O Segredo de Quem Faz

 

O GIRASSOL e a saga da família Silvani

Leandro Mariani Mittmann
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O início da família Silvani na agricultura mineira, em junho de 1989, foi de desanimar. Pequena área de terra cedida por primos em troca do trabalho como operador de máquina do seu Agenor Silvani, que com a esposa e dois filhos crianças moravam, de favor, em um quarto, e na primeira safra a produtividade foi de oito sacas de soja por hectare em razão de uma estiagem. Hoje: 3 mil hectares de safra de verão, 2 mil de segunda safra, 1.700 cabeças de gado em integração lavoura-pecuária. Um dos filhos, Marcelo Silvani, que tinha sete anos à época, conta como foi o início da família na agricultura mineira e, sobretudo, como é trabalhar com o girassol, neste ano em 1.350 hectares, em Uberlândia/MG. Até o ano passado, os Silvani, hoje em quatro irmãos além do pai, tinham a quinta maior área de girassol do Brasil.

A Granja — Como começou o envolvimento da sua família com a agricultura?

Marcelo Silvani — A saída do Rio Grande do Sul foi em função de área para plantar, pois meu pai já era agricultor juntamente com seus irmãos mais velhos e meu avô, mas sendo ele o caçula de uma família de sete irmãos e a região (de Nova Araçá) ser muito acidentada para agricultura de grande escala, como milho e soja, e como a fazenda do meu avô só tinha seis hectares agricultáveis, então ele recebeu um convite de primos que já estavam em Minas Gerais (Uberaba) para trabalhar na fazenda deles como operador de máquinas. Em troca do trabalho, os primos cederam uma pequena área de 70 hectares e as máquinas das áreas arrendadas deles.

O início em Minas Gerais foi muito difícil, pois já no primeiro ano enfrentamos uma seca severa em que colhemos oito sacas de soja por hectare de média, sendo muito difícil, pois não tínhamos dinheiro. Viemos de mudança com o caminhão de um irmão de minha mãe que não cobrou nem o combustível, pois se cobrasse não teríamos vindo. Morávamos de favor dentro de um quarto na casa dos primos de meu pai.

Eram meu pai, minha mãe, eu, com sete anos, e o Edegar, com três. Dormíamos em quatro só com uma cama de casal e uma de solteiro. Mas a segunda safra foi um pouco melhor, e logo nasceu o Tiago, e aí já morávamos de aluguel no distrito de Tapuirama, pois eu tinha que estudar. Depois nasceu o caçula, Leandro. Hoje estamos todos envolvidos com o negócio do qual eu faço a parte de gestão, controle de custo e administrativo geral do grupo, o Edegar me ajuda na área burocrática e operacional, Tiago faz somente a parte operacional, Leandro ajuda o operacional e cuida da pecuária, e meu pai dá auxílio tanto na agricultura quanto na pecuária. Temos as atividades bem enxutas, pois com área de 3 mil hectares de verão, 2 mil de segunda safra e 1.700 cabeças de gado contamos hoje com apenas cinco funcionários.

A Granja — Quais são as culturas e as áreas que vocês cultivam?

Silvani — Hoje cultivamos 3 mil hectares com safra de verão, 2 mil com segunda safra e 600 com pecuária, distribuídas em 20 talhões dentro de um raio de 25 quilômetros. Essas áreas são cultivadas com soja e milho verão, milho, girassol, canola e também trigo e sorgo em alguns anos, mas não neste por motivos econômicos e técnicos. É plantada também pastagem integrada com milho na primeira safra, na segunda plantada sozinha e também integrada com o milho segunda safra para criar pastagem de boa qualidade de março até outubro para os animais, e ainda produzir matéria orgânica para auxiliar no processo de construção dos solos no sistema de plantio direto. Hoje plantamos 75% da área de verão com soja que vai dar lugar ao plantio de milho segunda safra em 25% da área, e 50% de girassol segunda safra, sendo que os 25% restantes serão distribuídos entre pastagem, canola ou trigo, culturas plantadas já no final do mês de março e início de abril, período que consideramos de risco para plantio de segunda safra. Já os outros 25% da primeira safra são plantados com milho que vai dar lugar para pastagem e girassol na segunda safra. Fazendo o que nos chamamos de rotação integral de culturas, pois com esse sistema é possível intercalar plantios fazendo sempre com que a cultura que está saindo contribua de alguma forma para a nova que será plantada.

A Granja — Como e por que a família começou a investir em girassol? Como foi o começo, como essa lavoura foi crescendo e qual a área cultivada nesta safra?

