidente do sindicato rural local. E a saca de soja caiu 25% em dólar na região, de US$ 24 para US$ 18, observa. Os custos na propriedade dele aumentaram 20% nesta safra em relação à anterior, que já tinha crescido ante a outra. “A gente vem em sequência dos custos em crescimento”. Até a última semana de maio, ele já tinha adquirido 60% dos fertilizantes, mas nenhum litro de defensivo. Os preços em reais do insumo subiram de 30% a 35%, revela. “Está muito alto. A conta não está fechando. Está muito mais complicado fazer negócio”, conclui.

Utida revela que não vai diminuir o uso de tecnologias em suas lavouras, mas pelo sindicato sabe que muitos outros agricultores não farão o mesmo. “O produtor vai investir menos na lavoura”, conta. “Baixar a tecnologia é muito complicado”, contrapõe. “Com insumos não tem o que fazer. A gente tem que colher bem”, interpreta. Para ele, o mais indicado mesmo é melhorar a eficiência do negócio, sobretudo a gestão financeira. Utida avalia que os produtores ainda têm um caminho longo para evoluir nessa esfera. “Da porteira para dentro dá para melhorar”, considera. “Investir em gestão para diminuir o custo operacional e melhorar a eficiência”. Utida comercializou 25% da safra 2015/16 a US$ 17,50 a saca, o que considera um “preço muito ruim, que não paga a conta”, porém, ele tinha compromissos. Mas espera uma cotação melhor para o futuro. “Todo o cenário indica um dólar forte”, avalia.

Otimização no uso de insumos — No Paraná, o consistente sistema cooperativista consegue habitualmente uma média de 5% de redução nos preços dos insumos, visto as compras volumosas feitas pelas cooperativas. E o índice repassado é ao associado. No estado, os custos dos insumos aumentaram em torno de 15%. No caso dos fertilizantes, o incremento é de 25%. “Não está totalmente fechado pela instabilidade do câmbio”, adverte Robson Mafioletti, assessor técnico da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar). Ele lembra que o estado ainda enfrenta problemas como a resistência de invasoras como buva, azevém e capim-amargoso, o que impõe a troca de um herbicida mais barato por um mais caro. Mesma situação da alta incidência de lagarta falsa-medideira, que exige a aplicação de inseticidas mais custosos.

No campo, a orientação dos mais de dois mil técnicos vinculados às cooperativas é pelo aprimoramento no uso de insumos. Mafioletti exemplifica que anteriormente muitos produtores já pulverizavam a plantação apenas ao suspeitarem do ataque de pragas. “Hoje ele vai ter todos os cuidados”, afirma. No caso de pragas, o dirigente recomenda observar o monitoramento dos ataques, assim como fazer uso da agricultura de precisão para a aplicação à taxa variável de fertilizantes, conforme as necessidades do talhão – e sem desconsiderar a análise de solos, naturalmente. “É um ano de mais otimização”, propõe Mafioletti.

Mas o produtor Marcos Simões Veiga, que com os dois filhos cultiva 217 hectares de soja em Mamborê/PR, já decidiu que vai reduzir o uso de insumos na lavoura de verão. Ele ainda não fez as aquisições para a safra de verão, nem sabe os preços, mas tem informações que subiram. “Aumentaram bastante. Principalmente para a soja. São valores significativos”, ressalta. Por isso, decidiu usar menos fertilizantes e não realizar a adubação foliar. Veiga aguarda a campanha de vendas da Coamo Agroindustrial Cooperativa, à qual é associado, para realizar as compras, já que neste período os preços e prazos para a compra dos insumos são diferenciados.

No caso dos defensivos, adotará a seguinte prática: “Vou esperar o máximo para poder aplicar. Eu fazia dose preventiva, mas vou aguardar mais para a primeira aplicação”. Ele entende que pode perder produtividade pela diminuição do uso de tecnologias, mas pensa em não radicalizar nos cortes, e sim reduzir “um pouco de cada coisa”. “Porque se diminuir muito não compensa”, entende. Veiga, como produtor médio, também está preocupado com o anunciado aumento da taxa de juros de custeio do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), taxa que foi de 5,5% na última safra. “Estão falando em 7,5%, 9%, 10%...”

