Plantio Direto

 

O MILHO safrinha em SPD no médio-norte do MT

Engenheiro agrônomo Anderson Lange, professor e pesquisador da UFMT-Sinop/MT

O cultivo logo após a soja do milho safrinha ou milho segunda safra, como tem sido chamado, é recente em escala comercial no Mato Grosso. A exploração agrícola na década de 1970 incentivou a migração de agricultores e pecuaristas, especialmente do Sul, e o cultivo da soja iniciou no estado. Na década de 1990, produziam-se menos de 500 mil toneladas de milho segunda safra, com produtividade em torno de 30 sacas/hectare, e o que limitava o cultivo em grande escala era a falta de tecnologia e preços baixos, sendo muitas vezes o cultivo utilizado para garantir palha ao sistema. No fim da década de 1990, com o crescimento da produção animal (frango e suínos), o milho passou a ter seu espaço e exigiu mudança no sistema produtivo e investimentos em pesquisa. E a área saltou de 300 mil hectares para 1,9 milhão de hectares na safra 2009/10, e hoje estima-se algo em torno de 3,2 milhões de hectares de milho segunda safra.

Atualmente o cultivo da soja e do milho é acompanhado de alta tecnologia e investimentos pesados. A soja semeada em outubro pode ser colhida com 90-100 dias e produtividade de 70 sacas/hectare ou mais e o milho é semeado logo após. Posteriormente colhido em junho/julho, com 130- 140 sacas/hectare, garantindo lucratividade no sistema e palhada de qualidade.

O cultivo do milho safrinha logo na sequência da soja é recente em escala comercial no Mato Grosso, sendo que hoje o estado abriga 3,2 milhões de hectares desse cultivo

Tripé desrespeitado — Nesse cenário, o cultivo sem revolver o solo, denominado de plantio direto (PD), sistema plantio direto (SPD), sistema semeadura direta (SSD) ou plantio direto na palha (PDP), é utilizado, porém, ainda existem entraves agronômicos. Conforme aponta a literatura clássica, três requisitos agronômicos básicos devem ser mantidos para o correto funcionamento do sistema: o não revolvimento do solo, o uso de plantas de cobertura e a rotação de culturas. No MT, o "sistema" propriamente dito ainda não respeita o tripé, pois raros produtores usam plantas de cobertura e rotação de culturas e a formação da palhada ainda é dificultosa. Predomina nas áreas de sequeiro a sequência soja/milho (safra e segunda safra) e, em áreas em que a irrigação é utilizada, via pivô central, após a colheita do milho, o cultivo de feijão irrigado, gerando a terceira safra.

Antes de dessecar a soja, a semente de capim é distribuída de avião, o que garante ganho de tempo e melhora na germinação do capim, pois as folhas da soja já caem e cobrem muitas sementes

Além da sequência soja/milho, alguns produtores utilizam o feijão comum e o feijão-caupi na segunda safra no lugar do milho, como uma opção para rotação. Porém, a implantação do feijoeiro em fevereiro/ março apresenta dificuldades no manejo, pois na época podem ocorrer períodos contínuos de chuva, termo conhecido como "invernada", e o manejo fitossanitário é dificultado pela alta incidência de doenças. Atrasar a semeadura buscando fugir desse período crítico pode causar severa queda na produtividade, em função das chuvas cessarem algumas vezes na primeira ou segunda quinzena de abril, evento que pode ocorrer abruptamente (o "fecha torneira").

O cultivo de plantas de cobertura basicamente ocorre de duas formas. Nas áreas em que se semeia o milho, esse pode ser consorciado com braquiária (ILP), espécie que veio ajudar muito o PD no MT, sendo opção de cobertura de solo ou pastejo e, nas áreas em que a colheita da soja é tardia (março), alguns produtores optam por cultivos solteiros de braquiária, crotalária, milheto ou sorgo, sendo que, no caso da braquiária, pode haver pastejo, fazendo o "boi safrinha".

Adubo junto da semente de capim — As grandes dificuldades na região, em propriedades que normalmente têm mil, 5 mil, 10 mil e até 30 mil hectares de área cultivada, é instalar a braquiária em meio ao milho. Uma das formas mais conhecidas e estudadas é misturar a semente do capim no adubo do milho e enterrar ambos no momento da semeadura. Essa modalidade no MT esbarra em dois problemas: a dificuldade operacional de realizar a mistura adubo/capim devido ao grande volume de fertilizante (grandes áreas), e a aplicação superficial do fertilizante, que é prática comum, feita normalmente com o formulado 20-00-20 no milho, alguns dias após a emergência.

