Plantio Direto

 CERRADO: o que vem sendo realmente praticado

Roni Fernandes Guareschi, Dr. PhD em Agronomia em Ciência do Solo, pós-doutorando (pesquisador) da Embrapa Agrobiologia, e Marcos Gervasio Pereira, Dr. em Agronomia em Ciência do Solo, professor do Departamento de Solos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

O sistema de plantio direto (SPD) surgiu no Brasil como uma alternativa para minimizar os impactos causados ao solo pelas diferentes formas de uso. Nesse sistema, a manutenção de resíduos vegetais na superfície, a rotação de culturas (RC) e o mínimo revolvimento do solo (revolvimento somente na linha/cova de semeadura), princípios básicos da adoção do SPD, podem alterar a quantidade e a qualidade da matéria orgânica, acarretando melhoria da fertilidade e nos atributos físicos e biológicos do solo. No entanto, na região dos Cerrados, a RC, um desses princípios básicos do SPD, tem sido substituída pelas sucessões de culturas (SC), principalmente devido ao pequeno número de culturas econômicas para serem utilizadas na época de outono/inverno.

O milheto semeado na safrinha após soja verão pode atingir bom patamar de produção de massa seca (palhada) desde que as condições climáticas sejam favoráveis

A rotação de culturas é considerada como uma alternância ordenada de diferentes culturas, em um determinado espaço de tempo (ciclo), em uma mesma área e na mesma estação do ano. No Cerrado, um exemplo de RC é o cultivo de algodão-soja-milho. Um dos primeiros benefícios gerados pela RC relacionados ao solo é um aumento na adição de biomassa (parte aérea e raízes) que, em conjunto com a adoção do SPD, proporciona incrementos na matéria orgânica do solo (MOS).

O aumento dos teores de MOS proporcionado pelo SPD com RC gera outros benefícios ao solo, tais como: melhoria de sua estrutura, principalmente por meio da formação e estabilização de agregados; fornecimento de nutrientes para as culturas; favorecendo a disponibilidade de alguns deles como o fósforo; aumento da capacidade de troca de cátions do solo (CTC); complexação de elementos tóxicos às culturas, como o alumínio, e aumento da biomassa e atividade biológica do solo. Tais mudanças irão ocorrer através da inclusão de espécies com sistema radicular agressivo e pelos aportes diferenciados de matéria seca. A intensidade da melhoria nos atributos do solo irá depender do tempo de cultivo, do número de cultivos por ano e das espécies cultivadas.

Predomínio da sucessão de culturas — No entanto, mesmo com todos os benefícios da RC citados anteriormente, o que predomina no SPD na região dos cerrados são as sucessões de culturas. A SC é definida como o ordenamento de duas culturas na mesma área agrícola por tempo indeterminado, sendo cada uma cultivada em uma estação do ano. As principais sucessões que predominam nas áreas de SPD dessa região são o cultivo da soja ou do milho no verão sucedido por milho, sorgo, milheto ou nenhuma cultura (pousio) no outono.

Lavoura de soja sob palhada de braquiária em sistema plantio direto com rotação de culturas, um princípio básico do sistema plantio direto na palha

Além dos critérios econômicos, também pode-se citar que a adoção da SC em detrimento da RC está relacionada a aspectos de manejo e logística, ou seja, a maioria dos agricultores da região adaptaram- se à utilização de culturas como a soja e o milho, para os quais possuem maior conhecimento no tocante às práticas culturais a serem adotadas, além da facilidade de venda e armazenamento da produção. Essa realidade é tão expressiva que, nos últimos anos, quando o preço da saca de milho não foi satisfatório, muitos agricultores optaram por não cultivar o milho safrinha e fazer uma segunda safra de soja (sojinha). Diante disso, percebe-se a necessidade de ajustes no SPD que aliem a preservação do solo, com sistemas de culturas que estejam dentro da realidade do produtor e que garantam retorno econômico.

É importante destacar que, em algumas situações, o SPD com SC pode acarretar em uma cobertura do solo inadequada e insuficiente, não garantindo ao solo uma adição de matéria orgânica (MO) capaz de manter e/ou melhorar seus atributos químicos e físicos. De acordo com pesquisas brasileiras, no SPD é necessária a entrada de cerca de 5 toneladas/hectare por ano de carbono ao sistema para compensar a quantidade perdida na decomposição dos resíduos orgânicos, o que dificilmente é obtido com culturas anuais (algodão, feijão e soja).

Como exemplo, se for considerado um teor médio de 50% de carbono presente na palha, para o SPD manter-se sustentável em longo prazo, tem que se aportar ao solo cerca de 10 toneladas/hectare de palha. Nas condições do Cerrado e em áreas de SPD com SC, as culturas de milho, sorgo e milheto podem atingir esse patamar de produção de massa seca (palhada) desde que as condições climáticas sejam favoráveis. Porém, a velocidade com que os resíduos culturais normalmente são decompostos pode ser facilmente constatada pela falta de cobertura do solo por ocasião do plantio de verão em diferentes regiões do Brasil.

Várias pesquisas desenvolvidas no Brasil apontam que o SPD com sucessão soja/milho safrinha, em algumas situações, promove cobertura do solo inadequada e insuficiente, acarretando com o passar do tempo em menores teores de MOS e consequente maior densidade do solo e resistência à penetração quando comparada ao SPD com RC. Porém, outros resultados demonstram que a adoção do SPD com sucessão soja/milho quando comparada ao sistema de plantio convencional (SPC), tem proporcionado maiores teores e/ou estoques de carbono e nitrogênio e menores valores de densidade do solo.

