Agricultura Familiar

 

Agricultura de PRECISÃO na pequena propriedade de tabaco no PR

Engenheiro agrônomo João Carlos Hoffmann, professor de Agricultura no Centro Estadual de Educação Profissional Agrícola Getúlio Vargas, de Palmeira/PR, [email protected]

A pequena propriedade rural do Brasil, segundo dados do Censo Agropecuário do IBGE (2006), emprega quase 75% da mão de obra no campo e é responsável pela segurança alimentar dos brasileiros, produzindo 87% da mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 58% do leite, 59% dos suínos, 50% das aves, 30% dos bovinos e 21% do trigo consumido no País, entre outros produtos. Também, segundo dados da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), é responsável pela produção de mais Divulgação de 85% do tabaco.

Porém, as pequenas propriedades apresentam problemas relacionados principalmente à falta de gerenciamento de seus ativos e do manejo correto dos solos, visando a uma agricultura sustentável. Boa parte do Sul do Brasil, caracterizado em especial pela imigração europeia, tem desenvolvido um modelo de agricultura voltado para a pequena propriedade no agronegócio familiar. Entretanto, precisa de aperfeiçoamento das práticas agrícolas conservacionistas para alavancar sua capacidade produtiva e maximizar sua competitividade.

As principais razões para as perdas de solo no Brasil (segundo a Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, a SBCS) são as baixas quantidades de resíduos culturais remanescentes dos cultivos anteriores, há excesso de pressão mecânica no solo, o trânsito de máquinas e equipamentos é realizado praticamente sem observar o melhor teor de água no solo para o seu preparo, a operação de semeadura ou plantio não é realizada em contorno ao declive, na quase totalidade das lavouras há falta de práticas conservacionistas de suporte, como o cultivo em contorno e o terraceamento, além da inexistência de rotação de culturas.

O Senar/PR vem realizando diversos cursos de manejo conservacionista de solo nas regiões de tabaco em estufa e galpão, visando à maior precisão na agricultura, pois existe variabilidade nas áreas de produção, devido à variação dos solos, à vegetação e ao histórico de uso. As diferenças fazem com que os produtores e técnicos tratem cada região de modo diferente, de acordo com suas potencialidades e necessidades. O conhecimento da variabilidade da produção e da sua qualidade é útil para qualquer cultura, sejam aquelas cultivadas em pequenas áreas, sejam as que ocupam grandes extensões de terra.

Gestão — É importante, antes de iniciar um trabalho de melhoria e conservação da fertilidade do solo, abordar temas da gestão, que são os seguintes: identificação do histórico do estabelecimento e dos gestores; estabelecimento dos principais problemas e prioridades do produtor relacionadas ao solo; definição dos objetivos e das perspectivas do produtor quanto aos projetos, atividades e investimentos na fertilidade, manejo e conservaçao do solo; elaboração de um croqui ou mapa da propriedade dividida em glebas ou talhões; anotação dos diferentes sistemas de exploração (florestas, pastagens, lavouras, etc.); distribuição espacial dessas explorações, classes de solos predominantes, declividade do terreno e posição na paisagem, espessura do horizonte. Da mesma forma, apurar a profundidade efetiva do perfil de solo, pedregosidade, drenagem, textura e fertilidade do solo, aplicação de calcário (quantidade, uniformidade, distribuição e incorporação), áreas uniformes de adubação, além de anotar se alguma gleba recebeu fosfato, adubação orgânica ou pousio.

AP — No intuito de melhoria de assistência técnica e para iniciar um projeto piloto de agricultura de precisão (AP) na fumicultura no Paraná, começamos um trabalho em propriedades rurais do município de São João do Triunfo/PR, com áreas entre dois e 16 hectares, integradas ao setor fumageiro. Foi feita a terceirização da AP através de uma empresa de geoprocessamento com experiência na região. A agricultura de precisão, segundo a Embrapa, é uma postura gerencial que considera a variabilidade espacial para maximizar o retorno econômico e minimizar o efeito ao meio ambiente. O elemento essencial para adotar a AP é a constatação de que há variabilidade espacial na lavoura e a sua intensidade é muito elevada para tratá-la como uniforme. Existe uma ideia equivocada de que para utilizar a AP são necessárias máquinas e equipamentos caros e sofisticados.

Atualmente as tecnologias de amostragem de solo em grades georreferenciadas são as mais utilizadas pelos produtores para mapear as propriedades do solo e aplicar corretivos e fertilizantes em taxas variáveis. As tecnologias disponíveis indicam que há potencial para gerar sistemas de recomendação de aplicação de insumos e uso de recursos naturais de forma mais eficiente, com alta probabilidade de retorno econômico e baixo impacto ambiental.

Na AP devemos mapear a fertilidade do solo, visualizar as variações, estabelecer um plano de correção e indicar a melhor alternativa para adubação. No projeto piloto de AP, já concluímos as etapas da amostragem de solo, análise de solo, geração dos mapas de fertilidade do solo, interpretação dos resultados, definição das fórmulas de calagem e adubação e geração dos mapas de calagem e adubação.

As vantagens ao produtor rural são o monitoramento estratégico das áreas de cultivo, o levantamento completo da fertilidade do solo, a tomada de decisão com mais segurança, a correção da fertilidade do solo (correção das manchas), a aplicação de fertilizantes à taxa variável, a distribuição dos fertilizantes conforme a necessidade pontual e uniformemente dentro do talhão e o aumento do potencial de resposta para adubação. O projeto piloto será implantado na safra de tabaco 2015/2016 com máquinas e implementos adaptados à pequena propriedade e ao final da safra faremos a análise dos custos benefícios, para tentar expandir para outras lavouras comerciais.