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TRIGO: a lavoura de baixos e baixos

Enquanto trabalham na colheita de uma grande safra de verão, os produtores brasileiros já pensam na lavoura de inverno. Onde o milho de segunda safra não é cultivado, o carro-chefe é o trigo, cultura que vive de oscilações e sofre com as variações do clima. Nos dois principais estados produtores – Rio Grande do Sul e Paraná – a tendência até agora é de redução para a área que será plantada este ano. Mas o ciclo do inverno tem mais. Culturas como a cevada e a aveia têm aumento de demanda e podem ser alternativas interessantes para o período. E a todos os produtores, os pesquisadores alertam: ainda que o retorno econômico não seja imediato, é preciso e sempre recomendável manter o solo coberto, independentemente da época do ano

Denise Saueressig [email protected]

O Brasil deve registrar um novo recorde no ciclo produtivo 2014/ 2015. Os números da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam para uma colheita próxima de 200 milhões de toneladas de grãos. O momento é de colheita dos grãos de verão em boa parte das regiões produtoras. Mas como a agricultura é dinâmica, também é hora de projetar e planejar os cultivos do inverno. Principal cultura do período, o trigo é cultivado principalmente na Região Sul e, no ano passado, ocupou 2,73 milhões de hectares no País, uma área 23,6% superior à que foi plantada em 2013. No Paraná, houve o maior incremento, de 37,1%. Foi cultivado, segundo a Conab, 1,36 milhão de hectares e foram colhidas 3,724 milhões de toneladas, o que representou um aumento de 102,1% sobre 2013.

No Rio Grande do Sul, o plantio também cresceu – de 1,038 milhão para 1,14 milhão de hectares. No entanto, problemas climáticos frustraram as expectativas de produtividade e a produção sofreu um recuo de 52,3% de 2013 para 2014, ficando em 1,5 milhão de toneladas. A qualidade do cereal também foi afetada, o que provocou queda nos preços, que variam de acordo com a classificação do grão. É justamente esse desempenho que não colabora para motivar os gaúchos diante de uma nova safra. Em março, as projeções ainda não estavam totalmente definidas, mas alguns indicativos mostravam o provável comportamento dos produtores.

Lavoura gaúcha sofreu com o clima e teve perdas de mais de 50% na colheita, que foi de 1,5 milhão de toneladas em 2014. Para este ano, estimativa é de redução na área

Rotação é necessária — Com lavouras em Cruz Alta, no Noroeste do estado, os irmãos Francisco e Fabio Tirloni contam que vão plantar trigo em função do esquema de rotação de culturas que adotam todos os anos. Em 2014, o excesso de umidade e o calor provocaram o surgimento da brusone nas plantas e ajudaram a derrubar a produtividade média de 60 sacas por hectare obtida nos últimos quatro anos para 37 sacas. Com um custo de colheita calculado em 50 sacas por hectare e preços em torno de R$ 28 a saca, o resultado financeiro do cereal foi negativo. “Só tivemos parte do prejuízo coberto porque tínhamos o Proagro”, relata Francisco, referindo-se ao seguro do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), do Governo Federal. Este ano, devido às incertezas da conjuntura política e econômica do País, a opção deverá ser pela contratação de um seguro privado.

Francisco e Fabio Tirloni, produtores de Cruz Alta/RS: torcida é por uma mudança de cenário para o cereal, que é cultivado para manter o esquema da rotação de culturas

Na safra de verão, os irmãos de Cruz Alta cultivam 300 hectares, dos quais 240 são com soja. Os outros 60 serão cultivados duas vezes, com o milho safra e com a soja safrinha. “A soja safrinha será um experimento. Vamos fazer duas safras e meia neste ciclo”, descreve Francisco. Em plena colheita da oleaginosa, a expectativa é de uma produtividade média de, no mínimo, 60 sacas por hectare. No inverno deste ano, além do trigo, que vai ocupar 150 hectares, 120 hectares serão destinados à aveia-branca e 30 hectares à canola. Para o trigo, a torcida é por uma mudança de cenário, que até agora sinaliza com preços não remuneradores e aumento de custos. “É uma pena, porque há três anos ganhamos dinheiro com o trigo, que é uma cultura essencial para a sustentabilidade do nosso sistema”, analisa o produtor.

