Reportagem de Capa

 

A força do grão DOURADO

A lavoura que brilha como ouro é protagonista do Sul ao Norte do Brasil. Os bons preços recebidos pelos produtores nos últimos anos contribuíram para a expansão da área plantada e da produtividade da soja nas regiões tradicionais e nas novas fronteiras da agricultura. O Brasil produz quase 30% da oferta mundial e as projeções indicam que em breve será possível superar os Estados Unidos, que é o maior produtor do grão. Nesse caminho, o desafio da cadeia produtiva é manter uma lavoura na qual rentabilidade e sustentabilidade nunca deixem de andar juntas

Denise Saueressig
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A rainha das commodities do campo brasileiro rompe fronteiras, desafia os limites do ambiente e surpreende com números superlativos a cada nova safra. No ciclo 2014/2015, do total de 200,68 milhões de toneladas de grãos que deverão ser produzidos no País, a soja responderá por quase a metade, ou 94,28 milhões de toneladas, de acordo com as projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Se confirmada, a colheita será um novo recorde, 9,5% superior a do último ciclo e vai representar quase 30% da oferta mundial do grão.

A área plantada é de 31,5 milhões de hectares, 4,4% acima do que foi cultivado em 2013/2014. A produtividade também aumentou. A expectativa é de que as médias fiquem em 2.993 quilos por hectare, 4,8% maior em relação à temporada anterior.

O momento é de pensar em crescimento com sustentabilidade, salienta o presidente da Associação dos Produtores de Soja do Brasil (Aprosoja Brasil), Almir Dalpasquale. “A realidade da agricultura brasileira mudou muito nos últimos anos. A facilidade de crédito favoreceu investimentos em produtividade e tecnologia. A logística ainda está longe do ideal, mas as condições melhoraram bastante. É importante que o País consiga dar continuidade a esse processo e possa resolver os problemas que ainda existem”, destaca.

A Aprosoja é formada por associações em 13 estados e representa mais de 90% da área plantada com a oleaginosa. A estimativa é de que em torno de 250 mil produtores cultivem a soja no Brasil. “O grão tem papel fundamental e positivo na geração de renda no interior, inclusive criando possibilidades para a ampliação do cultivo do milho safrinha. São gerados em toda a cadeia produtiva 1,5 milhão de empregos de forma direta, indireta e de efeitorenda. Isso se espalha por 17 estados do País”, enumera o gerente de Economia da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Daniel Furlan Amaral.

Atrelados à lavoura, estão setores fornecedores, como as indústrias e revendas de insumos, sementes e máquinas agrícolas. Das 32,2 milhões de toneladas de fertilizantes comercializados no Brasil em 2014, 13 milhões foram destinados à lavoura de soja, número bem acima da cultura seguinte, o milho, com 5,3 milhões de toneladas, informa o levantamento da Associação Nacional para a Difusão de Adubos (Anda). Nas vendas de defensivos, a soja respondeu por 55,5% das entregas em 2014, segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg).

Genética e manejo - O engenheiro agrônomo Amelio Dall’Agnol começou a trabalhar com a soja em 1969. Ele recorda que, na época, o Brasil produzia em torno de 1 milhão de toneladas. “A década de 1970 marcou uma transformação, com a saída da agricultura dos moldes do ‘Jeca Tatu’ para a rotina da tecnologia e da geração de renda. Assim, em 1979/1980, o País já produzia quase 15 milhões de toneladas do grão”, relata.

Almir Dalpasquale, presidente da Aprosoja Brasil: associação está presente em 13 estados e representa mais de 90% da área plantada com o grão

Doutor na área e pesquisador da Embrapa Soja, Dall’Agnol diz que gostaria de ver, até o final desta década, o Brasil ampliando suas médias produtivas, hoje de quase 3 mil quilos por hectare, para índices próximos aos 4 mil quilos por hectare. “Os avanços da genética e da biotecnologia nos permitem pensar em uma revolução de produtividade nos próximos anos. Já há produtores que conseguem colher entre cinco e seis toneladas por hectare, mas em áreas pequenas”, sustenta.

