Plantio Direto

 

Sistemas INTEGRADOS de produção e o plantio direto

Alex Marcel Melotto, biólogo, Dr. pesquisador do Setor de Sistemas de Produção Integrados e diretor executivo da Fundação MS

O sistema plantio direto (SPD) iniciou-se no Brasil há aproximadamente 40 anos, no estado do Paraná. Desde o primórdio, foi desenvolvido sobre três pilares básicos relacionados ao manejo do solo: a) o não revolvimento do solo; b) a cobertura permanente da área cultivada, seja ela viva ou morta; c) rotação de culturas. Tais princípios objetivam a manutenção das características físicas, químicas e biológicas do solo, mantendo sua perenidade produtiva.

Atualmente, as diversas regiões agrícolas do Brasil desenvolveram suas próprias técnicas de utilização e formação do SPD, de acordo com suas condições edafoclimáticas e culturais. Naquelas em que há utilização de alguma forma de integração da lavoura com a pecuária e/ou a floresta, há um novo conjunto de sistemas que podem ser utilizados como base para a agricultura baseada no plantio direto.

Nesse aspecto, uma metodologia que se encontra em expansão de uso é a utilização do sistema pecuário para iniciar a atividade agrícola, com destaque para o Sistema São Mateus, desenvolvido pela Embrapa em Mato Grosso do Sul. Neste sistema, o primeiro passo para a inserção do componente agrícola é a reforma da pastagem por meio da correção química, adubação e renovação da forrageira. Além desse sistema, outros vêm sendo utilizados para a otimização da produção agropecuária em solos arenosos.

Para a formação de palhada, pode-se optar por espécies de capins como o piatã (foto), braquiárias, marandu ou paiaguás, que desempenham muito bem o papel de forrageira e também de cobertura de solo

Consórcios — Dentre os que têm se destacado pela eficiência produtiva e facilidade de implantação estão os consórcios de milho, sorgo ou milheto com capins, seja como segunda safra ou mesmo como ferramenta para a reforma de pastagens. Os três sistemas prestam o mesmo serviço ao produtor: fornecem alimento para o gado (grãos ou silagem), e pode ser armazenado, e ainda formam uma rica cobertura vegetal que será a base do SPD. Essa última pode ser pastejada ou não. A diferença entre eles é, basicamente, a demanda tecnológica.

Os três sistemas respeitam a mesma metodologia de implantação. A cultura agrícola e o capim são implantados juntos, ou seja, desenvolvem-se na mesma área ao mesmo tempo. Obviamente que o capim precisa ser manejado para que não haja competição e para que a produtividade do outro componente não fique comprometida. Além disso, usam-se quantidades reduzidas de capim. Para a formação de palhada em áreas onde não se deseja formar pastos permanentes, cerca de dois quilos de sementes puras viáveis (SPV) por hectare já são suficientes. Naquelas áreas onde o objetivo é o pastejo por períodos mais longos do que a entressafra, usam-se de cinco a sete quilos de SPV por hectare.

Quanto às espécies de capim, pode-se optar pelas braquiárias, marandu, piatã ou paiaguás, que desempenham muito bem o papel de forrageira e cobertura de solo. Além dessas, pode-se optar pela Ruziziensis, caso o objetivo com o capim seja somente a cobertura ou o pastejo por um curto período de tempo. Vale ressaltar que essa braquiária possui alto valor proteico e tem boa palatabilidade, mas pouca resistência ao pisoteio.

Estabelecimento das culturas — Várias podem ser as formas de se estabelecer as culturas, dentre elas, estão as seguintes: a) uso de plantadeira com terceira caixa para sementes finas, de modo que as sementes sejam distribuídas na mesma linha das sementes do milho ou sorgo; b) duas operações, sendo uma para plantio do capim com uma semeadora específica para sementes finas e, em seguida, uma nova operação para o plantio do milho; c) distribuição das sementes do capim à lanço, com a posterior semeadura do milho. Essa última é a menos recomendada devido às menores chances de germinação das sementes descobertas. Caso a área esteja sendo reformada, pode-se passar a grade niveladora fechada ou rolo compactador para cobrir as sementes.

Na imagem, uma lavoura de consórcio de milho + capins para a produção de silagem e posterior plantio direto, tendo em vista a formação de cobertura vegetal e palhada

Uma vez tomadas as decisões quanto ao capim a ser utilizado, bem como o método de implantação, deve-se então proceder para a definição da cultura agrícola que será utilizada. Alguns aspectos sempre devem ser considerados, como o objetivo do sistema, a experiência do produtor e, o mais importante, a disponibilidade de máquinas e insumos na região. Frequentemente sistemas integrados são iniciados em locais onde é difícil conseguir implementos adequados e também produtos químicos, comprometendo a rentabilidade na área.

Ao optar pelo milho, que é a cultura agrícola predominante na segunda safra nas regiões do Cerrado, o produtor pode obter, basicamente, dois produtos iniciais: silagem ou grãos. Ambos podem ser armazenados e utilizados em períodos subsequentes, sendo que a silagem possui valores de proteína médios de 7% a 9% e teores de matéria seca de 32% a 35%. Já os grãos podem ser ensilados na forma de grão úmido, o que eleva sua digestibilidade para próximo de 70%, com teor de proteína de 60%, ou mesmo colhido e processado para compor rações.

De qualquer forma, há a necessidade de uma plantadeira com terceira caixa ou uma semeadora para sementes finas, uma ensiladeira ou colhedora de grãos. Devese considerar ainda a demanda de monitoramento e controle de pragas, especialmente lagartas, considerando que mesmo em materiais que contêm tecnologias Bt modernas pode haver dificuldade de controle dependendo da região de cultivo e da espécie de praga predominante no local.

Sorgo — Quando a escolha é o sorgo, a melhor possibilidade é a silagem, que possui valores de proteína similares aos do milho. As principais vantagens do sorgo são o rápido desenvolvimento inicial e também o baixo ataque por lagartas. O primeiro aspecto reduz significativamente a colonização da área por plantas daninhas e também limita o arranque inicial do capim consorciado, o que facilita seu manejo, não necessitando de estratégias para reduzir o desenvolvimento inicial do capim.

O segundo ponto facilita o controle das pragas, haja vista que o complexo de lagartas é o que possui maior potencial de dano nesse sistema. São poucos os registros de ataques severos de lagartas à cultura do sorgo, o que não significa que o produtor deixará de fazer o monitoramento ou abrirá mão do uso de inseticidas. O sorgo pode ser implantado com plantadeira ou à lanço, dependendo da forma de colheita desejada e da disponibilidade de maquinário local.

Caso haja o desejo em realmente formar um consórcio para o posterior pastejo, ou utilização com o SPD e a disponibilidade de máquinas seja baixa, uma boa opção pode ser a formação com o milheto. Nesse caso, tanto a cultura agrícola quanto o capim são implantados à lanço, sem o uso de semeadora, e em seguida são incorporados com rolo compactador ou mesmo a grade niveladora. Vale ressaltar que o uso da grade é aceitável somente nas situações em que não há plantio direto consolidado, ou seja, a área está revolvida.

Geralmente essa é a condição inicial da reforma de pastagem, imediatamente após a aplicação do calcário e do gesso. Além do ganho operacional na implantação, o consórcio com o milheto é de fácil utilização na propriedade. Caso não haja nenhuma máquina para colher a silagem ou mesmo os grãos, o produtor pode utilizar a área com pastejo direto pelos animais. É sabido, inclusive, que o sorgo rebrota após o pastejo.

As três espécies aqui discutidas podem ser trabalhadas na estruturação do plantio direto, geralmente com plantio entre dezembro e janeiro, objetivando construir o sistema para plantio da soja na safra seguinte. A implantação nesse período possibilita que a silagem, grãos e pasto estejam disponíveis para os animais no início do inverno, estação seca no Cerrado, e o momento em que há maior demanda por alimento.