Irrigacao

 

Custos/retorno de uma lavoura sob PIVÔ

Quanto custa a irrigação em um empreendimento com rotação de milho, soja e tomate industrial sob pivô? Segundo um estudo para as condições gerais de Goiás, a irrigação representa 8% dos custos totais de produção, sendo 4% em equipamentos e barragem e 4% em custo variável com energia. O investimento “paga-se” em dois anos

Eng. agr. José Alves Júnior, Derblai Casaroli, Adão W. P. Evangelista, professores doutores na Universidade Federal de Goiás (UFG), Déborah L. A. Sales, Rodrigo M. Pereira, Walter D. M. Rodriguez, pós-graduandos em Agronomia, (EA-UFG), www.agro.ufg.br

Um dos sistemas de irrigação mais utilizados para o cultivo de soja, milho, tomate industrial e outras culturas na Região do Cerrado é o pivô central. Sistema moto-mecanizado, caracterizado por irrigar grandes áreas, requer pouca mão de obra, apresenta facilidade em automação e quimigação, boa uniformidade de aplicação e facilita sucessão de culturas por não precisar ser removido para plantio, tratos culturais e colheita. A irrigação por pivô central expandiu-se no Brasil nos últimos anos, mais notadamente nos estados de São Paulo, Goiás, Minas Gerais e Bahia. Mais de um milhão de hectares é irrigado com esse sistema.

A irrigação por pivô central na Região do Cerrado é mais utilizada no período seco do ano. Durante o período de chuva, essas áreas são, normalmente, cultivadas com soja ou milho, as quais, na eventualidade de ocorrência de veranicos, podem ser irrigadas de forma suplementar. Apesar de a irrigação ser considerada um seguro agrícola para os produtores, e inclusive uma importante ferramenta para os agricultores enfrentarem variações climáticas como El Niño, La Niña e aquecimento global, trata- se de uma técnica cara, e que, se mal dimensionada e manejada, pode reduzir significativamente a rentabilidade do empreendimento podendo inviabilizar seu uso.

Geralmente, no desenvolvimento de projetos de irrigação é comum tratar isoladamente as seguintes etapas: estudo de viabilidade, planejamento, dimensionamento e construção. No entanto, um projeto de irrigação, para ter um manejo racional, deve considerar todos esses aspectos de forma interligada. Dependendo de cada caso, a intenção de irrigar pode ser a maximização da produção por unidade d’água aplicada, a maximização da produção por unidade de área ou a maximização dos lucros. Devido ao desconhecimento ou por falta de critérios, ou pensando em reduzir exageradamente os riscos de falta de água para as plantas, muitos projetos são superdimensionados, e isso implica no aumento do custo de implantação e operação do sistema de irrigação.

Estudo da viabilidade — Assim, a Universidade Federal de Goiás, por meio do Núcleo de Pesquisa em Clima e Recursos Hídricos do Cerrado (NUCLIRH- UFG), realizou um estudo de viabilidade econômica da irrigação por pivô central em cultivos de soja, milho e tomate, submetidos a diferentes manejos e lâminas de projeto. O estudo foi desenvolvido através da simulação e comparação de sete projetos de pivô central, dimensionados com manejos de lâminas de irrigação de 5,65, 6,34, 6,42, 6,71, 6,96, 7,06 e 10 milímetros em 21 horas/dia. Para o manejo da irrigação, foram considerados 50 dias de irrigação, em cultivo de primavera/verão e verão/outubro, soja/milho; e 100 dias de irrigação para as culturas de inverno/ primavera, tomate/milho, em ciclo médio de 120 dias. Foram consideradas 2,5 safras médias/ano, maximizando as operações de colheita e semeadura.

Após a elaboração dos projetos, analisou- se a viabilidade técnico-econômica para implantação de pivô central em área de 80,78 hecteres, para um desnível de terreno de 2%. Os orçamentos dos projetos de irrigação e o valor da barragem foram obtidos junto a estabelecimentos comerciais especializados na área de irrigação. O levantamento de dados necessários para implantação das culturas foi obtido na Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg).

Para os cálculos de viabilidade, utilizou- se a planilha eletrônica Amazonsaf. Os indicadores que avaliaram a viabilidade do investimento foram os seguintes: indicador de lucratividade, receita bruta (RB, R$), com taxa de juros de 4% ao ano; taxa interna de retorno (TIR); período de recuperação do capital (P.R.C.) ou Payback Period; e a relação benefício/custo (B/C).

Os preços de venda da soja (produtividade = 4.200 kg/ha; preço = R$ 0,18/ kg), do milho (produtividade = 12 mil kg/ha; preço = R$ 0,25/kg) e do tomate industrial (produtividade = 85.200 kg/ ha; preço = R$ 0,95/kg) representam os valores aceitos e utilizados pela Faeg (2014) em projeções e financiamentos. As receitas elaboradas para os fluxos de caixa resultaram das projeções da produtividade, áreas e preços.

Custos totais — Os resultados mostraram que, para o cultivo de soja, os maiores percentuais dos custos totais foram referentes à compra de defensivos e suas aplicações, correspondendo a 34%, seguido pela implantação e manutenção de irrigação e barragem, com 22,7%, totalizando 56,7% dos custos totais, sendo o restante dos custos representados pelos fertilizantes e adubação (17,5%), sementes e semeadura (12,5%) e colheita (11%).