Com a bagagem de quem acompanhou o trabalho do desenvolvimento de cultivares desde o início no País, o especialista lembra que, além da maior proteção contra pragas, doenças e plantas daninhas, produtores hoje buscam variedades de porte ereto, com resistência ao acamamento, tolerância à seca e, principalmente, de ciclos mais curtos e com época de plantio antecipado em função do milho safrinha.

A pesquisadora Divania de Lima, também da Embrapa Soja, considera as características incorporadas às sementes como importantes ferramentas de produtividade, mas ressalta que o manejo é fundamental para a durabilidade da tecnologia. “É preciso pensar amplamente no sistema produtivo, com atenção à rotação de culturas, ao plantio direto e ao manejo integrado de pragas. A adoção do refúgio, por exemplo, é essencial para quem cultiva a soja Bt. Caso contrário, é grande a probabilidade da perda de eficiência em curto prazo, como ocorreu com o milho”, alerta.

Compromisso - A responsabilidade do Brasil como segundo maior produtor mundial de soja só aumenta. Além de conquistar números grandiosos capazes de abastecer a demanda em crescimento, o País precisa mostrar que vem investindo em iniciativas que harmonizem a lavoura com as exigências ambientais.

O Governo Federal assumiu em 2009, diante da Organização das Nações Unidas (ONU), o compromisso de reduzir a emissão de gases causadores do efeito estufa entre 36,1% e 38,9% até 2020. Para alcançar as metas, foram propostas iniciativas como o Plano ABC, de Agricultura de Baixo Carbono, coordenado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Entre as ações necessárias para o País alcançar seus objetivos está a necessidade de diminuição em 80% na taxa de desmatamento na Amazônia e em 40% no Cerrado.

Antes da criação do Plano ABC, o Grupo de Trabalho da Soja (GTS), formado por representantes do Governo, sociedade civil e indústria, lidera a Moratória da Soja, instituída em 2006 para auxiliar na preservação do Bioma Amazônia. Pelas regras da moratória, a Abiove e a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) comprometem-se a “não comercializar, adquirir e financiar soja oriunda de áreas desflorestadas dentro do Bioma Amazônia após julho de 2008, bem como as que constem na lista de áreas embargadas por desmatamento do Ibama e/ou lista de trabalho análogo ao escravo no Ministério do Trabalho”. Um monitoramento via satélite torna a iniciativa possível.

O novo período de vigência do acordo, válido até 31 de maio de 2016, propõe uma agenda de transição, já que depois dessa data, os imóveis rurais deverão estar em processo de regularização por meio do Cadastro Ambiental Rural (CAR), ferramenta que concilia o uso da terra para a produção de alimentos com a conservação da biodiversidade.

Pelo fim do desmatamento – Mesmo que a questão ainda tenha muito para evoluir, o Brasil comemora o recuo de 84% nos índices de desmatamento na Amazônia Legal entre os anos de 2004 e 2012. Entre agosto de 2013 e julho de 2014 houve queda de 18% na taxa de desmatamento na região em comparação com o mesmo período anterior. O desflorestamento passou de 5.891 Km2 para 4.848 Km2.

Produtividade da lavoura brasileira teve incremento de 4,8% no período 2014/2015, com médias de 2.993 quilos por hectare

Em novembro do ano passado, o Ministério do Meio Ambiente divulgou o relatório do 7º Ano do Mapeamento e Monitoramento do Plantio de Soja no Bioma Amazônia. Segundo o levantamento, o cultivo do grão é responsável por apenas 0,9% do desmatamento acumulado na região. No entanto, na safra 2013/2014, foram identificados 47.028 hectares com produção considerada irregular, um aumento de 61% em comparação com os 29.295 hectares do período anterior. O estudo contemplou 73 municípios em Rondônia, Mato Grosso e Pará, que concentram 98% da soja produzida na Amazônia. Pouco menos de 10% da área cultivada com soja, ou em torno de 3 milhões de hectares, estão localizados nos limites da Amazônia Legal.