Esse padrão indica que a sucessão soja/milho safrinha é um sistema mais sustentável em comparação ao SPC. No entanto, torna-se necessária a condução de um maior número de pesquisas que visem à comparação da eficiência desse tipo de SPD com outras formas de sucessão e/ou rotação de culturas em fases avançadas (> 15 anos de implantação do sistema), com o objetivo de evidenciar alterações nos atributos físicos e químicos do solo nesses sistemas.

Goiás — A sucessão soja/milheto é outra variação do SPD praticada na região de Cerrado. Essa sucessão é muito utilizada no estado de Goiás em áreas onde a semeadura da soja no verão foi realizada tardiamente, o que consequentemente inviabiliza o cultivo de milho safrinha pelo curto período de chuvas. Diante disso, o milheto tem se destacado como uma boa planta de cobertura para os períodos de safrinha e/ou entressafra, devido a resistência ao déficit hídrico, elevada produção de biomassa, reciclagem de nutrientes, alta relação C/N, cobertura prolongada do solo, menor custo das sementes e supressão de plantas daninhas. Nessa sucessão, a cultura do milheto tem proporcionado produções de massa seca (palhada) acima do mínimo de quantidade exigida (10 toneladas/hectare) para a adoção do SPD no Cerrado, tendo com isso aumentado os teores de matéria orgânica do solo. Além do aumento de MOS, esse tipo de sucessão têm contribuído para a redução na densidade e aumento na porosidade total do solo.

Diante o exposto, percebe-se que a sucessão soja/milheto pode trazer vários benefícios ao solo, além de geracão de renda ao produtor no período de safrinha, pois o mesmo pode ter seus grãos colhidos e comercializados com baixos custos de produção. No entanto, assim como destacado na sucessão soja/milho anteriormente, também são escassos trabalhos na literatura que permitam avaliar a eficiência da sucessão sucessão soja/milheto sob SPD em longo prazo em comparação a outros tipos de sucessão e RC no Cerrado.

Destaca-se ainda que em algumas situações os produtores não implantam nenhuma cultura após a soja de verão, ficando a área em pousio, reduzindo a cobertura do solo. Essa prática é muito adotada em áreas arrendadas por produtores de soja, as quais são semeadas por último (tardiamente) com soja de ciclo longo, impossibilitando o cultivo de outra cultura como safrinha, permanecendo assim a área com a cobertura de vegetação espontânea até a próxima safra.

Vários trabalhos indicam que as áreas de SPD que adotam o pousio (cobertura do solo com presença de vegetação espontânea) após a cultura comercial não atingem quantidade de massa seca necessária (10 toneladas/hectare) para a adoção do SPD. Esse tipo de manejo com menor aporte de resíduos orgânicos sobre o solo pode reduzir o conteúdo de MOS em função do tempo de adoção do SPD, contribuindo para uma menor qualidade química e física do solo. A prática do pousio com o emprego de vegetação espontânea deve ser evitada para redução dos teores de carbono orgânico do solo.

Outro ponto importante levantado por pesquisadores da área, é que a SC não se torna sustentável em longo prazo, devido aos problemas fitossanitários que podem ocorrer em função do tempo de adoção do sistema. Dentre esses principais problemas é a perda de eficiência de defensivos agrícolas, ocasionados pelo aumento da resistência de plantas daninhas, pragas e doenças.

Importância da boa cobertura — Diante do exposto, percebe-se que existe uma necessidade de identificar e utilizar sistemas de cultivo que proporcionem boa cobertura do solo, com maior retorno econômico, a fim de melhorar e/ ou manter a qualidade do solo e a produtividade das culturas. Verifica-se também na literatura que, quando avaliados de forma isolada, as áreas de SPD com RC, bem como com SC soja/milho safrinha e soja/milheto apresentam potencial de incrementar os teores de MOS e consequentemente alterar alguns atributos químicos e físicos do solo. No entanto, ressalta- se a importância da avaliação dessas áreas em conjunto sob SPD na fase de consolidação, pois dessa forma podese verificar a eficiência desses manejos em longo prazo, tanto nos compartimentos da MOS como nos atributos químicos e físicos do solo.

Por fim, no contexto geral, percebese que no SPD praticado atualmente a opção pela adoção de RC ou SC leva mais em consideração os aspectos econômicos do que os benefícios promovidos ao solo que cada tipo de sistema pode oferecer. Vale à pena destacar que a manutenção dos pilares do SPD, tais como não revolvimento do solo, cobertura permanente do solo, RC e eliminação dos impedimentos físicos e químicos do solo antes de sua implantação, poderá garantir uma maior longevidade do sistema, sem problemas de compactação do solo, sendo esse um dos maiores problemas observados nos últimos anos nas áreas de SPD. Diante disso, neste ano nosso grupo de pesquisa irá desenvolver um projeto no estado de Goiás, o qual irá avaliar áreas com muitos anos de implantação de SPD (fase de consolidação ou manutenção) com as principais SCs e RCs praticadas, visando elucidar a influência destas nos atributos químicos e físicos do solo.