No desenvolvimento de projetos de irrigação, é comum tratar isoladamente os estudos de viabilidade, planejamento, dimensionamento e construção, mas um projeto assim deve considerar tudo isso de forma interligada

Na cultura do milho, o maior percentual de custo foi obtido na aquisição de fertilizantes e adubação (42,5%), seguido pelos custos com defensivos e pulverizações (25,7%), implantação e manejo da irrigação e barragem (13,3%), sementes e semeadura (10,6%) e com colheita (7%). Já o cultivo do tomate para processamento industrial, os maiores custos foram para a colheita (35%), depois com mudas e plantio (20,9%), defensivos e pulverizações (20%), fertilizantes e adubações (16,6%), sendo que os menores custos foram para a implantação e manutenção da irrigação e barragem (7,1%).

Observou-se também que, em geral, para o sistema agrícola formado com a rotação das três culturas avaliadas (soja, milho e tomate), cerca de 50% do custo total de produção foi com fertilizantes, adubação e controle fitossanitário. A variação da lâmina de irrigação de 5,6 a 10 mm/dia ocasionou uma redução direta de apenas 2,4% na rentabilidade do empreendimento. Entretanto, o manejo incorreto da irrigação pode inferir em aumento na incidência de doenças e pragas agrícolas, tendo como consequência o aumento nas pulverizações e o consumo de defensivos, parte relevante dos custos.

Manejo correto — Além disso, o manejo incorreto pode ocasionar a lixiviação de nutrientes, aumentando os custos com compra de fertilizantes e adubações. Estudos comprovam os efeitos negativos da irrigação excessiva na germinação de mofo branco. Em geral, teores elevados de água no solo e saturação favorecem microrganismos patogênicos, e isso pode ocorrer ou por excesso de chuva ou por erro na irrigação. Alguns estudos mostram ainda que doenças, como o mofo branco, precisam, além da umidade, de luz para frutificar, e que o plantio direto na palha mostra-se bastante interessante para o manejo da doença.

Dessa forma, esse sistema de cultivo poderá controlar essa doença e, ao mesmo tempo, reduzir a aplicação de água via irrigação, pois a palhada reduz a evapotranspiração das áreas cultivadas. Entretanto, se o manejo for errado, continuando a aplicação da mesma lâmina utilizada para cultivo convencional, isso poderá favorecer as doenças, devido ao excesso de umidade no solo, acarretando em maiores custos com tratamentos fitossanitários.

Irrigações em excesso para a cultura do tomate industrial podem reduzir o estande na fase inicial do cultivo, pois favorecem as doenças como o tombamento de mudas. Na fase intermediária (pegamento ao início do florescimento), o excesso de água favorece o crescimento excessivo e a maior incidência de doenças foliares (pintas, manchas e requeimas). Na fase reprodutiva, o excesso de água favorece a maior incidência de doenças, o que prejudica a qualidade dos frutos e reduz o Brix e, consequentemente, reduz a rentabilidade do empreendimento por maior custo com tratamento fitossanitário e menor valor pago pela indústria ao produtor pelo produto de baixa qualidade.

O custo de implantação do sistema de irrigação por pivô central, para os diferentes cenários (lâminas de projeto), obteve uma média de R$ 6.072,01/ ha. Observou-se um aumento de 12% no custo de implantação do equipamento entre os projetos dimensionados com 5,6 para 10 mm/dia, passando de R$ 6 mil para R$ 7 mil/ha. Isso ocorreu devido ao aumento na vazão de projeto, aumento no diâmetro das tubulações dos vãos (200 para 250 mm) e da adutora (250 para 300 mm), bem como da potência do conjunto moto-bomba, de 48cv para 92cv.

A variação de 5,65 para 10 mm/dia aumentou a lâmina de irrigação aplicada no manejo (verão/outono 200 para 354 mm/ciclo de soja/milho; inverno/ primavera de 400 a 708 mm/ciclo de tomate/milho). O aumento de 90% na potência do motor fez com que aumentasse também o consumo de energia em 74% (43,97 para 76,45 kWh) e, consequentemente, seu custo tanto para as culturas de verão/outono, soja/milho, quanto para as culturas de inverno/primavera, tomate/ milho (de R$ 6.860 para R$ 11.930/ ciclo; de R$ 13.720 para R$ 23.870/ ciclo).

Evidenciou-se que a irrigação é responsável por cerca de 8% dos custos totais de produção, sendo 4% de investimento com equipamentos hidráulicos e barragem e 4% referentes ao custo variável com energia. E, consequentemente, esse aumento no custo com implantação e manejo da irrigação reduziu em 2,4% (R$ 6.070,13 para R$ 5.930,40/ha/ano) a lucratividade do empreendimento. Para os sete cenários aliados, verificou-se lucro, pois o valor médio de benefício/custo foi igual a R$ 2,10. O resultado acumulativo permitiu calcular o período de retorno do capital investido em dois anos (período de amortização do investimento), e a TIR com mais de 200%, considerando um período de 30 anos. O produtor consegue abater os custos de implantação das culturas em dois anos.