Na Hora H

 

A INEXISTÊNCIA DE POLÍTICAS PÚBLICAS E SEUS EFEITOS NAS INTEMPÉRIES DO SETOR RURAL

ALYSSON PAOLINELLI

Eu tive a oportunidade de participar de uma Audiência Pública na Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais na qual mais de 50 sindicatos rurais e mais de 300 produtores atingidos pelo terceiro ano consecutivo por uma inclemente seca nas regiões mineiras de Norte a Sul e de Leste a Oeste. Confesso que fiquei estarrecido com os relatos que democraticamente todos ouvimos. Não foram poucos. Democraticamente todos que desejaram falar foram ouvidos e, a cada relato, cada um mais estarrecedor do que outro.

É lógico que, quem está afundando, busca no imediatismo a primeira forma de salvação que existe. E a securitização foi o que insistentemente se pediu. Ela já existiu até 1998, quando a economia brasileira passou pelo furacão dos sete planos econômicos, que deixaram o setor produtivo à míngua. Agora, além do terrível quadro econômico provocado pelos desmandos e descontroles que estão ocorrendo, ainda há três anos de uma inclemente seca, que deixa o setor rural à míngua nessa região.

Nessa hora não adianta tentar trazer à discussão as verdadeiras causas do desequilíbrio do setor produtivo rural. É lógico que o erro se origina na falência das políticas públicas que ocorreram no Brasil exatamente após cada um dos famigerados planos econômicos que destroçaram o crédito rural no Brasil; que acabaram com a nossa segura política de garantia dos preços mínimos; que estão impedindo a adoção do seguro rural, exigido pela própria Constituição; que consumiram com os recursos indispensáveis à comercialização, e que engoliram o dinheiro que se tinha para fazer os investimentos necessários, tanto no setor produtivo como também na débil infraestrutura logística de um país que precisa fazer crescer a sua produção e a sua competitividade no mercado internacional.

Os planos econômicos distorcem tudo. Eles, na realidade, são fórmulas mágicas de irresponsáveis governantes que, depois de tentarem de tudo para corrigir os erros que cometeram e não conseguem, simplesmente escolhem as vítimas que serão as responsáveis para pagar a conta. Elas são sempre as mesmas: 1. os trabalhadores assalariados, e que não têm poder de acrescer aos seus salários os mesmos níveis da inflação real; 2. os produtores desorganizados que não são capazes de colocar o preço no que produzem e, com uma enorme perda de renda, cobrem as mazelas e desequilíbrios provocados pelos irresponsáveis dos governantes.

Em 2002, garantiram que a época dos planos econômicos já havia terminado.

Acreditamos. Mas quem efetivamente pode dizer que o que estamos vivendo agora são medidas econômicas que se igualam a qualquer um dos sete planos econômicos anteriores? Contingenciamento e cortes nos créditos e orçamentos, assaltos a direitos constituídos, mesmo com promessas que de que não existiriam, manipulações de dívidas, especialmente as do Governo. Só não falaram ainda em Âncora Cambial e isso acontecerá enquanto existirem saldos em dólares produzidos pelo setor rural à disposição das “autoridades monetárias” para fazer o famoso e usual swap.

Entendo que o que estamos vivendo hoje é um autêntico e mais destorcido plano econômico tentando desesperadamente mudar as aparências de uma falência próxima. Se o País tem a sua economia fundamentada na produção de produtos primários, especialmente os vindos da produção rural, não seria muito mais lógico ter um plano econômico para provocar o aumento da produção? E o que é muito mais interessante, que os recursos necessários para estimular essa produção são muito menores do que aqueles que a mídia anuncia diariamente que estão sendo gastos em safadezas e ladroeiras que envergonham o nosso País. Um País do tamanho do Brasil não pode viver aos trancos e barrancos à espera de governos competentes, capazes de planejar estrategicamente o que devemos fazer para atingir os nossos verdadeiros objetivos.

Entendi claramente que a maioria dos produtores que estavam na Assembleia Legislativa de Minas Gerias queria solução imediata para as suas agruras e para a visão de uma falência próxima. Impressionou a todos nós as palavras da senhora Marli, lá de Serro. Foi firme em suas reivindicações. É uma produtora de fato e, junto ao seu marido, estão há 35 anos mantendo a sua fazenda produzindo o seu leite e o queijo, que é um dos melhores do Brasil. Disse que não tem hora de trabalho. Acorda às cinco horas da manhã e dorme às dez da noite. Não tem sábado ou domingo, nem folga semanal. Quando dá ferias ou folga semanal a seus empregados, ela e o marido cobrem essa necessidade trabalhando dobrado. Assim vieram mantendo o que tinham até agora com muito sacrifício e lutas, sempre pagando suas contas, impostos e tudo mais o que era exigido. Mas agora confessa ela:

“Não dá mais. Não temos como fazer.”

Confessou que nos últimos dias em reserva com o seu marido propôs a ele vender a propriedade e mudar para a cidade. O marido, com os olhos cheios e lágrimas, respondeu a ela. “Marli, mas eu só sei fazer isto aqui da roça.”

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura