Fitossanidade

 

Máxima eficiência nas GOTAS

Deve-se buscar sempre a maior eficiência de penetração e cobertura de defensivos, assim como o aumento da vida útil da gota e a redução de sua perda

Dr. Marcelo Madalosso, do Instituto Phytus

A Tecnologia de Aplicação (T.A.) é o emprego de todos os conhecimentos científicos que proporcionem a correta colocação do produto biologicamente ativo no alvo, em quantidade necessária, de forma econômica, com o mínimo de contaminação de outras áreas ( M a t u o , 1998). Esse é o conceito clássico empregado nessa atividade que engloba muito além do equipamento trabalhado, como também o conhecimento do alvo e da gota mais eficiente para maior assertividade da técnica.

O alvo é o objeto que será atingido pelo processo de aplicação e possui características variáveis em função da mobilidade, da forma, do tamanho, da posição, etc. Por esse fato, o conhecimento da biologia do alvo é fundamental para o sucesso de controle, devendo o produto ser aplicado no momento de maior exposição do mesmo. Além disso, ele pode ser atingido diretamente, quando a gota com o ingrediente ativo (i.a.) atinge diretamente o alvo no momento da aplicação, ou indiretamente, quando a gota atinge a planta e é redistribuída – produtos com características de sistemicidade – mantendo sua atividade letal sobre o alvo que virá a entrar em contato.

Uma das a t i v i d a d e s mais complicadas da T.A. é definir e seguir o momento correto de aplicação do defensivo agrícola. Essa complexidade ocorre em função de três fatores que acontecem associados: o alvo já mencionado; a cultura, pois essa nova geração de defensivos agrícolas presente no mercado possui alta interação com a atividade fisiológica da planta, facilitando a absorção e translocação, o que aumenta a área protegida pelo produto aplicado; a condição climática, na qual situações de vento, temperatura e umidade relativa na hora da aplicação são decisivas para aumentar o tempo de vida da gota e facilitar a penetração e absorção do i.a. pela folha.

Com base nessas informações, é fundamental o entendimento do processo de formação de gotas que quebra o volume de líquido contido no tanque em um grande número de partículas (gotas). A ação de quebra pode ser através da força centrífuga (atomizador rotativo) ou hidráulica (trator). Este último varia o tamanho da gota de acordo com a pressão com que o líquido passa no orifício da ponta de pulverização. Assim, para uma mesma ponta podem ser produzidas gotas médias a grossas, em baixas pressões, e gotas finas a muito finas, em altas pressões.

A unidade do tamanho de gotas é a micra (µ), que corresponde a 0,001 mm e sua medição torna-se altamente necessária para ajudar o técnico na escolha correta para determinada operação. Dessa forma, é possível evitar perdas e aumentar o potencial de penetração e cobertura de folhas com o produto apenas com a calibração para produzir a gota correta.

A medição do espectro de gotas é realizada através do valor do DMV (Diâmetro Mediano Volumétrico), que representa o diâmetro de gota que divide o volume pulverizado em duas partes iguais, ou seja, metade do volume é constituída por gotas maiores que o DMV e metade por gotas menores que o DMV. Nota-se que o valor DMV está situado mais próximo do limite superior das classes de diâmetro, pois o volume de poucas gotas grandes equivale ao de muitas gotas pequenas (Onorato et al., 2006).

O tamanho da gota é classificado e categorizado de acordo com um padrão internacional, permitindo que comparações sejam feitas entre diferentes tipos de pontas de pulverização. A classificação do tamanho de gotas é uma tarefa que vários órgãos desempenham, porém, dois deles são os mais conhecidos e utilizados, a Associação Americana de Engenheiros Agrícolas e Biólogos (Asabe) e o Conselho Britânico de Proteção de Cultivos (BCPC). A Asabe atualizou recentemente a norma S572.1, que inseriu as categorias de gotas "Extrem a m e n t e fina" e "Ultra grossa", alterando alguns intervalos entre as outras categorias já conhecidas.

Essa norma fornece padrões específicos para medição de gotas e é a mais utilizada porque trabalha com um conjunto de pontas de pulverização de referência para normalizar dados e eliminar diferenças de interpretação quando comparados dados estatísticos. Sem esses parâmetros, seria impossível tecnicamente escolher a melhor gota ou a melhor ponta de pulverização e, tampouco, compará- las. Além disso, é possível trabalhar com grande parte dos equipamentos do mercado, pois a gota desejada pode ser produzida pela maioria das pontas de pulverização ou atomizadores através da calibração.

É fundamental o entendimento desses intervalos de tamanho de gotas quando relacionamos os potenciais de perdas das gotas diminutas e dificuldade de atingir o alvo com gotas maiores. Dessa forma, gotas grossas (> 218 µm) são boas para regiões com vento, devido ao efeito antideriva, porém, possuem penetração deficiente no dossel da cultura, não sendo recomendados para fungicidas, inseticidas e herbicidas de contato. Já gotas finas (< 136 µm) promovem boa penetração de gotas no interior do dossel cobertura foliar, entretanto, são altamente vulneráveis ao arraste pela deriva. Aliado a isso, o tamanho da gota que é produzida pela ponta de pulverização não permanece do mesmo tamanho quando atinge o alvo, reduzindo em até três vezes.

Baseado nesste conjunto de informações, é possível chegarmos à conclusão de que há um espectro de gotas com uma relação agronômica mui- Diagrama de mobilidade das classes de defensivos agrícolas na cultura da soja to eficiente, entre a menor perda por deriva e maior penetração e cobertura de folhas. Portanto, o objetivo é buscar a calibração do equipamento para produzir a gota de Máxima Eficiência Técnica (M.E.T.), respeitando as particularidades de sistemicidade de cada classe de defensivo agrícola.

Sistêmicos e de contato — Os herbicidas são divididos em sistêmicos, que possuem movimentação do i.a. via xilema e floema, não necessitando de grande número de gotas/ cm2, podendo ser trabalhados com intervalo de tamanho de 250 µm. Já herbicidas de contato posuem movimentação limitada na planta e, por isso, precisam de maior cobertura de gotas/ cm2, sendo mais adequado o intervalo de tamanho de 200 µm. Por outro lado, inseticidas e fungicidas possuem movimentação muito mais limitada dentro da planta e, dependendo do grupo químico de alguns fungicidas, podem movimentar-se via xilema à curta distância. Nesses casos, o intervalo para a gota M.E.T. varia de 200 µm (condições adversas) a 150 µm (condições ideais) para fungicidas e inseticidas.

Especialmente para alvos menores, como fungos e insetos, o terço inferior da planta possui alta dificuldade para ser atingido, haja vista a densidade de folhas formada após o fechamento das entrelinhas. Com isso, há uma deficiência de deposição de produto no terço inferior, chegando em torno de 2 gotas/cm2, justificando a deficiência de controle desses alvos. Ao passo que, no terço superior, chegam em torno de 270 gotas/cm2, causando depósito de i.a. em excesso direcionando a possíveis eventos de fitotoxicidade, especialmente com o grupo dos triazois e triazolintionas em situações de estresse hídrico e térmico pela planta.

Levando em consideração os pontos abordados, deve-se buscar sempre a maior eficiência de penetração e cobertura de defensivos agrícolas, bem como o aumento da vida útil da gota e a redução de sua perda. Dessa forma, a calibração correta do equipamento para produzir a gota de M.E.T. direciona à maior assertividade do controle fitossanitário da lavoura, e em muitos casos sem a necessidade de aquisição de novas pontas de pulverização.