“Fazer o ótimo, não o mínimo” – Como se vê no caso do produtor paranaense, não é raro, senão a regra, a tendência do agricultor pensar em economizar em insumos quando os preços destes aumentam muito. Essa atitude por vezes quer dizer diminuir o uso de tecnologia. Essa medida seria um grave equívoco, afirmam especialistas. “Se o preço da saca de soja ou milho é menor, há necessidade de aplicar adequadamente as tecnologias de manejo disponíveis para aumentar o rendimento/produtividade com rentabilidade”, lembra o professor Elmar Floss, diretor do Instituto de Ciências Agronômicas (Incia), de Passo Fundo/RS. “No manejo das culturas, é melhor fazer o ótimo do que o mínimo. É preferível cultivar uma área menor com tecnologia adequada que uma área total “à meia boca’”.

Segundo ele, existem muitas práticas de manejo da lavoura que não custam mais, como as seguintes: dessecação antecipada, qualidade da semeadura (baixa velocidade, plantio na época mais recomendada, profundidade de semeadura não maior que cinco centímetros e distribuição mais uniforme da semente), aplicação de herbicidas, fungicidas e inseticidas no momento certo, posicionamento adequado de fertilizantes, entre outras. Cada uma dessas ações ou todas juntas geram aumentos significativos no rendimento e no lucro.

Floss lista quatro verbos que, conjugados na prática, podem fazer a diferença:

- diagnosticar, identificar o principal fator limitante ao aumento do rendimento da cultura;

- inovar, buscar as tecnologias inovadoras hoje disponíveis;

- aplicar corretamente as tecnologias;

- avaliar sob ponto de vista técnico e financeiro, pois tecnologia boa é aquela que aumenta a rentabilidade da lavoura, ou seja, mais dinheiro no bolso no final da safra.

O professor menciona ainda erros do produtor que podem parecer irrelevantes, mas que comprometem muitos os números, sejam os da produtividade como os da rentabilidade. “Fazer economia de alguns reais por saca de sementes (de baixo vigor) é perder sacas de soja no rendimento; aplicar quantidades de fertilizantes que não atendem a necessidade da cultura para aqueles níveis de rendimento; fazer subdosagens de herbicidas, inseticidas e fungicidas; não usar culturas intercalares de cobertura do solo que são fundamentais na melhoria das propriedades químicas, físicas e biológicas do solo”, cita.

E acrescenta um deslize na administração: “Reduzir aleatoriamente o custeio da lavoura por causa de excesso de dívidas com máquinas/equipamentos ou pela aquisição de terras é um grande erro de gestão administrativa/financeira da propriedade, independentemente do tamanho ou da forma de exploração”. E as boas cotações da soja nos últimos anos elevaram os preços das terras às alturas – para onde foi também a ânsia do produtor em ampliar a propriedade. “No planalto sul-riograndense tem produtor comprando terra a 1.200 sacas de soja/hectare. Se o lucro médio fosse de 20 sacas de soja/hectare/ ano (na maioria das lavouras do Sul, é menor) ele levaria 60 anos para pagar”, apavora-se. “Antes de olhar para a terra do vizinho para adquiri-la, seria melhor investir na melhoria das propriedades físicas, químicas e biológicas do solo, investir nas modernas tecnologias de manejo para aumentar o rendimento e a rentabilidade de sua terra, de sua propriedade”.

Pensar no sistema — O pesquisador da Embrapa Soja Marcelo Hiroshi Hirakuri orienta que o produtor deve realizar a adubação sempre pensando no sistema, não apenas em uma cultura isolada, e ainda basear a estratégia de fertilidade na análise de solo.

No Paraná, fertilizante é o item que apresentou maior evolução absoluta de custo. “Assim, se o produtor tiver uma poupança de nutrientes, pode tirar proveito disso para controlar seus gastos com adubação.

