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SMART AGRICULTURE: a agricultura inteligente

A agricultura de precisão não é o futuro da agricultura, é apenas o começo de uma grande transformação que o processo de produção agrícola irá enfrentar nas próximas décadas. Mas é missão de todos capacitar os profissionais para usufruir essas tecnologias

Carlos Henrique Augusto, coordenador de Agricultura de Precisão da Fundação Shunji Nishimura de Tecnologia

A lém dos avanços tecnológicos da genética e dos insumos agrícolas, nas últimas duas décadas o setor agrícola tem presenciado uma acelerada adoção de tecnologias de máquinas e implementos que estão transformando o modo como olhamos para as operações no campo. Para entendermos melhor a fase em que a agricultura encontra-se em termos de emprego de tecnologias no processo de produção, podemos comparar o desenvolvimento do processo de produção agrícola com o processo de produção industrial.

A agricultura historicamente adere às tecnologias desenvolvidas e adotadas pela indústria, mas com alguns anos de atraso. Isso ocorreu com a mecanização agrícola décadas depois da mecanização industrial, pelo uso de produtos químicos, além de diversos outros processos de produção que se transformaram de acordo com o desenvolvimento de conjuntos de novas tecnologias.

Recentemente, a indústria passou por um processo de adoção de automação e informatização. Neste momento, a agricultura inicia o processo de adoção dessas tecnologias e de adaptação do setor para se adequar à nova forma de conduzir a produção.

O setor agrícola mostra os mesmos sintomas que a indústria apresentou quando iniciou a adaptação para a incorporação de máquinas e equipamentos automatizados e na utilização de sistemas de i n f o r m a ç ã o para as gestões operacional e financeira e decisões estratégias.

O pulverizador da ilustração é equipado com sistema GPS que desliga cada bico de aplicação de defensivo quando a porção da barra entra na área que não deve ser feita a pulverização

O termo agricultura de precisão é usado para caracterizar equipamentos que permitem diversos graus de automação das máquinas e implementos agrícolas, como é o caso do piloto automático, aplicação em taxa variável e corte automático de seção.

O termo também é utilizado para caracterizar tecnologias e técnicas que permitem a coleta e a análise de informações da lavoura para servirem como base para a prática do manejo localizado. Independentemente do termo que usamos para descrever a adoção de tecnologias na agricultura, é importante entendermos as transformações que estão ocorrendo, e que vão ocorrer, para que possamos nos preparar e continuar competitivos. Assim, a analogia com a indústria nos possibilita identificar como será o processo de adoção dessas novas tecnologias na agricultura.

A primeira etapa caracteriza-se pela aquisição de equipamentos e máquinas que possibilitam a automação nas operações. Exemplos desse tipo de equipamentos são os sistemas de direcionamento (barra de luzes e piloto automático) e o corte de seção automática e aplicação em taxa variável. Essas são tecnologias de pronto uso, ou seja, o equipamento, ao ser instalado na máquina e utilizado corretamente, já proporciona os benefícios propostos sem que haja a necessidade de trabalhos adicionais.

Como característica, essas tecnologias são desenvolvidas para melhorar a eficiência das operações, diminuindo o desperdício e o tempo necessário para trabalhar uma determinada área. Nessa etapa, o agricultor passa a conhecer as funcionalidades das máquinas e dos equipamentos procurando entender as características e limitações dos diversos produtos e modelos. O foco dessa etapa está nos equipamentos.

De forma geral, os produtores brasileiros estão finalizando essa etapa da adoção. Já estão familiarizados com os equipamentos disponíveis, conhecem seus potenciais e começam a entender suas limitações. Agora, os agricultores e todo o setor agrícola demonstram as dificuldades características do início da segunda etapa. Essa dificuldade se dá devido ao acelerado desenvolvimento das tecnologias que não é acompanhado pelo desenvolvimento, treinamento e preparação de pessoas.