Reversão de tendência ainda é possível — A possibilidade de novos acontecimentos faz com que, apesar da tendência de redução de área, o cenário ainda esteja em aberto para a próxima lavoura de trigo, sustenta o analista Carlos Cogo, diretor da Carlos Cogo Consultoria Agroeconômica. Nos seus primeiros levantamentos sobre a situação da cultura, ele projeta uma queda mais acentuada no Rio Grande do Sul. “A área no Brasil acumulou uma expansão de 44% nos últimos três ciclos, mas deve recuar 7,3% em 2015. No entanto, em caso de condições climáticas mais favoráveis, a safra 2015 tem potencial de produção de 7,3 milhões de toneladas”, assinala o consultor, lembrando que no último ciclo a forte retração no estado gaúcho reduziu a colheita brasileira dos esperados 7,6 milhões de toneladas, para 5,9 milhões de toneladas, 6,8% acima da safra 2013.

Uma das influências para a formação da próxima lavoura virá do dólar. A moeda norte-americana acumula alta de mais de 22% no primeiro trimestre de 2015, na casa dos R$ 3,20. Se, por um lado, esse cenário representa incremento nos custos pela necessidade de insumos importados, por outro, poderá favorecer os preços de venda do cereal. Também há tendência que os moinhos deem preferência ao produto nacional, já que o importado está mais caro. “Os preços estão apresentando alta no Paraná e têm espaço para subir mais, se considerarmos os valores do trigo argentino e norte-americano. Para citar um exemplo, uma tonelada do cereal argentino desembarca em São Paulo por R$ 950, enquanto uma tonelada do grão paranaense chega a R$ 810”, esclarece Cogo.

Na opinião do consultor, alguns fatores podem colaborar para o incremento nas cotações do trigo em grão e dos derivados nos próximos meses. “Podemos acreditar nessa tendência devido à forte valorização do dólar – que eleva a paridade de exportação –, à quebra da safra brasileira em 2014, à exportação do cereal de baixa qualidade do Rio Grande do Sul e à redução dos estoques do grão no Paraná”, argumenta.

O mercado do Rio Grande do Sul está deslocado desse movimento, já que o cereal disponível para a venda não atende a demanda da panificação. Em função da queda de qualidade para moagem, a maior parte da produção gaúcha foi destinada à exportação para mercados menos exigentes ou para a fabricação de ração. O preço médio da saca de 60 quilos, segundo a Emater/RS, era de R$ 25,75 na terceira semana de março.

Questões além do campo — Acompanhando de perto o sentimento dos produtores, o assistente técnico da Emater/ RS e especialista em trigo Luiz Ataídes Jacobsen lamenta que novamente o estado possa vivenciar uma drástica redução na lavoura de trigo. Ainda sem uma projeção oficial, ele fala em retração de até 30% nas propriedades gaúchas. “Em 2005, houve uma queda de 42% no plantio e, em 2006, de 30%. Foi um período ruim, mas depois conseguimos uma certa estabilidade”, recorda.

Pesquisador Eduardo Caierão, da Embrapa: trabalho de melhoramento inclui cultivares que atendam a indústria panificadora e que tenham maior resistência a estresses climáticos

Agora, o cenário formado por quebra de safra, baixa remuneração e incremento nos preços dos insumos, frete, energia e combustíveis cria um desestímulo natural entre os agricultores. “De qualquer forma, não podemos descartar que, depois da colheita da lavoura de verão e, fazendo uma análise mais racional dos fatos, alguns produtores ainda possam reverter suas decisões. Nesse sentido, também precisamos lembrar que há poucas opções para o cultivo do inverno no Rio Grande do Sul e que o trigo é utilizado no calendário da rotação”, declara.

A batalha pelo reajuste no preço mínimo da cultura também deverá pesar na hora da definição da lavoura. No ano passado, o aumento do valor foi de apenas 5% para a classe Pão Tipo 1 na Região Sul, ficando em R$ 33,45 a saca. Até o final de março, ainda não havia uma definição do Governo a respeito de valores para a próxima safra, mas a reivindicação, segundo a Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul (Fecoagro/RS), é de uma elevação de 19%.

Outra razão que motivou embate entre triticultores e Governo no ano passado foi a isenção da Tarifa Externa Comum (TEC) para as importações de trigo de fora do Mercosul, em uma cota de 1 milhão de toneladas. A medida foi justificada pela necessidade de garantir o abastecimento do mercado brasileiro no ano passado. O Brasil precisa importar praticamente a metade do necessário para complementar o consumo interno. A estimativa é de que no atual ciclo, até julho de 2015, sejam adquiridas do exterior cerca de 6,65 milhões de toneladas do cereal. Os principais fornecedores são os Estados Unidos e a Argentina.

