Na Hora H

O PIOR PARA O SETOR RURAL É A PERMANÊNCIA DA CRISE

 

ALYSSON PAOLINELLI

Nenhum produtor rural sério e de sã consciência poderá desejar a permanência de uma crise política, da falta da autoridade e da apresentação de soluções para os impasses que vivemos. Crise política, não nos cabe muito meter o bedelho. Nós nunca criamos.

Crise econômica, nós podemos ajudar. É só definir que precisamos produzir mais e melhor e que temos de atender as demandas mundiais com produtos de qualidade e preços competitivos. Qualidade já fazemos. Os nossos produtos hoje chegam a ganhar sobrepreço nos mercados internacionais porque são melhores. Se temos dificuldades na competição de preços, o problema não está dentro da fazenda. Ele se acha fora da nossa porteira, e estamos esperando que alguma coisa de objetivo seja feita para que os custos dos nossos serviços de transporte, de limpeza, de processamento, de armazenamento e de facilidades portuárias sejam resolvidos.

Falar em ajuste econômico, financeiro ou fiscal já nos assusta. Isso tem o mesmo cheiro dos famigerados planos econômicos (e foram sete) que tentaram aniquilar todo o setor produtivo brasileiro.

Em 2002, eu ouvi claramente dizer que bastava de planos econômicos. Acreditei, pois eles foram fatais às nossas pretensões de ser uma economia competitiva. Nos últimos, esses planos nos permitiam usar a imagem de que os governantes, para acertar ou martelar os dados financeiros de suas contas, vinham para cima de nós com duas cabaças ou boias, amarravam em nossos pés, e uma bigorna seria amarrada no pescoço, e nos jogavam n’água dizendo: “Salve-se quem puder”.

Os ajustes nada mais são que as marteladas dos planos econômicos para acertar hoje a gastança do Governo. Felizmente, começamos a ouvir as vozes de alguns partidos da chamada base do Governo exigindo que o ajuste se faça dessa vez dos dois lados, inclusive, nas contas públicas. Isso é bom. Esperamos que não seja demagogia.

A verdade é que o setor produtivo em algumas regiões está agravado por falta ou excesso de chuvas e até agora está à míngua. Não há recursos, os programas de produção estão sendo paralisados pela completa ausência dos bancos financiadores, que apenas alegam não terem limites. Isso é muito arriscado. Pensar-se que a Nação corrigirá suas distorções financeiras sem a ajuda e a participação do setor produtivo brasileiro é um erro pior que todas as trapalhadas que antes fizeram.

Temos insistido que a nossa ministra da Agricultura, Kátia Abreu, que conhece bem o setor, é a única a ter um discurso consolidado na experiência e na luta destes últimos 30, 40 anos. Se não respeitarem as suas reivindicações, é sinal que estamos mesmo no fim de uma jornada. Não creio que haverá tanta irresponsabilidade. Em casa que falta pão, todo mundo chora, grita, e ninguém tem razão.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura