Glauber em Campo

 

A QUEM INTERESSA IMPORTAR TANTA GASOLINA?

Na abertura do segundo Fórum Nacional de etanol de milho, foi levantado o questionamento: por que importamos tanta gasolina a preços altos e exportamos milho barato, quando poderíamos inverter esta realidade e produzir etanol? Este foi o foco central do debate: o que nos impede de produzir mais etanol, uma vez que estamos importando bilhões de litros de gasolina.

Uma coisa fica evidente: falta uma política clara ao setor sucro-energético, tanto que dados do Ministério de Minas e Energia apontam que neste ano teremos que importar 4 bilhões de litros de gasolina, e em 2023, com o atual cenário das usinas produtoras de etanol, o déficit será de 26 bilhões de litros. Ou seja, teremos que importar muita gasolina. A pergunta que fica: por que nada é feito para reverter esse quadro e produzirmos mais etanol?

Uma das alternativas para diminuir esse déficit seria a troca da exportação de milho, já que temos um excedente superior a 20 milhões de toneladas, e que segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (Abpa), entidade que representa a cadeia de aves e suínos, a exportação de milho barato do Brasil faz com que outros países produzam carne que compete com a brasileira. Sendo assim, fica clara a alternativa de transformar esse milho em etanol, evitando ou, ao menos, diminuindo a importação da gasolina.

A Aprosoja já demonstrou que a produção de etanol de milho é altamente viável. Mesmo a saca de milho custando R$ 22 no Mato Grosso, os projetos se mantiveram viáveis. As usinas que já estão em funcionamento, sendo três em MT e uma em Goiás, irão consumir já neste ano algo em torno de 600 mil toneladas de milho. Para cada tonelada de milho já estamos obtendo mais de 400 litros de etanol, o que é um padrão norte-americano, além dos 210 quilos de DDGS (farelado proteico utilizado na ração animal).

A viabilidade é tanta que já tem usina flex produzindo etanol de cana e de milho, e que nesta safra produzirá mais etanol do cereal do que de cana. Por isso, por que não convertermos senão todo esse milho exportado em etanol ao invés de se importar gasolina gasolina? O que parece uma incoerência tem suas explicações, e isso ficou evidente no Fórum de Etanol de Milho.

Um dos gargalos é a distribuição, uma vez que a margem das distribuidoras e dos postos está exagerada. Enquanto a indústria que corre todo o risco de produção tem tido margens de R$ 0,10 por litro do etanol hidratado, a distribuidora e os postos têm obtido ganhos bem superiores. Afinal, o etanol sai da usina com frete pago até Cuiabá, com todos os impostos pagos, ao preço de R$ 1,70, mas nos postos vemos preços que vão de R$ 1,92 a R$ 2,10. No interior, mesmo em postos ao lado das usinas, os preços chegam a R$ 2,40.

Portanto, uma das soluções seria a distribuição direta, sem a obrigatoriedade da distribuidora. Não que elas não fossem existir, mas teríamos a oportunidade de preços de etanol mais competitivos, chegando mesmo a ser 60% do preço da gasolina, o que tornaria o biocombustível extremamente competitivo em relação à gasolina.

Outro problema é que na entressafra da cana o etanol fica muito caro, chegando a ser 75% do preço da gasolina. Isso faz com que as pessoas optem por abastecer sempre com a gasolina, uma vez que já ficou impregnado no consciente financeiro de todo cidadão que para abastecer com etanol o preço deve ser igual ou menor que 70% do preço da gasolina. Como esta entressafra é longa, em torno de quatro meses, as pessoas se habituam a abastecer com gasolina e demoram para retornar para etanol.

E fica muito claro para todos que estudam o assunto que o etanol de milho e cereais iria fazer com que tivéssemos uma homogeneidade de preço do etanol ao longo do ano. Nesse caso, iríamos deixar de ver o próprio Mato Grosso consumir o dobro de gasolina que de etanol. Ou seja, o recado que queremos dar é muito claro: o Brasil deixaria de perder divisas ao importar gasolina. Enquanto o Governo insiste em manter o controle do preço, vai-se embora o nosso milho a preços que, transformados em etanol e DDGS, seriam extremamente competitivos.

Claro que a nossa tarefa agora é mostrar as contas ao Governo e buscar uma política energética que traga segurança aos investimentos em usinas de etanol de cereais e também às flex. Aliás, os estudos de viabilidade deixaram claro que para usinas em dificuldades financeiras a grande solução é produzir etanol de milho na entressafra da cana, reequilibrando o caixa da usina em um período de ociosidade, melhorando inclusive a remuneração dos funcionários. Os projetos brotam aos borbotões e devem se multiplicar principalmente no Centro-Oeste. Milho temos de sobra, e potencial de ampliar a produção, mais ainda, como demonstrou a Embrapa durante o fórum.

O consumo potencial está evidente, o déficit energético será gigantesco, o Brasil tem uma oportunidade e aptidão posta de produzir milho, transformá-lo em etanol e DDGs, diminuindo importação, criando milhares de empregos diretos, seja com a indústria, seja com o plantio de florestas para geração de biomassa e produção de energia para a indústria de etanol e a cogeração. Sem falarmos no setor de carnes. Agora, se o Brasil vai aproveitar a oportunidade, é outra história.

Presidente da Câmara Setorial da Soja, diretor da Aprosoja e produtor rural em Campos de Júlio/MT