Silvani — O girassol entrou em nossa região substituindo o cultivo de sorgo, principalmente porque tem sua época de plantio muito semelhante a do sorgo, que por sua vez vinha com certa dificuldade em função de ainda não ter registrado herbicidas pós-emergentes para gramíneas, o que acarretava em lavouras muito sujas pela competição por ervas daninhas. E também pelo preço estar atrelado ao do milho, e, portanto, plantávamos duas culturas que tinham apenas um indexador de preços. O oposto do girassol, que tem sua formação de preços direto na BM&- FBovespa (como óleo), e que acompanha a cotação da soja e, assim, flexibiliza bastante a formação de preços. Outro grande problema enfrentado pelo sorgo é o grande ataque que a cultura está sofrendo de lagartas, principalmente a lagarta-do-cartucho do milho (Spodoptera fugiperda), e a Helicoverpa, uma vez que o sorgo é plantado depois da soja onde as populações dessas lagartas já estão bem altas, acarretando aumento no custo com inseticidas e perdas de produtividade, problemas esses que o girassol não enfrenta, pois suas folhas grandes e ásperas dificultam o ataque desse tipo de pragas. Sua época de plantio para nossa região vai de meados de janeiro a fim de março, tendo seu ciclo de mais ou menos 130 dias, sendo que o mês ideal para plantio é fevereiro, tendo seu florescimento em meados de abril, época em que ainda temos boa umidade no solo. Já a colheita ocorre no início de julho. O girassol pode ser plantado depois da soja e também do milho, sendo para a nossa região uma das poucas culturas que podem ser plantadas na palhada de milho, apresentando resultados muito interessantes.

A Granja — Onde e para quem é feita a comercialização? Qual é a destinação do grão?

Silvani — A comercialização do grão de girassol é feita com a Caramuru, que garante a aquisição de 1.200 quilos por hectare já no ato da assinatura do pedido de compra de sementes e insumos, já garantindo o custo de produção com preço fixo. Hoje a Caramuru é a maior esmagadora de girassol da região. E a empresa fez uma parceria com a Syngenta e a Cia da Terra, que é a revenda da Syngenta. Com isso já temos o custo da lavoura com preço de venda garantido desde o ato da compra das sementes.

A Granja — Como se dá o cultivo? São usadas as mesmas máquinas e equipamentos das demais culturas ou é preciso adaptações às plantadeiras, plataforma de colheitas e assim por diante?

Silvani — Para os cultivos são usadas as mesmas máquinas da lavoura, com atividades bem semelhantes, mas o plantio é bem rigoroso devido ao formato da semente, que é oblonga (corpo grosso e ponta fina), áspera e bem leve. Portanto, requer bastante cuidado e atenção na hora de regular a plantadeira, pois é muito fácil passar duas sementes no lugar de uma. O girassol é muito competitivo em número de plantas por metro linear. E tendo duas plantas juntas, praticamente perderemos as duas por competição entre elas. Outra atenção muito grande é em relação à colheita, pois o girassol, depois de seco, perde umidade muito rapidamente, praticamente um grau de umidade por dia. Por isso, requer bastante eficiência em colheita, pois após atingir o ponto de colheita (em torno de 11% de umidade) em dois ou três dias já está abaixo de 8%, perdendo rendimento em peso, podendo chegar até a 4% de umidade, comprometendo a produtividade. No caso do operacional de colheita, ainda não temos no Brasil nenhuma marca de colhedeiras com plataforma adaptada para o girassol. Existem no mercado algumas plataformas para aluguel, que foram importadas da Argentina, mas com volume muito pequeno e pouca eficiência se acopladas a máquinas de grande porte. Exstem também adaptações feitas em plataformas de colher milho que funcionam, mas ainda perdendo muito girassol, algo em torno de 10% da produtividade. Com isso, pesquisamos e desenvolvemos um kit para adaptar na plataforma de colher soja que tem um custo muito baixo (algo em torno de R$ 5 mil) para plataforma de 30 pés de largura e que funciona muito bem, pois deixa o desperdício para próximo de zero, e possibilita uma grande eficiência com velocidade de colheita de até 8 quilômetros/hora, que está funcionando muito bem e que fizemos aqui mesmo em nossa oficina.

A Granja — A cultura é muito exigente em fertilização? Algum nutriente específico é mais importante?

Silvani — Em termos de fertilidade, é tão exigente quanto o milho de segunda safra, por exemplo, demandando os mesmos níveis de fósforo e potássio. Já no caso do nitrogênio, trabalhamos com aproximadamente 50 pontos de nitrogênio por hectare (em torno de 100 a 120 quilos de ureia fertilizante 45-00-00 por hectare), metade do volume de milho. Já com os micronutrientes, a cultura demanda volumes bem parecidos com os do milho. No caso do boro, é imprescindível a aplicação de pelo menos 3 quilos do elemento por hectare em pelo menos três aplicações intercaladas, começando com 3% de boro na formulação de NPK e depois mais três aplicações por via foliar, onde o acumulado deve ser de pelo menos 3 quilos/hectare, pois o boro é muito importante no desenvolvimento da flor e do tubo polímero dos capítulos. Considerando que cada capítulo de girassol tem em media 1.500 grãos, são 1.500 tubos polímeros para cada planta de girassol.

A Granja — Qual é o custo de produção do girassol e qual o preço de venda? A cultura tem preços estáveis ou variam muito de ano para ano?

Silvani — O custo de produção varia em torno de R$ 850 por hectare muito bem comparado com o custo de produção de sorgo. Já o preço de venda em torno de R$ 52 por saca de 60 quilos, bem estável, pois tem sua cotação na BM&FBovespa, e nos últimos três anos variou entre R$ 49 e R$ 54, sendo uma importante informação, pois com estabilidade na cotação facilita muito na tomada de decisão. O preço de venda é muito estável e a venda de uma parte da produção para garantir os custos diminui muito o risco de prejuízo pela queda de preço, uma vez que o custo está garantido.

A Granja — O que o girassol tem de melhor e o que essa cultura tem de pior? Você recomenda o cultivo de girassol por outros produtores, seja da sua região ou de outras do País?

Silvani — O melhor na cultura do girassol é a parceria entre produtor, canal de vendas, fornecedor de sementes e insumos e comprador da produção, travando os custos e diminuindo o risco econômico. Fica com o produtor apenas risco de produção.

Outro ponto interessante é a reciclagem de nutrientes, principalmente o potássio presente no solo em grandes profundidades que é bombeado pelas raízes e armazenado no caule, que após a colheita decompõe-se e é devolvido novamente ao solo. O pior do girassol são suas dificuldades operacionais que são muito importantes para o sucesso da cultura e que é um grande desafio para a maioria dos produtores que decidem investir na cultura e não estão preparados ou não têm conhecimento dos gargalos técnicos que envolvem a cultura.

Outro problema é a parte nutricional que deve ser bem trabalhada, porque, com cultura que exige muito da parte nutricional, se não for bem trabalhada pode inviabilizar o cultivo, pois a produtividade será comprometida. Recomendo o plantio de girassol a outros produtores desde que já tenham experiência com cultivo de segunda safra, tenham solos bem corrigidos nutricionalmente, tenham boa assistência técnica com experiência em cultivo de girassol, esmagadoras de girassol dispostas a comprar sua produção, oportunidade de travar uma parte da produção antecipadamente com essas empresas, disponibilidade operacional para fazer os tratos culturais a tempo e hora, pois a cultura do girassol não é para produtores amadores ou aventureiros. É uma cultura com grande valor agregado, mas se conduzida de maneira errada pode se tornar um grande problema, desde prejuízos até a discriminação de doenças que podem afetar futuras culturas, como o mofo branco na soja. Mas com o cuidado correto e uma cultura que entra muito bem no mix de culturas de segunda safra nas regiões produtoras de todo o País.

A Granja — Quais as suas perspectivas para o girassol no agronegócio brasileiro? Tem mais espaço para crescer, o Brasil poderia se tornar um exportador desde grão, tem mercado lá fora?

Silvani — Acredito que o girassol vai ganhar cada vez mais espaço no agronegócio brasileiro, pois existe uma grande demanda por óleos com alta qualidade, uma vez que o mercado está demandando cada vez mais alimentos saudáveis. Com isso, a simples regra de oferta e demanda vai se encarregar de manter a cultura rentável, e se for rentável com certeza terá espaço dentro do sistema produtivo nacional. Já o mercado internacional demanda muito de óleo de girassol que atualmente é produzido na Argentina e em países europeus, onde se originou a maior parte das cultivares de girassol presentes no mundo atualmente. Assim, como um país continental, com clima tropical, tecnologia adaptada para produção e com rentabilidade aos envolvidos no processo produtivo, em pouco tempo atenderemos o mercado nacional e logo poderemos prospectar mercados internacionais.