Recuperação de pastagens - Os representantes da cadeia produtiva entendem que a expansão da área plantada com a soja nos próximos anos deverá ocorrer principalmente sobre áreas de pastagens degradadas. “Em torno de 50 milhões de hectares no País podem ser recuperados com o cultivo de grãos e com sistemas como a integração lavoura- pecuária. São áreas muito desgastadas e onde uma cabeça de gado não consegue se alimentar adequadamente em dois ou três hectares”, observa o pesquisador Amelio Dall’Agnol.

O especialista não acredita que o incremento de área que está por vir seja o mesmo percebido nas últimas safras, quando o Brasil saiu de 21,7 milhões de hectares plantados em 2008/2009, para os 31,5 milhões de hectares em 2014/ 2015. “Toda essa expansão que vimos foi resultado dos preços remuneradores”, constata.


Origem e propriedades

A história conta que os primeiros registros de uso da soja como alimento têm origem há mais de 5 mil anos. Eram plantas rasteiras, desenvolvidas ao longo de rios e lagos e cultivadas no Oriente, principalmente na China. O grão chegou ao Ocidente lentamente a partir do final do século XV. No Brasil, experimentos foram realizados em 1882 na Bahia e, em seguida, em Campinas/ SP. O grão começa a ser mais facilmente encontrado no País a partir da intensificação da migração japonesa, em 1908. Em 1914, é oficialmente introduzido no Rio Grande do Sul, na região de Santa Rosa.

A soja é considerada um alimento funcional que, além das finalidades nutricionais básicas, produz efeitos benéficos à saúde. Rica em proteínas, a oleaginosa contém isoflavonas e outras substâncias capazes de atuar na prevenção de doenças crônico-degenerativas.

Fonte: Embrapa Soja, Fenasoja e Aprosoja


No trabalho Projeções do Agronegócio – Brasil 2013/ 14 a 2023/2024, o Mapa mostra que o histórico dos preços pagos pela saca de soja no Brasil era de R$ 37,5. Em 2013, o valor foi de R$ 65,4 e, em 2014, de R$ 67,7. Em 2012, o preço da saca chegou a ultrapassar os R$ 80 em algumas regiões. Na atual safra, o dólar alto e os preços internacionais em torno de US$ 10 o bushel ajudaram a sustentar a rentabilidade acima dos 30%.

As projeções do ministério indicam que a área cultivada com a oleaginosa poderá chegar aos 40,4 milhões de hectares em 2024, enquanto a produção poderá ser de 117,8 milhões de toneladas. Se o número for alcançado e os Estados Unidos mantiverem a safra em volume semelhante à atual, de 108 milhões de toneladas, o Brasil será o maior produtor de soja do mundo antes mesmo de 2024. “Não tenho dúvida de que até o final desta década vamos ultrapassar os norte-americanos. Eles não têm muita opção para produzir mais soja, já que para isso teriam que reduzir outras culturas, como o milho e o algodão, e isso não é interessante para eles”, conclui Dall’Agnol.

O gerente de Economia da Abiove, Daniel Amaral, também tem essa opinião sobre os EUA e ainda observa: “O Brasil possui terras, tecnologia, empreendedorismo rural e um parque industrial adequados para chegar ao topo do ranking da produção. São milhões de hectares de pastagens com baixa produtividade que podem ser convertidos a culturas anuais”, declara.

Gestão da propriedade - A preocupação crescente da cadeia produtiva com a sustentabilidade também motivou a criação, em 2011, do Programa Soja Plus, que trabalha com os enfoques econômico, social e ambiental da produção. Liderada pela Aprosoja/MT, Abiove e Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/MT), a iniciativa teve início em propriedades do Mato Grosso e, na sequência, foi expandido para Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Bahia, com o apoio de federações e associações estaduais. O Banco do Brasil é o mais novo parceiro do programa, que este ano também deve avançar para o Paraná.

Por meio do Soja Plus, produtores recebem capacitação e assistência técnica gratuitas individual e através de oficinas em exposições e dias de campo.

O programa envolve todos os aspectos da atividade produtiva, considerando desde a saúde e segurança dos trabalhadores, até a qualidade final da produção e a mitigação dos impactos ambientais. Em 2014, apenas no Mato Grosso, engenheiros florestais e agrônomos, chamados de supervisores de campo, realizaram assistência técnica individualizada em 600 fazendas.

Na avaliação do presidente da Aprosoja Brasil, Almir Dalpasquale, o Soja Plus é um exemplo de como pequenas ações podem ter grandes resultados. “A produção vive um momento especial, de maior equilíbrio. A agricultura empresarial vem avançando de forma significativa em aspectos importantes, como a atenção às áreas de preservação e o maior cuidado com o uso de defensivos e com a qualidade de vida dos trabalhadores do campo”, frisa.

O Soja Plus tem repercussão tão positiva que foi levado para debate na Europa, em missão brasileira no mês de março. Durante a viagem, federações europeias da indústria de rações e de óleos vegetais tomaram conhecimento sobre a iniciativa e revelaram a intenção de expandir as conversas sobre as diretrizes europeias e as que são aplicadas pelo projeto.

O diretor administrativo da Aprosoja/ MT e da Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso (Famato), Nelson Piccoli, fez parte da comitiva e relata que o programa pode ser um fator de valorização para a soja brasileira no continente europeu. “É importante definirmos claramente o que a Europa precisa e o que o Brasil pode oferecer. A expectativa nesse sentido é bastante positiva porque os europeus estão sabendo mais sobre os avanços na governança ambiental brasileira”, menciona o dirigente.

Atenção ao mercado externo - A União Europeia (UE) é o segundo destino das exportações da soja em grão brasileira. Em 2014, as vendas para o bloco somaram 6,135 milhões de toneladas. A China é líder absoluta, com 32,664 milhões de toneladas importadas em 2014.

Porém, os europeus são os principais importadores do farelo. No ano passado foram exportadas para a UE 8,8 milhões de toneladas, de um total de 13,7 milhões de toneladas vendidas ao exterior.

Clientes exigentes, os europeus esperam obter o máximo de informações possíveis sobre os seus fornecedores e suas práticas de produção. O continente também importa a soja convencional e orgânica que é produzida no Brasil. “Os países da União Europeia têm leis específicas e visões distintas sobre a transgenia. Holanda e França, por exemplo, têm regulações mais rígidas, enquanto a Inglaterra está na relação dos que estão mais abertos à questão”, descreve Piccoli.

Produtor Paulo Kreutz: soja orgânica cultivada na propriedade em Santo Cristo/RS é comercializada com preços 35% acima

A tendência, acredita o diretor da Aprosoja/MT, é que a produção convencional de soja mantenha-se como um mercado importante, mesmo com a reduzida área plantada. Segundo levantamento da consultoria Céleres, a soja transgênica ocupou 29,1 milhões de hectares na safra 2014/2015, o que representa 93,2% da área cultivada no País. Na propriedade da família em Vera/MT, Piccoli conta que em torno de 30% da lavoura de 1 mil hectares é destinada para a semente convencional. No momento da venda, os produtores costumam comercializar a saca com preços entre US$ 1 e US$ 2 acima do grão transgênico. “Além de ser uma produção com valor agregado, existem boas variedades disponíveis e que muitas vezes são até mais produtivas em comparação com as geneticamente modificadas”, completa.

Produtores de soja convencional contam com o apoio do programa Soja Livre, que existe há cinco safras sob a coordenação da Embrapa e da Aprosoja. Baseado no tema “Cultive sua liberdade de escolha”, empresas fornecedoras de sementes e fundações de pesquisa apresentam, a cada ciclo agrícola, as novas cultivares disponíveis para quem pretende formar uma lavoura não transgênica.

Espaço para a produção orgânica – Quanto maior for o avanço da transgenia, maior será a valorização da soja orgânica e convencional, analisa o pesquisador Amelio Dall’Agnol. “Ainda que o futuro da biotecnologia sinalize para novos materiais com características cada vez mais interessantes, o mercado dos grãos não transgênicos se manterá como um nicho interessante”, argumenta.

A possibilidade de ofertar um produto diferenciado é uma das motivações do agricultor Paulo Kreutz, que cultiva orgânicos desde 2002 na propriedade da família em Santo Cristo, município na Fronteira Noroeste do Rio Grande do Sul. Além da soja plantada em três hectares, ele e a esposa Maria Nair também produzem feijão, cana, milho, frutas e hortaliças sem defensivos químicos.

Antes do sistema orgânico, o cultivo era convencional e a área de soja era bem maior, em torno de 60 hectares. “Depois que sofri um problema de saúde causado pelo uso de agroquímicos, comecei a mudar minha forma de pensar. Interessei-me pelo cultivo orgânico, fiz viagens para estudar o assunto e conversei com muitas pessoas que me ajudaram”, conta.

Kreutz é presidente da Unicooper, Cooperativa Central da Agricultura Familiar, que reúne 15 cooperativas na região de Santa Rosa/RS. Além dele, em torno de 10 agricultores dos municípios vizinhos cultivam 61 hectares com soja orgânica. A produção é comercializada de duas formas: uma parte fica no mercado gaúcho, em forma de grãos e farinha, e a outra parte é vendida para a Gebana Brasil, empresa com sede em Capanema/PR que processa e comercializa alimentos orgânicos no País e no mercado internacional.

Kreutz é presidente da Unicooper, Cooperativa Central da Agricultura Familiar, que reúne 15 cooperativas na região de Santa Rosa/RS. Além dele, em torno de 10 agricultores dos municípios vizinhos cultivam 61 hectares com soja orgânica. A produção é comercializada de duas formas: uma parte fica no mercado gaúcho, em forma de grãos e farinha, e a outra parte é vendida para a Gebana Brasil, empresa com sede em Capanema/PR que processa e comercializa alimentos orgânicos no País e no mercado internacional.

Projeções do Ministério da Agricultura indicam que a área cultivada com a oleaginosa pode subir para 40 milhões de hectares em 2024

O preço de venda é 35% superior em relação ao que é pago pela soja convencional. O valor cobre os custos que algumas vezes superam os da lavoura comum pela maior necessidade de mão de obra. O rendimento da área na atual safra foi de 35 sacas por hectare, mas segundo o produtor, já chegou a superar as 40 sacas por hectare. “Tivemos problema com a chuva neste ciclo e ainda enfrentamos alguns desafios, como carência de assistência técnica, pouca oferta de sementes e a necessidade de recuperação das condições do solo para aumentar nossa produtividade. A boa notícia é que vem crescendo a disponibilidade de insumos biológicos para o controle de pragas e doenças”, avalia Kreutz.

Rotação que faz bem ao arroz – O Rio Grande do Sul é o terceiro na lista dos maiores produtores de soja no Brasil, atrás do Mato Grosso e do Paraná. Os gaúchos lideram na lavoura de arroz, com mais de 65% da produção nacional. E é justamente nessta área, localizada principalmente na Região Sul do estado, que a soja vem desempenhando um papel importante.

O Programa Soja Plus está presente em quatro estados e trabalha com os enfoques econômico, social e ambiental da produção

Não há substituição dos arrozais pela oleaginosa, mas sim um processo de rotação que vem colaborando para combater o arroz-vermelho, planta daninha que mais provoca danos à rizicultura. Nos últimos cinco anos, a soja cultivada nesse sistema passou de 68 mil hectares para cerca de 300 mil hectares, segundo o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga). Essa área, que contempla em torno de 30% do plantio do arroz irrigado, está estabilizada, acredita o engenheiro agrônomo Rodrigo Schoenfeld, gerente da Divisão de Pesquisa do instituto. “Além do combate ao arroz-vermelho, nossos objetivos com a soja incluem os benefícios econômicos e ambientais da rotação e da diversificação, que faz com que o produtor tenha duas fontes de renda”, assinala.

Em áreas infestadas pelo arroz-vermelho e onde o rendimento estava abaixo de 5 mil quilos por hectare, em dois ou três anos com o cultivo da soja, o arroz volta com condições de alcançar os 10 mil quilos por hectare.

A ressalva é que nem todas as áreas de arroz podem ser cultivadas com a soja. Por isso, é essencial considerar os riscos e iniciar a lavoura em áreas pequenas. “O produtor deve ter consciência que é um empresário trabalhando com duas atividades que exigem um manejo diferenciado. É importante buscar orientação para não transformar uma ferramenta de sustentabilidade em dor de cabeça”, recomenda Schoenfeld.

Em parceria com a CCGL Tecnologia, o Irga lançou em 2013 a cultivar de soja TEC Irga 6070RR, adaptada ao cultivo em terras baixas e com maior tolerância ao excesso hídrico. A semente vem respondendo positivamente em áreas bem manejadas, com produtividade entre 55 e 60 sacas por hectare.

Alencar Rugeri, da Emater/RS: produtor deve pensar sempre na rotação porque a monocultura não é saudável para o sistema

O trabalho do Irga ainda inclui testes com outras variedades comerciais para identificar aquelas que mais se adaptam às características desse cultivo. A pesquisa do instituto também pretende dar subsídios ao Ministério da Agricultura para que a soja configure no zoneamento agroclimático dessas regiões e possa ser incluída no seguro agrícola.

Cautela nas novas áreas - Além do incremento nas áreas em rotação com o arroz, no Rio Grande do Sul a soja vem ocupando terras anteriormente dedicadas à criação de gado e a outras culturas, como o milho. O movimento claramente definido pelos altos preços da oleaginosa fez com que a área plantada saísse de 3,8 milhões de hectares em 2009 para 5,125 milhões de hectares nesta safra. A expectativa é de que a colheita do grão alcance o recorde de 14,8 milhões de toneladas em 2014/ 2015. Já o milho passou de 1,15 milhão de hectares cultivados em 2010 para 876 mil hectares agora.

Porém, é preciso cautela para avaliar esses números e a continuidade desse cenário, destaca o assistente técnico na área de soja da Emater/RS, Alencar Paulo Rugeri. “A monocultura não é saudável para o sistema. O produtor precisa pensar sempre em rotação e em estabelecer uma boa cobertura para o solo”, orienta. Os solos mais frágeis e arenosos nas áreas que estão sendo incorporadas pedem atenção especial, principalmente em localidades onde historicamente há déficit hídrico.

No Noroeste do estado, o termo “safrinha da soja” também vem ficando cada vez mais popular. Produtores antecipam o plantio do milho para agosto e cultivam a soja entre o final de dezembro e o início de janeiro, fora do período indicado no zoneamento. “É um desafio à pesquisa, mas um caminho quase irreversível, já que os produtores vêm conseguindo rendimentos entre 40 e 50 sacas por hectare”, complementa Rugeri.

Segurança climática - Os estados do Norte e do Nordeste são os grandes destaques da expansão da soja nos últimos anos. Além da região conhecida como Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), a lavoura vem crescendo também no Amapá, em Rondônia e no Pará.