O que o produtor deve evitar é utilizar fertilizantes que não lhe deem qualquer resposta em termos de ganho de produtividade”, diz. Hirakuri entende que o caso mais complicado está relacionado às sementes, pois quem define o que o produtor terá à disposição é um pequeno grupo de empresas. “Aqui, o produtor deve identificar as cultivares mais adaptadas a sua região de plantio e escolher aquelas que propiciem menor custo”.

O pesquisador alerta que o produtor não pode tentar economizar suprimindo itens fundamentais no andamento da lavoura ou do negócio, como a mencionada realização da análise de solo e também a manutenção de máquinas e equipamentos. “Não apenas em relação à safra 2015/16, o produtor tem que gerir sua produção agrícola com uma visão sistêmica. Ele não é apenas produtor de grãos, mas sim um empresário agrícola, que produz soja e outras commodities”, adverte.

“Com uma visão sistêmica e a aplicação de um manejo racional da lavoura, o produtor deve buscar se capitalizar e estabelecer seu capital de giro, o que permitirá ‘navegar’ com mais tranquilidade em momentos como o que estamos vivendo, com a elevação de taxas de juros, que afetam financiamentos, incluindo o agrícola”.

Energia elétrica & arroz — O aumento do custo do arroz gaúcho para 2015/16 não foi estimado oficialmente, mas deverá aumentar cerca de 10%, avalia Tiago Sarmento Barata, diretor comercial do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga). “O aumento do custo de produção de arroz vem ocorrendo de forma sistemática há vários anos, mas nesta última safra realmente atingiu um patamar bastante alarmante”, descreve. De acordo com a instituição, o custo total de produção de um hectare de arroz na safra passada foi de R$ 5.722, representando um aumento de 17% em relação à anterior. “Considerando a produtividade média obtida de 152 sacas/hectare, chegamos a um custo de R$ 37,65/saca”, revela Barata. E o preço médio praticado desde o início do ano comercial (conforme o Cepea) é R$ 2,06 inferior ao custo total de produção.

O aumento do custo de produção deve ser atribuído a um conjunto de itens, em especial à energia elétrica, um insumo bastante consumido no processo de irrigação do cereal. “O produtor gaúcho de arroz é reconhecido pelo seu know how, pela utilização de práticas avançadas de manejo, obtendo elevados índices de produtividade. Assim, são poucas as ações cabíveis ao produtor para reduzir o custo”, entende. Mas ele acha que a união dos orizicultores poderia ser uma boa oportunidade para melhorar a rentabilidade. “Inegavelmente, o arrozeiro gaúcho atua de forma muito individualizada e, sem dúvida, a organização de grupos para a realização de ações conjuntas são benéficas, como, por exemplo, as compras coletivas”.


Defensivos pela metade. Não é milagre, é manejo

Já pensou em reduzir pela metade o uso de defensivos, sem absolutamente nenhum comprometimento da defesa sanitária da sua lavoura – pelo contrário, ganhos para o bolso do produtor e à saúde dele e da natureza? Sim, isso é comprovadamente possível, constatou a Campanha Plante Seu Futuro, desenvolvida pela Secretaria da Agricultura do Paraná, Embrapa Soja, Emater/PR e Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), além de outras instituições públicas e privadas. A campanha foi implementada na última safra à realidade de 152 propriedades que funcionaram como unidades de referência em 79 municípios de todas as regiões agrícolas do Paraná. A explicação para a significativa redução: manejo agronômico da lavoura, seguir as regras amplamente já comprovadas e divulgadas a todos.

O extensionista da Emater/PR Nelson Harger, coordenador da campanha, detalha que nada do que foi feito é novo ou diferente do que é apregoado pela ciência Agronômica. A aplicação de inseticidas na soja é realizada somente a partir do que o Manejo Integrado de Pragas (MIP) prevê, jamais seguindo um “calendário” de aplicação. Ele revela que é habitual o agricultor se programar, e inclusive, fazer a aquisição dos inseticidas prevista para cinco pulverizações.