Uma das razões que ajuda a desvalorizar os preços do trigo gaúcho é que, ao mesmo tempo em que há déficit do cereal no País, há sobra no Rio Grande do Sul, menciona o pesquisador Eduardo Caierão, da Embrapa Trigo. “Muitas vezes, devido ao custo da logística brasileira, é mais caro transportar a produção do Sul para o Nordeste do que importar de outros países. Além disso, parte do cereal gaúcho não atende as especificações necessárias para a panificação, que hoje responde por cerca de 70% do consumo nacional”, aponta.

Com sede em Passo Fundo/RS, a Embrapa Trigo trabalha há mais de 40 anos com o melhoramento de cultivares com o objetivo de suprir principalmente a demanda da indústria panificadora. “A qualidade também depende da segregação e de um esforço conjunto entre pesquisa, cooperativas e cerealistas”, define Caierão.

Produção e qualidade — Hoje, entre 90% e 95% da produção brasileira de trigo estão na Região Sul. O restante da lavoura, em estados como Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais e São Paulo, cultiva áreas irrigadas e de sequeiro. Enquanto no Sul a produtividade média fica em torno de 2,5 mil quilos por hectare, no Distrito Federal, por exemplo, o rendimento médio do trigo irrigado foi de 7 mil quilos por hectare na safra 2013. “No Sul, o clima é muito mais desafiador”, conclui o pesquisador da Embrapa. Ele acredita que existe potencial para a ampliação das lavouras no Cerrado, especialmente nas áreas de sequeiro, onde o custo é mais baixo em comparação com as lavouras irrigadas. “Nesse caso, precisamos superar os desafios da brusone, do calor e da falta de chuva”, enumera.

Na última safra, as adversidades do tempo provocaram queda de 56,5% na produtividade do cereal gaúcho, derrubando a média do estado para 1,33 mil quilos por hectare, segundo a Conab. Caierão diz que a pesquisa vem avançando no trabalho de cultivares com maior resistência ao estresse causado por geadas e chuvas e a problemas como manchas foliares, giberela e brusone. “Nos nossos ensaios, chegamos a obter rendimentos entre 6 mil e 7 mil quilos por hectare com algumas cultivares, e há produtores que alcançam isso nas suas lavouras, mas a assistência técnica e o manejo são essenciais para chegar a um número como esse”, acentua.

Queda deverá ser menor no Paraná — A expectativa para o Paraná indica um recuo de 3% na área a ser plantada com o trigo. Diferentemente da Conab, que indica o cultivo de 1,36 milhão de hectares na safra 2014, o Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura do estado registrou área de 1,39 milhão de hectares com o cereal na última temporada. Agora, a tendência é de plantio de 1,35 milhão de hectares.

No Paraná, onde o plantio segue até junho, há situações distintas de acordo com a região. No Norte, por exemplo, onde o trigo concorre com o milho da segunda safra, houve atraso no plantio da soja e pouco espaço para o milho. Assim, poderá haver um incremento de mais de 9% no cultivo do trigo. Já no Sul, onde no ano passado a chuva na colheita levou à queda de rendimento, a projeção é de decréscimo. “No geral, será uma boa área de cultivo e com possibilidade de recorde de produção, acima de 4 milhões de toneladas se o clima colaborar”, informa o engenheiro agrônomo do Deral Carlos Hugo Godinho.

Onde há concorrência entre as culturas, a opção pelo milho também será econômica. Entre fevereiro de 2014 e fevereiro de 2015, o preço da saca do trigo declinou 26%, chegando a R$ 30,66 na média do estado. Nesse mesmo período, o milho recuou 4%, de R$ 21,59 para R$ 20,80 a saca. “Além dessa queda de um ano para o outro, os preços estão abaixo do custo variável e do mínimo estipulado pelo Governo”, cita o agrônomo.

Produtor Claudio Kugler, de Piraí do Sul/PR: áreas de trigo cultivadas com alta tecnologia têm potencial para atingir produtividade de 5 mil quilos por hectare

A depreciação fez com que os produtores segurassem a venda da última safra. Segundo o Deral, até fevereiro, o estoque de trigo no Paraná era de 900 mil toneladas, bem mais do que as 100 mil disponíveis no mesmo período do ano anterior. Mas pela necessidade dos moinhos e dos produtores que precisam abrir espaço nos armazéns, março foi um mês de maior movimentação no mercado e de leve melhora nos preços. No dia 24 de março, a saca tinha valor de R$ 32,79, o que indicava um incremento de 5% em comparação com o mês anterior.

