Na Hora H

 

UM PLANO AGRÍCOLA PARA FUNCIONAR DE VERDADE

ALYSSON PAOLINELLI

Está marcado para 2 de junho o anúncio do próximo Plano Agrícola e Pecuário 2015/16. Desta vez esperamos que não ocorra o que aconteceu com o do ano passado. O plano deve ser anunciado para funcionar mesmo. Não é uma peça de retórica ou de suposições, ou mesmo intenções. Um país que tem a sua economia baseada nos produtos que, competitivamente, é capaz de produzir, gerando não o que alguns pensam, uma pequena parcela do PIB. Na realidade, se bem medida, avaliada e colocada em suas reais dimensões, a nossa economia agrícola com certeza vai aparecer demonstrando a realidade que efetivamente representa para o nosso país.

Participei do Governo em um período de dificuldades. Naquela época, o setor agrícola (o café) era capaz de amealhar os parcos recursos com os quais éramos capazes de criar, e depois subsidiar a nossa indústria (à época, altamente obsoleta), além de importar 1/3 dos alimentos que consumíamos. E, ainda, depois da crise do petróleo, importar 80% do petróleo consumido no Brasil. Além dessa extraordinária proeza com a Revolução Verde que passou por aqui capitaneada pela nossa Embrapa, universidades e instituições estaduais de pesquisa, souberam junto com a iniciativa privada integrar-se para compor o maior programa cooperativo de pesquisas agropecuárias que o País já teve conhecimento.

Foi graças a ciência, tecnologia e inovação criadas em uma nova agricultura tropical que a economia brasileira tomou rumo. Não é só o efeito de sua participação no PIB que devemos levar em conta. Muito mais do que isto, a economia agrícola deu ao País o que ninguém esperava. De 1980, período em que o preço dos alimentos foram medidos com índice 100, sendo que em 2000 esse índice havia caído 70%, quando o preço dos alimentos passaram a ser a 30% em valores reais do que custavam 20 anos antes. Esse, indiscutivelmente, foi o grande feito da economia agrícola brasileira.

Aí estão as estatísticas da FGV e do Ipea demonstrando que, antes de 1980, os consumidores brasileiros gastavam de 42% a 48% da sua renda familiar só em alimentação. É lógico que não sobrava o suficiente para vestuário, saúde, educação, moradia, transporte e adjacências. A partir de 2000, esse gasto da renda familiar veio cair para 14% a 18%, possibilitando que a renda familiar pudesse ser deslocada para melhores condições de moradia, vestuário, transporte, saúde, educação, etc. Essa é sem dúvida a grande ajuda que a economia agrícola está dando ao País. Eu diria, se bem avaliado, isso tem muito mais valor do que os US$ 100 bilhões que as exportações do setor agrícola injetam no País anualmente.

É motivo de alta preocupação observar o descaso com que se tem tratado o setor agrícola nestes últimos anos. A preocupação ainda é maior quando constatamos que o setor agrícola continua a cada dia mais competitivo, obtendo maiores índices de produtividade, baixando custos de produção quando o preço dos serviços, especialmente os de logísticas, já são estratosféricos. Agora, ainda estamos enfrentando um novo desafio: os desajustes econômicos em montantes escabrosos exigem que a economia seja martelada para se corrigirem os erros que não foram criados nem pelo setor de produção e tampouco pelo consumidor.

O irresponsável aumento dos tributos começa a atingir diretamente o produto alimentar brasileiro. Se no início dos anos 2000 o consumidor brasileiro tinha à disposição um dos alimentos mais baratos do mundo, dez, 15 anos depois, já não o são, e em algumas regiões brasileiras o custo da alimentação já está próxima a 30% de sua renda familiar. Será que não observam isso? Não seria o suficiente para se evitar os atropelos de ajustes e planos econômicos que sempre penalizam duas classes: a classe trabalhadora assalariada que vê agora a perda de sua defesa contra a inflação; e a classe produtora desorganizada que não é capaz de colocar preços em seus produtos.

Só nos resta apelar para o bom senso. Marreta não é ferramenta para se consertar relógio de pulso. Pode até colocar os ponteiros na hora certa, mas o relógio não funciona mais.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura