Logística

ESFORÇO para a safra não parar

A infraestrutura deficiente continua afetando a rentabilidade do produtor, mas o Governo acredita que muitas melhorias serão percebidas no escoamento da produção 2014/2015

Denise Saueressig [email protected]

Safra após safra, os problemas da logística representam a maior fonte de preocupação do agronegócio brasileiro. Eficiente e competitivo do lado de dentro da porteira, o País ainda enfrenta sérios gargalos para escoar a colheita de sucessivos recordes produtivos e que este ano será de quase 200 milhões de toneladas. As condições estão longe das ideais, mas obras e melhorias estão provocando mudanças importantes em estruturas do País. O Governo Federal vem trabalhando por meio de um Grupo de Trabalho criado pela Portaria nº 231/2014, que envolve diferentes ministérios e órgãos públicos e privados ligados às áreas do transporte e da agricultura.

Com as tendências que apontam para o incremento da produção na região e para desafogar os portos do Sul e do Sudeste, um dos principais esforços vem sendo direcionado ao chamado Arco Norte, que envolve a infraestrutura dos corredores multimodais nos estados do Amazonas, Pará, Rondônia, Mato Grosso, Tocantins e Maranhão e portos entre o Amazonas e a Bahia. “O Terminal de Grãos do Maranhão (Tegram), no Porto do Itaqui, e as operações da Bunge e da ADM no porto de Vila do Conde, em Barcarena/PA, poderão representar 5 milhões de toneladas de grãos a mais de exportação pelo Arco Norte nesta safra”, cita o assistente da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Carlos Alberto Nunes Batista. Ele também lembra que uma das obras esperadas para os próximos anos é o porto de Outeiro, no Pará, onde no futuro poderão ser embarcadas cerca de 15 milhões de toneladas de grãos.

O Mapa vem atuando como demandante de projetos, identificando gargalos e solicitando melhorias aos órgãos competentes. Batista acredita que é fundamental voltar esforços para as estruturas portuárias e cita as melhorias implantadas no ano passado no Porto de Santos/SP, que passou a receber um sistema de agendamento e sequenciamento de caminhões, o Portolog. O objetivo da iniciativa, que deve ser estendida a 12 portos brasileiros, é evitar a formação de filas por meio da programação de chegada das cargas.

Na safra 2013/2014, a produção de soja foi de 86,1 milhões de toneladas, e as exportações chegaram a 61,5 milhões de toneladas.

Multimodalidade, com o maior uso das hidrovias, vai desafogar as estradas, que hoje transportam cerca de 60% da safra

Desse total, 31,3 milhões de toneladas foram embarcadas nos portos de Santos/SP e Paranaguá/PR. A expectativa é de que os embarques de grãos pelos portos do Norte/Nordeste passem de 10,1 milhões de toneladas na safra passada, para 18,5 milhões de toneladas em 2014/2015. “Identificamos um potencial para o embarque de mais de 60 milhões de toneladas de grãos até 2022 pelo Arco Norte, mas para isso acontecer precisamos de modernização e parcerias com a iniciativa privada”, conclui Batista.

Impacto na receita — Um levantamento realizado pelo Mapa, considerando preços do ano passado, mostra as diferenças entre os valores do transporte entre o Centro-Oeste e os principais portos do País. No percurso de Sorriso/MT a Barcarena/PA, o custo ficou em R$ 206 por tonelada, enquanto entre Sorriso/MT e Santos/SP, o valor foi de R$ 260 a tonelada. O impacto na receita do produtor chega a alcançar 32,3% no último caso. O encurtamento das distâncias e o aproveitamento da multimodalidade pode representar redução entre US$ 40 e US$ 50 no frete pago pelos produtores e que hoje é estimado, em média, em US$ 100 a tonelada no País.

O maior equilíbrio no escoamento entre as regiões é vital para a sustentabilidade da atividade agrícola, constata o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja/MT), Ricardo Tomczyk. “O transporte para o Sul e o Sudeste ficará impraticável se isso não acontecer. Também precisamos considerar a grande safra do Rio Grande do Sul, que compete por espaço para o escoamento”, analisa.

A Aprosoja mantém, desde 2009, em conjunto com outras representações, o Movimento Pró-Logística, que fiscaliza, reivindica e avalia os projetos necessários para aprimorar o transporte da safra até os portos. O movimento considera a conclusão das BRs 163 e 158 como prioridades para o escoamento da produção do estado. “A conclusão da BR 163 é postergada há seis anos e existem trechos intransitáveis, principalmente quando chove. Esperamos que na safra 2015/ 2016 não precisemos falar mais disso”, declara Tomczyk. Outros projetos esperados são a operação da Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico) e a ampliação da navegação da hidrovia Paraguai-Paraná até Cáceres.

Além do modal rodoviário — Um dos mais graves problemas brasileiros está no fato de que mais de 60% da safra são transportados pelo modal rodoviário. Boa parte das estradas, no entanto, não está preparada para receber o fluxo acentuado de caminhões carregados a cada nova época de colheita. Segundo a pesquisa de 2014 da Confederação Nacional do Transporte (CNT), praticamente a metade (49,9%) do pavimento das rodovias do País apresenta algum tipo de problema, recebendo classificação regular, ruim ou péssima. A avaliação, que é realizada anualmente pela CNT, envolveu 98.475 quilômetros – toda a malha federal pavimentada e os principais trechos estaduais.

Além do modal rodoviário — Um dos mais graves problemas brasileiros está no fato de que mais de 60% da safra são transportados pelo modal rodoviário. Boa parte das estradas, no entanto, não está preparada para receber o fluxo acentuado de caminhões carregados a cada nova época de colheita. Segundo a pesquisa de 2014 da Confederação Nacional do Transporte (CNT), praticamente a metade (49,9%) do pavimento das rodovias do País apresenta algum tipo de problema, recebendo classificação regular, ruim ou péssima. A avaliação, que é realizada anualmente pela CNT, envolveu 98.475 quilômetros – toda a malha federal pavimentada e os principais trechos estaduais.

Este ano, o quadro do escoamento foi agravado pelo aumento nos preços dos combustíveis que provocaram protestos de caminhoneiros e bloqueio de estradas em pelo menos dez estados no mês de fevereiro. A manifestação chegou a comprometer a receita de produtores e o abastecimento de alguns alimentos aos consumidores.

No caminho para o equilíbrio entre os modais, o secretário de Política Nacional de Transportes do Ministério dos Transportes, Miguel Masella, informa que está em andamento o programa de melhoria das hidrovias dos Rios Madeira e Tapajós/Amazonas, assim como dos portos fluviais de Porto Velho/RO, de Santarém/PA e Vila do Conde/PA, de Itacoatiara/ AM, e de Itaqui/MA, além dos terminais de Miritituba/PA. “Também estamos incentivando a multimodalidade no Arco Norte através de financiamento de 426 embarcações com recursos do Fundo da Marinha Mercante para operação das hidrovias do Madeira e do Tapajós”, descreve.

Entre as demais obras consideradas prioritárias para o escoamento da produção agrícola, Masella cita a trafegabilidade na BR 163, entre Sorriso/MT e o porto de Miritituba/PA, um trecho de 945 km, dos quais 809 km estão pavimentados. “É preciso dar continuidade às obras de pavimentação da BR 163/PA e da duplicação da BR 163/364/MT, além da manutenção das demais rodovias do Arco Norte, como as BRs 364/174/158. Na infraestrutura ferroviária, há melhoria no trecho Rondonópolis- Santos, que permitiu aumentar o transporte ferroviário para o porto de Santos em 10% no ano passado, com projeção de uma nova ampliação de mais 15% para este ano”, enumera.

Existe potencial para a exportação de mais de 60 milhões de toneladas de grãos até 2022 pelos portos do Arco Norte