Altos rendimentos — Na região dos Campos Gerais do Paraná, o produtor Claudio Henrique Kugler mantém um esquema de rotação nos 1,7 mil hectares cultivados na propriedade da família em Piraí do Sul. A lavoura que recebe soja, milho e feijão no verão é semeada com trigo, aveia-branca, aveia-preta e azevém no inverno. E nesta safra, a novidade será a cevada, que deve ocupar 12% da área.

Trabalhando com duas cultivares altamente produtivas e com a ajuda do clima, ele obteve rendimentos entre 4,2 mil e 4,7 mil quilos por hectare na área de trigo da última safra. Até março, 50% da colheita havia sido vendida. “Estou aguardando preços em torno de R$ 650 a tonelada para vender o restante”, afirma Kugler. A lavoura de 2013 foi comercializada com valores de cerca de R$ 800, mas como a produtividade foi mais baixa, o resultado acabou ficando bem parecido nas duas últimas safras.

Em meados do mês passado, o produtor paranaense ainda não havia fechado o cálculo dos custos de produção da próxima lavoura, mas ouviu notícias de que os fertilizantes podem ter aumento de preço entre 30% e 40%. “Também não sabemos o quanto esse valor é parte de especulação”, avalia. Mesmo com a provável alta no desembolso, ele não tem intenção de reduzir a tecnologia na área, que ele acredita que tem potencial para alcançar os 5 mil quilos por hectare. “Vamos fazer a nossa parte, mas sabemos que dependemos do clima para colher bem”, acrescenta.

Marcio Copacheski, gerente de Negócios da Castrolanda: instabilidade econômica vai provocar redução de 15% na lavoura de trigo dos associados da cooperativa nesta safra

Liquidez é importante — O produtor é um dos 850 associados da cooperativa Castrolanda, que tem sede em Castro/ PR. Desses, em torno de 350 produtores cultivam trigo no Paraná e em São Paulo. Na última safra, houve acréscimo de quantidade e qualidade ao cereal, destaca o gerente de Negócios Agrícolas da Castrolanda, Marcio Copacheski. “Tivemos um aumento de 13% em produtividade e de 15% em área plantada em relação à safra 2013, com um volume produzido ao redor de 150 mil toneladas de trigo. Além disso, com a introdução de novas cultivares, com uma melhor aptidão industrial, o perfil do nosso trigo está cada vez mais adaptado às necessidades dos moinhos”, destaca.

Segundo o dirigente, a Castrolanda foi a primeira cooperativa do estado a realizar testes de “Falling Number” (utilizado para determinar o nível de atividade enzimática no interior do grão), direcionando e segregando o produto de acordo com a aptidão e classificação para a indústria, seja de pão, massas ou biscoitos. “Isso facilita ao nosso setor de operação de mercado a adequada e rápida comercialização do produto dos associados”, justifica Copacheski. Outro diferencial que vai contribuir para o aumento da liquidez do trigo é o moinho inaugurado no ano passado em um trabalho conjunto com outras duas cooperativas - Batavo e Capal. Instalada em Ponta Grossa/PR, a indústria tem capacidade para absorver 120 mil toneladas do cereal por ano.

Para a safra 2015, a Castrolanda estima redução de 15% na área a ser plantada com o trigo. O recuo é creditado aos desdobramentos econômicos que provocam um certo receio entre os produtores, analisa Copascheski. Ao mesmo tempo, e como alternativa ao cereal, a cooperativa está incentivando a produção da cevada cervejeira entre os associados, que este ano devem plantar cerca de 3,5 mil hectares com a cultura.