No Tocantins, há 10 anos, dificilmente um hectare de terra seria comercializado por mais de R$ 300 ou R$ 400. Atualmente, o preço varia entre R$ 3 mil e R$ 10 mil, relata o engenheiro agrônomo Genebaldo Queiroz, da Secretaria do Desenvolvimento, Agricultura e Pecuária (Seagro/TO). “O crescimento ocorreu a partir do ano 2000. Até esse momento, o estado representava em torno de 0,4% da área cultivada com soja no País, enquanto na atual safra, esse índice foi de 2,6%”, calcula.

{Genebaldo Queiroz, da Seagro/TO: Tocantins tem potencial para expandir área plantada e produtividade da soja}

Entre os ciclos 2013/2014 e 2014/ 2015, o plantio da oleaginosa aumentou 10,3% em Tocantins, chegando aos 825,6 mil hectares, segundo a Conab. A colheita teve incremento de 12%, alcançando 2,3 milhões de toneladas. A produção de grãos, incluindo culturas como milho, arroz e feijão, ocupa 1,17 milhão de hectares.

A estimativa é de que ainda possam ser incorporados à agricultura em torno de 5 milhões de hectares com respeito às zonas de restrição, como as áreas de preservação permanente, reservas legais e terras indígenas.

“Também são mais de 7 milhões de hectares de pastagens, e boa parte desse total apresenta algum estágio de degradação. Se mantivermos o crescimento dos últimos anos e o mercado continuar favorável, poderemos, nos próximos 10 anos, incorporar a lavoura de soja em uma área entre 2 milhões e 2,5 milhões de hectares”, observa Queiroz.

A segurança climática, com chuvas regulares de outubro a maio, é um dos principais atrativos do estado, que nos últimos anos recebeu produtores de diferentes sotaques, com destaque para os gaúchos e paranaenses. Os gargalos, assim como em outras regiões do País, estão nas deficiências de armazenagem e transporte da safra. A expectativa é de que os investimentos do Governo em logística e os anúncios de empreendimentos de indústrias favoreçam o escoamento e a estrutura nos próximos anos.

A produtividade média da soja, que foi de 2.794 quilos por hectare nesta safra, ainda está aquém do pretendido, segundo o agrônomo da Seagro. “Entre 30% e 40% das áreas são novas, com menos de três anos de cultivo, mas em regiões consolidadas, os produtores chegam a colher mais de 70 sacas por hectare, o que significa que temos potencial para expandir as médias com melhorias na adubação e sementes adaptadas”, cita.

Os números grandiosos do Mato Grosso - Inicialmente cultivada no Sul do País, a soja foi levada para o Centro- Oeste pelas mãos de produtores em busca de novas oportunidades. Com incentivos do Governo que na época estimulava a ocupação da região, famílias inteiras migraram a partir da década de 1970 para dar início a que é hoje a maior lavoura do Brasil.

As dificuldades não foram poucas em uma terra de baixa fertilidade e quase nenhuma estrutura. O produtor Nelson Piccoli lembra bem o sentimento no início da década de 1980, quando deixou o pequeno município de Anchieta, em Santa Catarina, para ver de perto as tão faladas terras planas mato-grossenses. “A esperança estava atrelada à dúvida e ao conforto precário”, recorda.

Até 1988, a produtividade média na lavoura da família Piccoli variava entre 28 e 35 sacas por hectare. O solo ainda sofria com o processo de gradagem e com a erosão. Aos poucos, o trabalho dos produtores e as evoluções da pesquisa colaboraram para o avanço das tecnologias e o desenvolvimento de variedades adaptadas. A partir do início da década de 1990, com a incorporação do plantio direto, o rendimento da soja passou a variar entre 55 e 60 sacas por hectare. “Assim como o campo evoluiu, cresceram as cidades e toda a economia do estado. Hoje, nossos desafios são as deficiências logísticas, a insegurança jurídica na ocupação da terra e a necessidade de uma política agrícola consistente e permanente no País”, aponta o produtor.


Liderança nas exportações

As exportações do complexo soja (grão, farelo e óleo) renderam ao Brasil US$ 31,4 bilhões em 2014, o que representou 14% das vendas externas totais do País. Pela primeira vez desde 2009 a soja superou o minério de ferro e foi o principal item na pauta exportadora.

Mesmo festejados, os números precisam ser analisados por outro ângulo. O grão representou US$ 23,27 bilhões do total das vendas, ou seja, é preciso buscar a agregação de valor da soja comercializada pelo Brasil. A Abiove defende uma melhoria da competitividade da indústria brasileira para que sejam incrementadas as vendas de farelo, óleo e proteínas animais. “É necessário ampliar acordos comerciais com nossos clientes para reduzir barreiras técnicas, sanitárias e tarifárias”, defende o gerente de Economia da Abiove, Daniel Amaral.

A associação ainda trabalha pela isenção do ICMS nas vendas interestaduais de soja quando a matéria-prima for destinada ao processamento e posterior exportação de farelo e óleo. São questões tributárias que, segundo a Abiove, reduzem a competitividade do setor diante dos principais concorrentes, especialmente China, Estados Unidos, Argentina e União Europeia.

A melhoria das condições logísticas do País também trará impactos positivos para as exportações. Entre as reivindicações do setor está a ampliação da malha ferroviária e das hidrovias, e a conclusão da pavimentação da BR 163, que forma um corredor essencial de escoamento da produção do Centro-Oeste.

A Abiove estima que a receita com as exportações de soja em 2015 alcance os US$ 23,3 bilhões. A queda em relação a 2014 deve ser resultado dos preços médios mais baixos pela recomposição dos estoques mundiais. A associação projeta safra de 92,3 milhões de toneladas, sendo que as exportações de grãos devem somar 48 milhões de toneladas, um acréscimo de 4% em comparação com o ano passado.

O aumento da mistura compulsória de biodiesel no diesel mineral de 5% para 7% deverá demandar maior produção do óleo de soja. De um total previsto de 7,4 milhões de toneladas de óleo este ano, 2,9 milhões terão como destino o biodiesel.


A área plantada com soja em Mato Grosso saltou de 3,1 milhões de hectares em 2000/2001, para 8,9 milhões de hectares em 2014/2015. A produção passou de 9,6 milhões de toneladas para 28,14 milhões de toneladas no mesmo período, de acordo com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

O estado é responsável por quase 30% da safra brasileira e cerca de 9% da safra mundial do grão. No valor bruto da produção do Mato Grosso, a soja representa 51,33%, com um valor de R$ 22,4 bilhões.

Não existe um número oficial, mas a estimativa é de que a soja esteja presente em torno de 100 municípios do total de 141 do estado. No Norte, às margens da BR 163, está Sorriso, município que é o maior produtor individual de soja no mun- Pela primeira vez desde 2009 a soja superou o minério de ferro e foi o principal item na pauta exportadora Denise Saueressig do, com 620 mil hectares cultivados em uma área já estabilizada. O clima normalmente regular e a alta eficiência nas propriedades fazem com que as médias de produtividade fiquem próximas a 60 sacas por hectare.

Pela primeira vez desde 2009 a soja superou o minério de ferro e foi o principal item na pauta exportadora

Com cerca de 1 mil produtores de soja e uma população em torno de 90 mil habitantes, Sorriso tem apenas 29 anos de história. Natural de Não-Me- Toque/RS, o presidente do Sindicato Rural do município, o produtor Laércio Lenz, elogia o crescimento da cidade que o acolheu há quase 20 anos. “Sorriso oferece uma boa qualidade de vida, e um dos grandes diferenciais é a parceria que existe entre produtores e cidadãos e a prefeitura. Participamos das decisões e muitas vezes ajudamos em obras que são necessárias para melhorar a estrutura”, revela. O trabalho, segundo ele, inclui a conservação dos mais de 2 mil quilômetros de estradas de chão que ainda existem no município.