O Segredo de Quem Faz

  Untitled Document

Meio século de DEDICAÇÃO à soja

O pesquisador Romeu Kiihl é um entusiasmado, como ele mesmo se define. Aos 73 anos, diverte-se trabalhando e diz que encontra muitas motivações para continuar na ativa. Em dezembro deste ano, Dr. Romeu, como é respeitosamente chamado, completa 50 anos de trabalhos dedicados à planta que ele classifica como maravilhosa. O apelido de “Pai da Soja” não veio por acaso, já que ele ajudou a desenvolver mais de 150 cultivares que expandiram o plantio do grão para o Cerrado e outras regiões do País. Engenheiro agrônomo formado na Esalq/USP, Kiihl fez o mestrado e o doutorado nos Estados Unidos, onde conta que aprendeu muito do que sabe com grandes especialistas. De volta ao Brasil, trabalhou no Instituto Agronômico (IAC), em Campinas/SP, no Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e na Embrapa Soja. Hoje é diretor científico e melhorista de germoplasma na Tropical Melhoramento & Genética (TMG), em Cambé/PR, onde foi fotografado na casa de vegetação junto à soja silvestre utilizada em pesquisas. Nesta entrevista, ele relembra momentos importantes da sua vida e fala o que pensa sobre a realidade e o futuro da agricultura brasileira.

Denise Saueressig [email protected]

A Granja – Como iniciou a sua trajetória de pesquisador da soja?

Romeu Kiihl - Com essa idade e com essa experiência, eu virei um contador de histórias. Por isso, vou falar sobre como me tornei engenheiro agrônomo. Nasci na pequena cidade de Caconde, no interior de São Paulo. A cidade era muito intelectualizada e tinha ótimas escolas. Também havia um político natural de lá chamado Pascoal Ranieri Mazzilli. Ainda que fosse advogado, ele tinha grande sensibilidade pela agricultura e também tinha fazendas. Nos anos 50, Ranieri acreditava que o Brasil precisava de agrônomos e veterinários e, por isso, criou uma iniciativa que concedia bolsas de estudos nessas duas áreas para os melhores alunos do colegial. Ganhei uma dessas bolsas e fui fazer Agronomia para me dedicar à ciência de alimentos. Fui para Piracicaba/ SP, na Esalq e, quando fiz o segundo ano e estudei genética, descobri o que realmente gostava. Acabei me tornando bolsista em genética e fui fazer estágio no IAC.

Fiz estágios em café, amendoim, milho, mamona, mas nunca em soja, que era uma cultura sem expressão nenhuma em São Paulo e cultivada apenas no Sul. Quando me formei, em 1965, meu objetivo era ser melhorista de arroz, porque queria trabalhar com plantas autógamas, ou seja, de autofecundação. No entanto, acabei sendo convidado para trabalhar com soja. Pensei: é uma leguminosa, uma cultura interessante e é autógama também. Topei o desafio. Poucos meses depois, um amigo me falou: puxa vida, você foi tão bom aluno, esperávamos que teria um futuro brilhante em pesquisa e você vai trabalhar logo com soja, uma cultura sem expressão? Mas o futuro reserva algumas coisas para nós. Alguns chamam de sorte, outros chamam de estar preparado para as oportunidades que aparecem.

A Granja – O senhor continuou seus estudos nos Estados Unidos. Como foi a experiência por lá?

Kiihl - Quando fui trabalhar no IAC, ganhei uma bolsa de pesquisa do instituto IRI, ligado à Fundação Rockfeller. Recebi a recomendação de estudar inglês porque havia a intenção de enviar os melhores estagiários para estudar nos Estados Unidos. Assim fui fazer meu mestrado no Mississippi com o Dr. Edgar Hartwig. Ele era o gênio dos gênios e iniciou o movimento da soja para baixas latitudes. Quando cheguei aos EUA, ele disse que iria me ensinar a importância do fotoperiodismo no controle do florescimento e altura de plantas e me comunicou que eu iria estudar as condições em Stoneville, a 33º graus de latitude, e nas condições simuladas de Campinas, a 23º, onde eu iria trabalhar quando voltasse ao Brasil. Isso me deu condições de compreender todo o sistema de florescimento da planta. Nessa época, ele trabalhava com uma característica que chamava florescimento tardio em dias curtos e, inclusive, fomos os primeiros a escrever um artigo sobre o assunto. Hoje chamamos essa característica de período juvenil longo.

A Granja – Como esses conhecimentos passaram a ser aplicados no Brasil ?

Kiihl - Quando voltei para o Brasil, fui trabalhar no IAC e havia duas pessoas fantásticas: o Dr. Shiro Myiasaka, do IAC, e o Geraldo Guimarães, do Serviço do Vale do Paraíba, que estudava arroz. Eles tinham a intenção de selecionar soja para a entressafra do arroz, plantada em junho, em condições de dias curtos. Eles identificaram um tipo de soja chamada Santa Maria, que era um material com período juvenil longo.

Quando fui ver de perto o trabalho, falei a eles que podia fazer melhor. Todo jovem muito entusiasmado é assim mesmo. Consegui selecionar materiais muito produtivos. Quanto menor a latitude, menor é o comprimento de dia quando é época de plantio de soja. Só que tínhamos um componente que confundia os resultados, que eram as temperaturas muito baixas. Nessa época, recebi representantes da indústria de óleo, na época era a Sanbra, que tinha interesse em fomentar a produção de algodão e soja. Um deles, da Paraíba, disse que tinha boas condições de trabalho, em uma área experimental com irrigação e perguntei a ele se testaria umas 50 linhagens para mim. Falei que gostaria de saber data do plantio, data do florescimento, altura da planta no florescimento e na maturação. Ele testou e, quando enviou os resultados, concluí que poderia selecionar soja para qualquer lugar a partir da experiência com 23º de latitude.

Quando fui para a Embrapa, em 1978, pude interagir com pessoas espetaculares de diferentes regiões. Como me relacionava muito bem com todos, eu era uma espécie de centro de recebimento de informações. Recebia as informações, analisava muito bem, planejava os novos cruzamentos e repassava as populações. Fizemos um trabalho maravilhoso na Embrapa, desenvolvendo variedades para o Brasil inteiro. Trabalhei lá até 2002, quando me aposentei, mas permaneci mais um ano e meio como consultor da Embrapa e das fundações. A partir de 2003, fui para a Fundação MT como consultor e, desde 2005, estou na TMG como diretor científico. E tudo isso é muito divertido.

A Granja – Quando surgiu o apelido de “Pai da Soja”?

Kiihl - O apelido eu não sei quando surgiu, mas sei que não sou o mais antigo em pesquisa de soja no Brasil. No final do século 19, por exemplo, Gustavo Dutra escreveu algumas coisas sobre soja, e assim vieram outros até os anos 50. Esses anteriores a mim trabalharam com soja e depois se tornaram chefes ou diretores de alguma instituição, indo para a carreira administrativa. Comigo foi diferente, porque comecei com soja e não saí até agora. Passei a ser a pessoa que mais interagiu com profissionais da área, dos mais antigos aos mais novos. E na história da soja no mundo eu tive o privilégio de conhecer o Hartwig, e eu era o discípulo favorito dele.

Como ele não tinha filhos, me considerava como um filho. Por meio dele, conheci grandes nomes do fotoperiodismo. Então, sou testemunha de alguns acontecimentos e personagem de outros. Quando comecei a trabalhar, o Brasil produzia em torno de 490 mil toneladas de soja, mas eu iniciei meu trabalho no IAC, que pensava grande e em uma adaptação ampla para a cultura no País. Por isso, tive a oportunidade de estar muito bem treinado para desenvolver as primeiras sojas para as médias e baixas latitudes.

A Granja - Quais as suas motivações para seguir trabalhando?

Kiihl - Sou fascinado por genética e um dos assuntos com os quais trabalho hoje é a resistência a nematoide de cisto. Nós temos no Brasil 11 raças de nematoides de cisto e aí você pensa que é impossível conseguir resistência a tudo isso, mas nós já fizemos. Eu costumo dizer o seguinte: melhorista é uma combinação de ciência e arte, mas também tem muito de intuição. Quanto mais ciência você tem, melhor arte você faz. Então, acho que estou melhor do que nunca. É impressionante como podemos aprender todos os dias. E uma coisa que me entusiasma demais é a nova geração, essa interação é muito salutar. Lembrei mais uma história interessante da minha vida. Até 1974 eu era um cara muito chato, era difícil trabalhar comigo. Não acreditava em ninguém e queria fazer tudo sozinho.

Quando fui fazer meu PhD nos EUA, encontrei com um colega brasileiro chamado Irineu Alcides Bays, e ele foi me ajudar a fazer inoculações no campo. Eu percebi que enquanto eu inoculava uma linha de cinco metros, ele inoculava dez metros. Ele era o dobro mais rápido do que eu. Comecei a anotar as linhas dele e as minhas, porque eu não estava confiando naquilo. Horas depois ele falou que percebeu minhas anotações e que eu não estava confiando no trabalho dele. Ele me disse que não tinha obrigação nenhuma de ficar ajoelhado sob um sol de 35 graus me ajudando. Ainda disse: “eu faço esse trabalho há três anos e você chegou ontem”. E era verdade, porque eu havia chegado no dia anterior. Ele me deu uma grande bronca que mudou a minha vida. Tanto que nos tornamos melhores amigos. Foi o maior amigo que eu tive na vida. Infelizmente, ele faleceu em um desastre de avião no Maranhão, quando estudava o desenvolvimento da soja na região.

A Granja – Como o senhor avalia a pesquisa voltada à soja no Brasil? Em que aspectos é possível evoluir?