Consultor Elmar Floss: Região Sul tem necessidade de produção de 9 a 12 toneladas por hectare ao ano de palhada para garantir a sustentabilidade do plantio direto

Área com aveia-branca pode aumentar — Aveia, canola, centeio, cevada e triticale também formam o ciclo da safra de inverno no Brasil. A mais expressiva dessas lavouras, a aveia-branca, sofreu queda de 9,9% na área plantada em 2014, para 153,2 mil hectares. A produção caiu 23%, ficando em 306,5 mil toneladas. Especialista na cultura, o professor e consultor Elmar Floss, diretor do Instituto Agronômico de Ciências (Incia), explica que o mercado de grãos da cultura é limitado. Por isso, quando em um ano há uma grande produção, como foi em 2013, o excesso de oferta faz o estoque aumentar e o preço cair. Assim, no ano seguinte, uma área menor é cultivada. “Ao contrário de 2013, em 2014 houve uma frustração muito grande na produção de grãos de aveia, a exemplo do que aconteceu com os demais cereais de inverno, reduzindo drasticamente a oferta desse grão no mercado. Assim, os preços subiram e praticamente não tem estoque de grãos com qualidade industrial nesse momento. Por isso, a área cultivada nesse inverno deve ser maior, com um aumento talvez entre 10% e 15%”, considera o consultor.

O principal mercado para a aveia-branca é a alimentação animal, com destaque para os equinos e para os bovinos de leite. O apelo por alimentos funcionais também provocou aumento do consumo humano de aveia nos últimos anos. “Entretanto, quando se compara o consumo no Brasil com os países europeus e os Estados Unidos, ainda é muito baixo. A aveia também é considerada o melhor cereal para alimentação infantil, pois é rico em proteínas, sais minerais, vitaminas e fibras”, complementa Floss.

A canola foi outra lavoura que enfrentou problemas devido ao clima em 2014. A área cultivada no País é pequena, ficou em 44,7 mil hectares no ano passado (39 mil hectares no Rio Grande do Sul), e a produção foi de 36,3 mil toneladas, uma redução de 40% em comparação com 2013, de acordo com os números da Conab.

A Associação Brasileira dos Produtores de Canola (Abrascanola) estima um potencial de crescimento de 20% para a área cultivada com a planta em 2015. “O Brasil é importador de canola, porque a demanda atual é o equivalente a 130 mil hectares. Ou seja, o Brasil pode crescer cerca de 70 mil hectares ainda. Isso pensando apenas em consumo humano. Se falarmos em demanda para a produção de biodiesel, esse número é ainda maior”, relata o presidente da associação, Luiz Gustavo Floss. O Brasil deve produzir 4,1 bilhões de litros de biodiesel em 2015. A soja responde por 75% desse volume. As gorduras animais representam 21%; o óleo de algodão, 2%; o óleo de fritura usada, 1%; e outras matérias-primas, como a canola, 1%.

Manejo que preserva o solo — Tão importante quanto investir em tecnologia e manejo para alcançar bons resultados, é manter o solo coberto a maior parte do tempo para obter as mais adequadas propriedades químicas, físicas e biológicas.

A realidade, no entanto, mostra que nem sempre os produtores têm o cuidado de investir em plantas de cobertura quando não há um cultivo comercial na área.

O plantio direto, pela formação da palha, protege o solo contra a erosão, aumenta a infiltração de água quando chove, reduz a evaporação, tem efeito supressivo sobre plantas daninhas e oferece nutrientes à terra. O professor Elmar Floss cita que nas condições climáticas da Região Sul há necessidade da produção de 9 a 12 toneladas por hectare ao ano de palhada para garantir a sustentabilidade do plantio direto. “A soja, com cultivares cada vez mais precoces e de baixa estatura, deixa cada vez menos palha no solo. Além disso, trata-se de uma palhada de baixa relação C/N, que é rapidamente decomposta pelos microrganismos do solo”, ressalva o consultor.

Além disso, acrescenta Floss, as principais culturas, soja e milho, são colhidas cada vez mais cedo e a semeadura do trigo e de outros cereais de inverno é feita mais tarde devido à sensibilidade a geadas, criando-se um vazio outonal que não existia até alguns anos atrás. “A canola é implantada mais cedo, bem como as forrageiras como aveia-preta, aveia-branca, centeio e azevém. Nas demais áreas, esse vazio precisa ser preenchido com culturas intercalares, como aveia-preta, nabo-forrageiro ou ervilhaca, dependendo da sucessão cultural e das condições da região. O importante é seguir a técnica colher-semear- colher e manter o solo coberto a maior parte do tempo”, recomenda.


