Eduardo Almeida Reis

  

ÓXIDO DE HIDROGÊNIO

EDUARDO ALMEIDA REIS

Chegou às cidades uma preocupação que sempre tivemos na roça: substância líquida e incolor, insípida e inodora, essencial para a vida da maior parte dos organismos vivos e excelente solvente para muitas outras substâncias, também conhecida como óxido de hidrogênio ou H2O.

Junto com ela temos a expressão "crise hídrica" e milhares de invenções para economizar a substância líquida, como a caixa do vaso sanitário que libera três litros para despachar o número um e seis litros para despachar o número dois. Duvido que seis litros de óxido de hidrogênio despachem certos números dois, entre os quais, os meus.

Tempos atrás, o executivo Carlos Alberto Lancia, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Água Mineral, informava: "A maioria das frutas e das verduras tem agrotóxicos. Faça um teste e consuma só a água dos alimentos para perceber a diferença". Ora, ora, Dr. Lancia: se agrotóxico matasse, o Brasil não estaria entupido de velhas e velhos.

É aquela história da porcentagem de água nos alimentos: acerola, 91%; morango, 90%; ameixa, 87%; alface, 97%; aipo, 94%... De outro lado, sabemos que um cientista da Universidade de Michigan calculou que a produção de um único ovo de galinha precisa de 450 litros de água; um pão de tamanho normal, 1.100 litros; e 13.000 litros de água para produzir meio quilo de carne. Cálculo maldoso para implicar com o agronegócio. Por ele, cada boi chegaria ao matadouro pesando cerca de duas mil toneladas.

Tem mais: trabalhei para o rei italiano da água mineral, que vivia criticando as nossas águas. Que me lembre, só elogiou a São Lourenço e a Caxambu em um hotel de Brasília/DF. Informo que, podendo, só tomo água mineral sem gás, que encomendo às dúzias de fardos de nove litros, seis garrafas PET. Cada litro de água está custando, no dia em que escrevo, o mesmo que um fazendeiro recebe por litro de leite vendido às cooperativas na Zona da Mata de Minas.

O dicionário do doutor Bill Gates, cavalheiro que sempre foi mais rico do que o mineiro Eike Batista, nada nos diz sobre o plural de PET (polyethyleneterephthalate), mas diz que pet, animal de estimação, faz o plural pets. E o animal que compõe estas bem traçadas pensou que pet fosse apenas cachorro, quando há gente que gosta de gatos, iguanas, serpentes, hamsters e outros bichos.

Ícaro Alcântara, médico ortomolecular, informou: "Todas as trocas de nosso corpo precisam de molécula de água para acontecer. A água hidrata, lubrifica, aquece, transporta nutrientes, elimina toxinas, repõe energia". Disse ainda que a baixa ingestão de água é responsável pelo desenvolvimento de inúmeras doenças como a cefaleia, a constipação intestinal e problemas relacionados ao ressecamento da pele e dos olhos.

da pele e dos olhos. Peço licença para dar outro exemplo pessoal. Cerca de cinco anos atrás, à noite, levantei-me para ir ao banheiro e percebi que estava inteiramente tonto. Voltei à cama e me dei conta de que naquele dia não havia bebido mais que um copo com água. A tonteira coincidiu com o que li sobre o risco de o quase idoso, que perde a sede, passar muitas horas sem beber água.

Desde então me policio para beber pelo menos dois litros de mineral por dia e nunca mais fiquei tonto, mas falávamos no início desta crônica sobre a preocupação do fazendeiro com a água, não só para beber e usar em sua casa, como também nas casas dos compadres, nos campos para as pastagens, as lavouras, os gados.

Eduardo Pires Castanho Filho, do Instituto de Economia Agrícola, publicou artigo interessantíssimo sobre o assunto. O texto é imenso e não dá para resumir nas linhas que me restam. Copio um trecho: "Mas afinal por que existe falta d'água na região metropolitana de São Paulo? Porque há um consumo maior do que a quantidade disponibilizada pelas chuvas nas bacias que fornecem água para a região, além de, como é óbvio, não se conseguir aproveitar toda a água que não é evapotranspirada e infiltrada para abastecer a demanda.

Com a urbanização, a distribuição do consumo não acompanhou a distribuição física das precipitações e a água que cai sobre o estado não consegue ser aproveitada em todo o seu potencial. Mas na agropecuária isso se inverte e cerca de 9% da precipitação, que é detida na superfície do solo, gera muita água, que acaba 'sobrando' para outros usos, como abastecimento urbano, geração de energia e uso industrial. /.../ Assim, a água não 'desaparece' na agricultura ou na pecuária".