Além disso, revela, é comum no estado agricultores fazerem o uso de inseticidas para lagartas junto do herbicida glifosato, no início do ciclo da soja, o que é um dispendioso equívoco. “Ele bota o inseticida junto do glifosato. Faz um uso preventivo onde a população de pragas é muito baixa, portanto, não é critério agronômico”.

O grande segredo com o monitoramento da lavoura, explica, é entrar com o inseticida na hora mais apropriada. Enquanto nas unidades de referência o produtor fez a aplicação, em média, aos 63 dias da cultura, em lavouras de 305 produtores não-assistidos pelo Plante Seu Futuro nas regiões onde foi feita a pesquisa tal procedimento ocorreu aos 35 dias em média. A diferença é de 28 dias. O número médio de pulverizações no Paraná é de 4,8 por ciclo de soja, mais que o dobro das 2,2 efetuadas nas unidades de referência. Houve região em que a primeira aplicação ocorreu apenas no 69º dia, e só foi necessária 1,9 pulverização. Noutra, houve 1,6 aplicação. “A informação mais relevante é levar um mês a mais na primeira aplicação”, menciona Harger. No caso da Campanha, a plantação recebeu o primeiro inseticida em média já na fase reprodutiva, e não na vegetativa, como o tradicional.

Para tanto, é apenas uma questão de monitorar a lavoura para avaliar o número de pragas associado à desfolha e à fase da cultura. “Se a desfolha for baixa, não precisa aplicar”, sugere. “O objetivo do trabalho é o de racionalizar o uso do inseticida, aplicando somente quando atingir níveis de controle recomendados pela Embrapa”. Para se ter uma ideia, pelo cálculo de Harger as aplicações não realizadas multiplicadas pela saca da soja a R$ 60 e os 5,1 milhões de hectares da oleaginosa no Paraná resultariam em uma economia de R$ 850 milhões.

Da mesma forma, o uso na lavoura de coletor de esporos para o fungo Phakopsora pachyrhizi, o causador da ferrugem-asiática, reduziu o número de aplicações de fungicidas de 2,4 por ciclo da soja para apenas 1,4. E Harger reitera que todos os parâmetros e critérios da Campanha Plante Seu Futuro são agronômicos, portanto, passíveis de serem utilizados em outros cultivos e regiões do País. “Sem vaidade, está sendo considerado aqui no Paraná o melhor trabalho do País em MIP. Pode ser aplicado em qualquer lugar”, atesta.


Adubação: considere sempre as condições do solo

Não tem como acertar a adubação de uma lavoura sem a análise e interpretação do solo. Mas também não existe uma “receita de bolo”, define Leandro Zancanaro (na foto), pesquisador da Fundação MT. É preciso conhecer a lavoura in loco, seu histórico, para realizar uma adubação precisa, nem demais e nem de menos. Portanto, sem comprometer a produtividade e nem a rentabilidade. “Não tem receita de bolo pronta. É preciso conhecer o campo, o ‘paciente’”, ressalta. Zancanaro esclarece que a análise é um bom indicador, sim, mas as condições do solo em razão de um sistema plantio direto bem feito (ou não) querem dizer muito também.

“Fazer a análise de solo, a interpretação, mas tem que conhecer a lavoura. Posso ter respostas diferentes da adubação com a mesma análise de solo”, diz. O pesquisador sugere que um solo com plantio direto bem praticado ao longo do tempo pode até prescindir da adubação, visto que acumulou “poupança” de fósforo e potássio. “Boa parte do Brasil está com níveis altos de nutrientes”, informa. “Mais do que nunca ir menos nas ondas comerciais”, alerta. Por isso, ele fala em sistema de produção, safra após safra, cinco, dez, 20 anos, e não apenas em adubação. “Não é de uma hora para outra”. E deixa uma dica: “Quanto maior a produtividade, maior tem que ser a reposição e a manutenção (de nutrientes)”.