Capacitação de profissionais — Diferentemente da primeira etapa na qual o foco está nos equipamentos, essa segunda etapa depende principalmente da formação de profissionais capazes de coletar e armazenar as informações de forma precisa, analisar essas informações para adquirir conhecimento sobre as reais condições do campo e realizar as operações de forma precisa e localizada com base nesse conhecimento.

Os dados gerados sobre as operações e sobre a variabilidade da área produtiva passam a ser fundamentais para a correta utilização dos equipamentos. Um exemplo disso é a aplicação de taxa variável de fertilizante. A correta configuração da máquina que irá realizar a aplicação não é o suficiente para garantir os benefícios dessa tecnologia. A correta avaliação das condições do campo e sua variabilidade são essenciais para a determinação da quantidade de fertilizante a ser aplicado em cada local.

O desafio dessa nova etapa é o da utilização correta das informações como forma de determinar como as ferramentas serão aplicadas. Essas informações são valiosas e devem ser vistas como um insumo que tem o seu custo de aquisição e a sua contribuição na produção. E esse é o conceito que está sendo chamado de Smart Agriculture ou Agricultura Inteligente.

Além da eficiência e da precisão adotadas na etapa anterior, as informações e as correlações entre os fatores que influenciam na produção tornam as decisões e as ações mais conscientes e inteligentes.

Voltando à analogia com o setor industrial, a primeira etapa comparase com, por exemplo, as primeiras máquinas que produziam parafusos de forma automatizada. Essas máquinas apresentaram avanço significativo, pois tornaram possível a fabricação dessas peças em grande quantidade em um menor período de tempo. Com o avanço da tecnologia da informação, a máquina passou a ter a capacidade de informar quantos parafusos estavam sendo produzidos por hora ou por dia e também a quantidade de parafusos defeituosos a cada 10 mil unidades. Esse conceito possibilitou a criação de técnicas e equipamentos cada vez mais eficientes e produtos de qualidade cada vez melhor, e o responsável para que a produção industrial se desenvolvesse de forma exponencial. O setor agrícola vislumbra a possibilidade de alcançar essa mesma escala de desenvolvimento.

{O termo agricultura de precisão é usado para caracterizar equipamentos que permitem diversos graus de automação das máquinas e dos implementos agrícolas}

Tecnologia de Informação (TI) aplicada ao campo — As variáveis dentro de um ambiente agrícola são muitas e suas interações são complexas. A produtividade de uma determinada cultura é o resultado de inúmeros fatores e é por isso que o desenvolvimento de tecnologias de informação (TI) aplicadas na agricultura e capazes de coletar, armazenar e transformar um número grande de dados em informações úteis passa a ser tão importante para os próximos anos. Essas novas ferramentas de informação começam a transformar a maneira como o processo de produção agrícola é conduzido, além de reestruturar as interações das empresas dos diversos níveis dentro do agronegócio, o qual inclui fornecedores de insumos, prestadores de serviços, agências de crédito e seguros, Governo e o próprio produtor.

A próxima etapa da AP depende principalmente da formação de profissionais capazes de coletar e armazenar as informações de forma precisa e analisar essas informações

Hoje já temos diversas ferramentas que nos possibilitam avançar nessa nova etapa. Em alguns estados, a maioria dos produtores já até possui essas ferramentas, mas carecem de profissionais para utilizarem as informações geradas através de seus equipamentos. Cientes de que estamos entrando nessa etapa, entende-se que todos os setores do agronegócio, desde o produtor até as revendas de máquinas, prestadores de serviço e fabricantes de máquinas e implementos, devem focar seus investimentos em duas áreas: capacitação de pessoas e coleta e análise de dados e informação.

Como esse conceito ainda é novo dentro do contexto agrícola, entende- se que agora são poucas as ferramentas disponíveis que satisfaçam as necessidades da sua aplicação, mas diversas empresas que já desenvolvem ferramentas de utilização de informação para o setor industrial já estão começando a desenvolver produtos para dar suporte a essa nova etapa.