Kiihl - Lamento não ver as universidades e a Embrapa juntas para produzir plantas transgênicas brasileiras, porque estamos muito nas mãos das multinacionais. Não me conformo com isso porque podemos competir com as multinacionais. Temos pessoas espetaculares para isso, mas precisamos convencer as pessoas disso. Com a evolução dos transgênicos, existem dois tipos de proteção de plantas, um é o sistema de proteção de patentes, que protege os genes, e existe o sistema de proteção de cultivares, que protege o comércio. Quem domina a remuneração sobre o valor da planta é quem detém as patentes e estas estão nas mãos das multinacionais. Eu gostaria que a Embrapa e as universidades fizessem esse trabalho de obtenção de patentes. Com elas em mãos, podemos incentivar empresas brasileiras. Quando estava na Embrapa, encampamos a ideia da Embrapa ser a fornecedora de variedades para os sementeiros, por meio de licenciamento e, assim, montamos um sistema de fundações do Rio Grande do Sul até o Maranhão.

Isso acabou se desmantelando. Mas acho que a Embrapa deveria se dedicar à área de genes, que oferece maior retorno e, assim, pode haver mais investimento em pesquisa. Também é preocupante a situação da assistência técnica, que foi deixada de lado no Brasil. A presidente Dilma Rousseff criou a Anater, mas não saiu do papel.

A Granja – Quais são as principais tendências da pesquisa em soja para os próximos anos?

Kiihl - Espero que sejam viabilizados novos transgênicos com tolerância a herbicidas para aumentar a competição. Nós na TMG vamos continuar trabalhando bastante com produtividade, estabilidade e resistência a doenças e a nematoides. Se eu fosse começar minha vida hoje, iria trabalhar com soja para alimentação com ênfase em qualidade, sabor, pureza e em um sistema de produção com o mínimo de defensivos, cada vez mais sustentável. Dedico grande parte da minha vida ao sistema de proteção da soja, com resistência a doenças e a nematoides. Na Embrapa Soja sempre seguimos a filosofia de uma agricultura limpa, com o uso mínimo de inseticidas e fungicidas.

Trabalhamos com o manejo integrado de pragas e de plantas daninhas e manejo da cultura de forma sustentável. Hoje o mundo está dividido em alguns grupos de pessoas: um é formado pelos que são chamados de “ecochatos”; e outro é composto por aqueles que não estão preocupados com a sustentabilidade. Mas o maior grupo é a maioria silenciosa, que pouco fala, mas pensa o que é correto. É o pessoal do bom senso, e os pesquisadores da Embrapa Soja fazem parte desse grupo.

A Granja - Como posiciona o Brasil em relação aos Estados Unidos em pesquisa e produção de soja?

Kiihl - Sou um fã dos EUA, passei quatro anos e meio lá. Eles são extremamente disciplinados e organizados. No Brasil, somos dispersos. Temos muitos bons profissionais, mas falta disciplina. Os EUA estão à frente em estudos envolvendo biotecnologia, mas dá para competir com eles. Na TMG, somos uma empresa pequena, mas temos um time de primeira qualidade. Começamos a trabalhar com resistência à ferrugem e fomos o primeiro grupo a encontrar o quinto loco com resistência à ferrugem.

Os americanos tinham descrito quatro. Fomos o primeiro grupo a encontrar o gene recessivo com a resistência à ferrugem, fomos o primeiro a clonar o gene recessivo. Então, dá para competir. Quanto à produção, acredito que vamos ultrapassar os EUA, mas não sei quando, porque a nossa economia é feita de altos e baixos. Mas existem estudos mostrando que nos próximos 10 anos há chances de aumentar 10 milhões de hectares a área cultivada em médias e baixas latitudes em regiões de Goiás, Mato Grosso e do Matopiba.

A Granja - O senhor acredita que é possível ampliar a média de produtividade da soja nacional?

Kiihl – O aumento da produtividade é uma combinação de melhoramento genético e de boas práticas de manejo. O que sinto hoje é que estamos melhorando muito geneticamente para corrigir os problemas do mau manejo, que vem também da compactação do solo devido à falta da rotação de culturas. O plantio direto é uma ferramenta maravilhosa, mas está se transformando apenas no plantio sem o revolvimento do solo. O produtor muitas vezes está no meio da roda viva da sobrevivência, da correria, mas não podemos nos desgarrar de práticas maravilhosas e querer que tudo se resolva com sementes. A soja Inox, por exemplo, da TMG, é uma ferramenta da combinação de genes resistentes à ferrugem com fungicidas aplicados adequadamente.

Assim, diminuímos o número de aplicações e vamos prolongar a vida dos fungicidas e dos genes de resistência. As ferramentas precisam ser muito bem utilizadas. Hoje nossa média de produtividade fica em torno de 3 mil quilos por hectare. Em ensaios, já conseguimos mais de 7 mil quilos por hectare, mas acho que médias acima dos 4 mil quilos por hectare será difícil, ainda que muitos produtores consigam superar esse número. A soja é uma planta maravilhosa, e eu fico irritado quando é tratada como um sistema. E não é.

A soja é parte de um sistema produtivo que envolve a rotação de soja e trigo e a alternância de soja e milho no verão. Acredito que, no futuro, vamos caminhar para um sistema extremamente sustentável que é a integração lavoura-pecuáriafloresta, que vai deixar o País imbatível na produção agropecuária. E é uma pesquisa nossa, porque temos condições de trabalhar o ano todo. Continuo entusiasmado com a agricultura e sou muito otimista em relação ao futuro do Brasil.