O grão que vai para a garrafa

A demanda pelo malte, principal matéria-prima da cerveja, vem estimulando o cultivo da cevada no Brasil. Em 2014, de acordo com a Conab, houve aumento de 13,9% na área, com 117,2 mil hectares plantados na Região Sul. Ainda mais vulnerável que o trigo em relação à umidade, a lavoura sofreu com o clima no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, e a produção teve queda de 15,4%, ficando em 305,4 mil toneladas. O pesquisador Euclydes Minella (foto), da Embrapa Trigo, acredita em crescimento da cultura nos próximos anos e de aumento na área plantada na atual safra. Além do Sul, há lavouras cultivadas em sistemas irrigados em estados como São Paulo, onde a Malteria do Vale, em Taubaté, deve elevar a área de 3,4 mil hectares na última safra, para 5 mil hectares este ano.

Normalmente, os preços e custos da cevada são semelhantes aos valores do trigo. No entanto, para aceitação da indústria cervejeira, a planta precisa da germinação mínima de 95% dos grãos para ser transformada em malte. Quando isso não acontece, o cereal é destinado à ração e o valor comercial pode cair pela metade. A recomendação aos produtores que planejam cultivar a cevada é estabelecer o destino da colheita antes do plantio e buscar orientação técnica para a formação da lavoura. “O nível tecnológico da cevada é bastante competitivo e, em condições normais de clima, a cultura pode ter produtividade superior ao trigo, com potencial para 100 sacas por hectare”, ressalta Minella.

Uma das vantagens agronômicas da cevada é o ciclo de produção até 15 dias mais curto em relação ao trigo, o que permite que a soja seja plantada mais cedo na safra de verão. Estudos ainda indicam que o rendimento da oleaginosa na resteva da cevada pode chegar a cinco sacas por hectare a mais do que a obtida na sequência do trigo, o que ocorre pelas características do sistema radicular da planta e pelo maior volume de palha formada e convertida em matéria orgânica.


O volume produzido no País abastece apenas 40% do que as maltarias precisam. O restante é importado principalmente de países da Europa, da Argentina e do Uruguai. A lavoura é formada por meio de contrato – o agricultor recebe a semente e depois será remunerado de acordo com a qualidade do produto entregue. A Embrapa trabalha em conjunto com indústrias como a Ambev e a cooperativa Agrária, de Guarapuava/ PR, no desenvolvimento de cultivares que atendam a critérios como maior produtividade, maior qualidade cervejeira e resistência a doenças como oídio, mancha reticular e giberela.

O professor fornece um exemplo de sistema que pode ser implantado nesses casos. Nas áreas onde será semeado o trigo, pode ser plantado o nabo-forrageiro, na quantidade de 20-25 kg/ha de sementes, em um espaçamento de 17-20 cm entre linhas. “Dessa forma, a cobertura do solo é mais rápida e a raiz não tuberiza, gerando uma melhoria nas propriedades físicas e químicas. Com pelos menos 60 dias de intervalo entre a semeadura do nabo e a dessecação antecedendo a semeadura do trigo, cevada ou aveia-branca, essa alternativa é economicamente viável”, detalha.

Desafio maior no Cerrado — Além de colaborar para a eficiência do plantio direto, o uso de plantas de cobertura em rotação, sucessão ou consórcios também é fundamental para reduzir as quantidades de fertilizantes nitrogenados aplicados às culturas. Para o milho, que tem elevado consumo de nitrogênio, essa prática pode representar economia significativa. “Mesmo que sejam conhecidos os inúmeros benefícios das plantas de cobertura, essa prática é pouco utilizada em plantio direto no Cerrado devido à limitação de oferta hídrica, já que é comum um período de cinco a seis meses sem a ocorrência de chuvas, o que normalmente acontece entre abril e outubro. Além disso, existe uma enorme dificuldade em sincronizar o cultivo das plantas de cobertura com as épocas de semeadura e os sistemas de manejo das culturas comerciais”, descreve a pesquisadora Arminda Carvalho, da Embrapa Cerrados.

Sistemas de integração lavoura-pecuária vêm representando uma alternativa importante para viabilizar esse esquema produtivo, especialmente com o cultivo de braquiária, que tem bons resultados em consórcio ou sucessão com o milho. “A braquiária não compete com o milho e ainda ajuda a aumentar a produtividade do cereal”, prossegue a especialista. Plantas com maior tolerância ao estresse hídrico são indicadas para essas regiões. Em locais onde a colheita do milho safrinha é feita mais cedo, o produtor pode, em seguida, plantar milheto, nabo-forrageiro ou sorgo. “Sabemos que, do ponto de vista técnico, a sucessão acaba virando uma monocultura e prejudica a diversidade. Por isso, estudamos plantas e manejos que possam mudar esse ciclo”, frisa a pesquisadora.