Glauber em Campo

SOJA: DEPENDÊNCIA PERIGOSA

 

GLAUBER SILVEIRA

O Brasil é um dos países que possui uma das maiores áreas agrícolas do mundo. São quase 280 milhões de hectares, o que nos transformou em um dos principais exportadores mundiais, principalmente de soja, o que é muito positivo, afinal, isso tem mantido a nossa balança comercial positiva. Porém, tem aumentado a preocupação brasileira e, em particular, dos produtores, pelo fato de a nossa exportação estar se concentrando em apenas um comprador, o que é um risco que deve ser olhado com atenção.

A China tem uma grande importância no mercado de commodities. Na safra 2013/2014, consumiu mais de 80 milhões de toneladas, e em 2014/2015 deve consumir acima de 86 milhões. O país é o principal importador de soja do Brasil. Como sua produção está estagnada há dez anos, a China tem impulsionado a produção mundial de soja, afinal, um país com mais de 1,3 bilhão de pessoas e crescendo seu consumo acima de 7% ao ano tem sua importância. Mas isso também traz preocupações.

O país da Ásia importa 70% de toda a soja em grãos exportada pelo Brasil. Essa dependência de um consumidor só gera incertezas. Mas da mesma forma, a China também tem sua preocupação com o fornecimento e com os preços. Os chineses não se conformam de o mercado de soja ser formado na Bolsa de Chicago. Por isso, foram inúmeras as tentativas do gigante asiático em romper essa dependência do mercado ser ditado por outro gigante que é o EUA.

A China tem buscado ter referências de preços dos produtos que importa da sua própria bolsa. Uma prova disso é que 25% de toda a comercialização mundial de óleo passa pela Bolsa de Commodities de Dalian, a principal bolsa de futuros desse gigante asiático. A China vê Dalian como um instrumento necessário para aumentar sua influência na formação das cotações internacionais, em especial da soja, e fazer negócios em sua própria moeda.

Tive a oportunidade de ir à China por diversas ocasiões. Uma dessas viagens foi para participar da 6ª Conferência Internacional de Óleos e Oleaginosas, que aconteceu em Guangzhou. E durante essas viagens pude constatar a evolução das cidades chinesas e o crescente processo de urbanização do meio rural. A China tem uma população de 1,34 bilhão, sendo que menos de 50% estão na área urbana.

O maior poder aquisitivo dos cidadãos também se reflete no aumento das importações de soja, pois com mais dinheiro as pessoas comem melhor, e a soja é a base para a produção de farelo e ração que alimenta animais de abate (frango, suíno e peixe). Lembrando que a China é o maior produtor de suínos do mundo; 50% do suíno mundial é chinês. É também o maior produtor de peixes, a principal carne consumida no mundo.

A China tem se consolidado como o principal comprador e vendedor do Brasil. Em 2014, o país importou do Brasil US$ 40,6 bilhões. Apesar de ser inimaginável a China deixar de comprar soja do Brasil, a questão é outra: a demanda chinesa continuará crescendo? Afinal, o Brasil a cada ano tem aumentado sua produção imaginando que o gigante asiático irá consumir mais, o que é muito temerário. O resultado estamos vendo agora com a baixa nos preços da soja pelo aumento da oferta da oleaginosa no mercado mundial.

A realidade do mercado é que na safra 2013/14 o mundo produziu 283,7 milhões de toneladas de soja. Em 2014/15, a expectativa é que sejam 315,1 milhões de toneladas, um crescimento de 11%. Os estoques crescem de 66 milhões para 89,3 milhões de toneladas, crescimento de 34,7% em apenas um ano. Em contrapartida, o consumo mundial cresceu apenas 5,7%, o que não é pouco. Mas o Brasil segue crescendo de forma acelerada a sua área, com 26% de aumento em três anos. O chinês não consegue demandar todo esse aumento.

Ficou claro que, apesar de a economia chinesa ser uma locomotiva, ela tende a desacelerar um pouco, para evitar descarrilar, mas o trem-bala chinês não vai parar. Vai seguir mais lentamente em uma velocidade segura. Resta aos produtores brasileiros ajustarem o crescimento da área agrícola de forma mais sustentável no médio e longo prazo, se é que isso é possível, já que qualquer ano de preços melhores vemos o efeito manada de aumento de área. E com isso os preços caem, a produtividade cai e o lucro some.

Presidente da Câmara Setorial da Soja, diretor da Aprosoja e produtor rural em Campos de Júlio/MT