Lange: trabalhos desenvolvidos em parceria com a Fundação Agrisus buscam entender os gargalos de produtividade da região, e para tanto se acompanhou a entrada e a saída de nutrientes em alguns talhões

Usar o sistema para a engorda de animais coloca o proprietário e a equipe de funcionários em alerta dentro das fazendas. Produtores que rotineiramente cultivam a soja e o milho, quando ouvem falar em semear braquiária, já encontram certa dificuldade e adquirir animais, confeccionar cercas, treinar/contratar mão de obra para manejar o gado (peões) espanta o uso da tecnologia em grandes áreas. Além dessas dificuldades, hoje, no caso específico da braquiária, o controle químico em meio aos milhos transgênicos (BT e RR) restringe o uso de glifosato, o que se tornou um novo entrave.

Mesmo assim, alguns produtores têm implantado a braquiária, e a pesquisa tem incentivado os mesmos. A forma de implantação que tem ganhado espaço é a distribuição aérea de sementes de capim, antes de dessecar a soja, pois após a dessecação para colheita, as folhas da oleaginosa caem sobre as sementes de capim e garantem melhor índice de germinação, enquanto as restantes são cobertas na passagem da semeadora de milho, garantindo mais palha para o PD. Cabe comentar que é prática comum dessecar a soja e antecipar o ciclo em sete a dez dias, o que proporciona aumento da produtividade do milho segunda safra, pelo ganho de chuva no final do ciclo. Ainda, a implantação precoce do milho é decisiva no nível de investimento, pois quanto mais cedo for implantado, menores são os riscos de perda por deficiência hídrica no fim do ciclo produtivo, e maiores os investimentos pelo produtor.

Propriedades que têm manejo técnico adequado, solos com fertilidade construída e parque de máquinas bem estabelecido, fator esse que garante semeaduras e colheitas com rapidez, já que os dias de sol não são muito comuns na época de colheita da soja, normalmente realizam alto investimento no milho e têm alcançado altas produtividades, com médias de 130 a 140 sc/ha. Talhões isolados ou parcelas experimentais produzem de 160 a 180 sc/ha.

Essa condição de alta produtividade tem começado a provocar esgotamento de alguns nutrientes e as adubações do sistema soja/milho devem ser revistas, pois as exportações de nutrientes são altas e as reposições deixam a desejar. Para uma produtividade de 130 sc/ha (7.800 kg/ha) de milho são extraídos do solo em torno de 180, 74, 190, 43, 55 e 71 kg/ha de N, P2O5, K2O, Ca, Mg e S; e exportados nos grãos 120, 65, 53, 3, 21 e 29 kg/ha, respectivamente. A taxa de exportação do N é de 67% e do P é de 88% e, no caso do K, apenas 28%, sendo a palha um grande reservatório deste.

A dinâmica do K — Trabalhos desenvolvidos em parceria com a Fundação Agrisus buscam entender os gargalos de produtividade da região. Acompanhou-se a entrada e a saída de nutrientes durante alguns anos em alguns talhões produtivos e elaborou-se um projeto em que se pesquisa "A dinâmica do K no sistema soja/milho". Sabe-se que o N é o principal limitador da produtividade no milho e podem-se produzir de 140 a 150 sc/ha com o manejo correto, deixando ainda N residual para a soja, que tem produtividade maior em 4 a 5 sc/ha. O P aparentemente ainda não limita a produtividade, pois os solos têm estoque, decorrente de anos anteriores.

Decomposição da palhada de milho entre outubro e fevereiro e liberação de nutrientes para o sistema

O K é outro limitador. Em um ensaio na região de Sorriso/MT, em uma propriedade que mantém altas produtividades de soja e milho, em um talhão em que há deficiência de potássio, tanto no solo (30 mg dm-3) como no milho (espigas mal formadas e grãos chochos), está se mensurando a decomposição da palhada do milho após sua colheita e a taxa de passagem dos nutrientes para o solo. O estudo está investigando por que a soja não apresenta tal deficiência e também qual a resposta do milho quando este é adubado com potássio em doses maiores, ou se o K aplicado na soja resulta em incremento no milho.

Já se verificou que a palhada de milho praticamente supre a soja com K, e que este passa para o sistema em sincronia com a necessidade da soja, conforme mostra o gráfico nesta página, liberando aproximadamente 140 kg/ha de K. Mesmo omitindo o K da soja, sua produtividade não é prejudicada. Esses dados mostram que a palhada do milho garante cobertura de solo e reciclagem de grandes quantidades de nutrientes no sistema, sendo uma aliada indispensável para o correto funcionamento do PD no MT até o momento.