Florestas

 

Vantagens do eucalipto TRANSGÊNICO made in Brazil

Paulo Andrade, professor do Departamento de Genética da Universidade Federal de Pernambuco, [email protected]

No dia 9 de abril, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) aprovou em Brasília o uso comercial de uma variedade de eucalipto para crescimento rápido. Após quase quatro anos de avaliações, a Comissão considerou que os riscos que o eucalipto H421, da FuturaGene, empresa pertencente à Suzano, apresenta ao ambiente e à saúde são negligenciáveis. Mas a liberação foi cercada de bastante polêmica. Neste texto, comentarei sobre o futuro uso e as vantagens desse novo produto, sobre a avaliação de seus possíveis riscos e sobre conflitos de cadeias produtivas e alegados prejuízos à apicultura.

As plantações de eucalipto no Brasil já cobrem mais de 5 milhões de hectares, a sua maioria no Sudeste, embora haja plantações em quase todas as regiões do País. O produtor pode vender sua produção para serrarias, para a geração de energia e para a produção de celulose. Com a ajuda do clima, a produtividade brasileira é muito elevada e a cultura torna-se atrativa. Afinal, o eucalipto é hoje a madeira mais rentável entre as espécies florestais cultivadas no Brasil. Seu cultivo não exige preparo intensivo de solo, e tolera bem o ataque de um grande número de pragas.

Produtividade brasileira é o dobro da australiana, mas ainda pode melhorar. Como? — Os eucaliptos são nativos da Austrália. Quando chegaram aqui, adaptaram-se bem e, depois de muitos anos de melhoramento genético e desenvolvimento de novas formas de plantio, a produtividade brasileira disparou. Ainda dá para melhorar? O melhoramento genético clássico não está esgotado, mas os progressos são lentos porque os eucaliptos são espécies florestais que levam muitos anos para florir e dar sementes. Uma forma de "turbinar" o melhoramento é associar a ele as técnicas da engenharia genética. A adição de um ou mais genes pode melhorar o desempenho agronômico ou industrial de uma planta de forma impressionante, e foi essa a decisão da FuturaGene.

O eucalipto geneticamente modificado possibilitará obter maior volume de madeira usando a mesma área, ou, alternativamente, poderá se conseguir o mesmo volume de madeira que obteria com a variedade convencional usando menor área. Isso dá ao agricultor uma enorme vantagem. Esse produto, intei- FuturaGene ramente made in Brazil, vai fazer uma grande diferença na competitividade de nossa indústria de celulose e possivelmente também em outras aplicações.

A FuturaGene adicionou ao DNA de um híbrido de Eucalyptus grandis e Eucaliptus urophyla dois genes: um deles, que é o elemento-chave dessa novidade, provoca o crescimento mais rápido da planta; e o outro seleciona as pequenas células de eucalipto transgênico no laboratório, e depois não tem mais uso. O primeiro gene foi obtido de outra planta, muito conhecida dos cientistas, e produz uma proteína que existe em todas as plantas. A construção genética nova, contudo, aumenta um pouco a quantidade dessas proteínas nas células do eucalipto e isso é o que determina seu crescimento mais rápido. O crescimento mais rápido (o aumento estimado é de 20%) não muda significativamente as características dessa planta, que se comporta como qualquer outra variedade de eucalipto que tivesse uma aceleração de crescimento semelhante obtida por melhoramento genético clássico.

Quem avaliou os riscos e liberou a variedade? — A legislação brasileira obriga que todo novo produto transgênico, seja ele uma árvore, um milho, um mosquito ou uma bactéria, passe por uma rigorosa avaliação de risco, ao encargo da CTNBio. Nessa comissão, têm assento 52 integrantes, que são apoiados por duas dezenas de assessores. Integrantes e assessores são especialistas nas diversas áreas ligadas aos transgênicos: biologia molecular, genética, ecologia, etc. Se precisarem de ajuda, podem recorrer a outros especialistas, dentro e fora do Brasil. Todo produto que é submetido a um pedido de liberação comercial em geral já transita na CTNBio anteriormente, por vários anos, quando é avaliado na forma de experimentos em laboratório e a campo. Nenhum outro organismo ou agência no Brasil está autorizado a opinar sobre os riscos dos transgênicos além da CTNBio. Mas depois de liberado pela Comissão, o produto será analisado pelo Ministério da Agricultura, onde será registrado (se for uma planta ou um animal de produção).

Perigos que não se concretizam em riscos — A CTNBio relacionou uma lista de perigos que os diferentes atores do complexo cenário da biotecnologia já tinham indicado, além daqueles vistos pela própria Comissão. Para cada um desses perigos, a CTNBio criou rotas ao dano provável, baseadas na melhor ciência e na larga experiência com avaliação de riscos de transgênicos que vêm se acumulando no mundo. Perigos como morte de abelhas pela ingestão de pólen transgênico, aparecimento de resistência a antibióticos nas bactérias do tubo digestivo das abelhas, e muitos outros foram cuidadosamente avaliados e descartados.

O uso mais intensivo de água, que poderia impactar as microbacias, também foi avaliado. A CTNBio concluiu que os riscos são todos muito pequenos ou mesmo desprezíveis (ou, como se designa tecnicamente, negligenciáveis). Apesar disso, alguns pesquisadores e um grupo de ativistas contra a biotecnologia insistem na existência de graves riscos associados aos perigos estudados e descartados pela CTNBio.

Um conflito de cadeias produtivas que tem aparecido na mídia é a "contaminação" do mel com pólen de eucalipto transgênico, o que impediria sua venda como orgânico, dentro e fora do País. Entretanto, todos aqueles que já criaram abelhas sabem que basta ter atenção ao local onde se posicionam as colmeias, uma vez que as abelhas nunca voam mais que mil metros se houver disponibilidade de néctar nas proximidades da colmeia. Esse problema, que é apresentado como muito grave, não passa de uma questão simples de manejo.

Conclusões — Novas tecnologias, desde que ambientalmente corretas, são sempre bem-vindas na agricultura. O eucalipto GM é uma delas e será seguramente aceito e empregado pelo produtor brasileiro, sem qualquer impacto no ambiente diferente daquele que já envolve as plantações de eucalipto convencional. Os benefícios, sem dúvida, reverterão para a economia do país.