Eduardo Almeida Reis

NOVIDADE

Pelejo com o leite há tanto tempo, estudei bastante, visitei um monte de fazendas e posso dizer como Sócrates: “Só sei que nada sei, e o fato de saber isso me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa”.

Através da Internet tenho visto fazendas leiteiras do arco da velha, como aquela europeia que não tem um único empregado e o dono, mesmo viajando, controla tudo pelo computador e pelo celular. Automação total. Suspeitas de mamite acionam a visita de um veterinário. É um negócio tão complexo, tão maluco, tão caro, que fica difícil de explicar, mas foi exibido em um vídeo de alguns minutos.

No Brasil, conheci fazenda de 50 mil litros/dia e soube de uma, instalada na baixada santista para produzir muitos milhares, desativada logo depois. Que dizer das canadenses, em que é preciso aquecer a água dos bebedouros congelada no inverno?

O grande zootecnista gaúcho Luiz Fernando Cirne Lima foi juiz de uma exposição de gado em Alberta, Canadá. Temperatura ambiente: 44 graus abaixo de zero. Não há táxis parados nas portas do saguão do aeroporto: os motores congelariam. O próprio passageiro deve sair e fazer sinal para os táxis que circulam por ali. Embarcando, pergunta ao motorista o que aconteceria se o motor enguiçasse. É informado de que teriam oito minutos de vida, mas que não se preocupasse porque os outros motoristas são muito prestativos e param oferecendo carona.

Dia seguinte, exposição de gado ao ar livre, expositores, tratadores e juízes vestindo roupas térmicas. Pois é: tais roupas existem. Tenho colega de jornal que cobre a área esportiva, conhece 122 países e me falou de suas cuecas térmicas. Quando cobri a área de esportes, fui ameaçado de viagem para a Copa 2010 na África do Sul em pleno inverno. Ameaça que felizmente não se concretizou. Não consigo me imaginar metido em uma cueca térmica.

Nas andanças leiteiras aprendi que a produção no Brasil nunca foi um bom negócio, apesar de a vaca ser um bicho abençoado. Conheci produtor que ganhava bom dinheiro de quatro em quatro anos vendendo o curral fechado, isto é, todas as 400 vacas de uma só vez.

Reformava, limpava e pintava os estábulos, dava férias à equipe de retireiros e recomeçava o trabalho com as novilhas que tinha criado. Cada venda fechada, de quatro em quatro anos, rendia US$ 200 mil no dólar daquele tempo, muito mais dólar que o atual. Como chefe de linha, meu amigo recebia um pouquinho mais pelo leite enviado e o negócio era rentável no período entre as vendas. Compradores? Fazendeiros do Nordeste animadíssimos com as compras de currais fechados, em que a média das 400 vacas mestiças era muito boa.

Pessoalmente rico com os seus ônibus urbanos, meu colega de sindicato rural vivia perguntando: “O senhor está precisando de dinheiro?”. Sempre aceitei, ele me emprestava a juros de 2% ao mês, dizendo que o negócio era muito bom e dobrava o capital em dois anos. Não entendo de juros, juros compostos, de nada de coisa alguma. Só sei que sempre paguei os empréstimos e sobrevivi, porque a vaca, repito, é um bicho abençoado. Duro é lidar com os retireiros, hoje na faixa dos dois salários, casa, luz, dois litros diários enchendo lata de cinco litros, horta, pomar da sede, porco de ceva, água de mina e motocicleta. Não há um que não tenha sua moto. Se a comadre ajuda na sede da fazenda é mais um salário. Ainda assim, estão cada vez mais difíceis de encontrar e a instalação de uma fazenda inteiramente automatizada, como aquela da Europa, pede a fortuna de um Bill Gates.

Isto posto, passo à novidade prometida no título desta nossa conversa. O Campo das Vertentes, em Minas, foi das primeiras regiões que explorou a bovinocultura no Sudeste: tinha campos naturais que dispensavam a derrubada das matas e a formação dos pastos. Barbacena, cidadepolo, sempre foi região leiteira e chegou a produzir bons queijos. Vejo agora nos jornais que aquela região solucionou o problema crônico dos maus preços do leite: as cooperativas recebem e não pagam. Os produtores continuam trabalhando com os bichos abençoados, mandam o leite e não recebem um tostão furado.

Pecuaristas que fornecem leite para a LBR – Lácteos Brasil S.A., estavam sem receber havia meses. Só em Ibertioga/ MG, 15 produtores tinham mais que R$ 230 mil para receber. A LBR resulta da fusão da Bom Gosto com a Leitebom. Teve fábricas em dez estados e foi dona de marcas fortes como a Parmalat.