Agricultura Familiar

 

Tabaco: momento para DIVERSIFICAR

Iro Schünke, presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco)

A palavra diversificação ganhou maior destaque na última década, principalmente em virtude das últimas ações da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco. O que muitos antitabagistas não sabem é que ela faz parte do glossário da cadeia produtiva do tabaco há várias décadas. Diversificar a propriedade, dando autonomia ao produtor para optar pela melhor fonte de renda, tornando- a sustentável, sempre foi uma abordagem das indústrias que o Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco) representa.

Em minha carreira nessa cadeia produtiva, que iniciou no campo acompanhando meu pai, produtor de tabaco, pude acompanhar a evolução das propriedades no aspecto técnico, com investimentos em boas práticas, tecnologias e sistemas de controle de pragas. Nessas quase quatro décadas, uma coisa não mudou: o tabaco ainda é, de longe, a cultura mais rentável para a pequena propriedade. Comparado ao milho, o tabaco rende seis ou sete vezes mais. Pelos valores praticados na última safra, estima-se que a venda de um hectare de milho tenha rendido cerca de R$ 3 mil; na mesma área de terra, o produtor ganha R$ 20 mil com o tabaco.

Mesmo com grande apelo de rentabilidade, o incentivo à diversificação pela indústria vem de longa data. Já na década de 1970 incentivávamos o plantio de eucaliptos para reflorestamento, com olhos voltados à preservação da mata nativa, mas também como forma de aumentar a renda com a venda de excedentes. Além disso, o plantio de árvores também diminuiria custos nas propriedades em decorrência da demanda energética das estufas para a cura do tabaco. Quem não tem intimidade com o setor talvez não saiba que as folhas de tabaco são oriundas de diferentes tipos (variedades) e devem ser curadas/secadas por meio de processos diferenciados. No Sul do Brasil, há três variedades principais de tabaco em produção comercial de larga escala: Virgínia, Burley e Galpão Comum, sendo a primeira submetida a um procedimento de cura em estufas, mediante controle sistematizado de temperatura e umidade.

Mais de 162 mil produtores da Re- Sinditabaco A GRANJA | 69 gião Sul produzem tabaco da espécie Nicotiana tabacum L., submetidos à cura natural ou artificial, destinados à fabricação de cigarros, desfiados e outras finalidades. O tabaco produzido nos três estados é dividido em dois grupos: Tabaco de Galpão e Tabaco de Estufa. As variedades de tabaco de galpão são assim chamadas porque as plantas são curadas em galpões ventilados naturalmente, levando cerca de 40 dias para completar o processo de cura. Na Região Sul, duas variedades desse grupo são produzidas: o Burley e o Galpão Comum, ambos com tonalidade escura e que participam com aproximadamente 14% e 1%, respectivamente, das 735 mil toneladas produzidas na safra 2013/14.

Já no caso do Tabaco de Estufa, caracterizado pela produção de folhas de coloração clara, é submetido à cura em estufas com temperatura e umidade controladas (flue cured), em processo que demanda de cinco a sete dias para ser concluído. Nesse grupo, há todas as cultivares da variedade Virgínia, responsável por mais de 85% do volume produzido. Até 1997, também era produzida a variedade Amarelinho, que teve seu maior volume na safra 1988/89, com 43 mil toneladas (11% da safra). Por questões de preferência de mercado, sua produção foi sendo reduzida diminuindo até sua extinção. Atualmente, sua produção é bastante limitada e restrita às demandas comerciais de apenas uma das empresas do setor.

A indústria entende que o melhor produtor é justamente aquele que diversifica sua propriedade, uma vez que o tabaco é uma cultura sazonal e que está predisposta à ação de intempéries, assim como qualquer outra cultura agrícola. Criatividade e inovação sempre foram marcas dos produtores de tabaco que, apesar da tradição e da rentabilidade da cultura, agregam ainda outras atividades para produzir mais maximizando o aproveitamento racional do seu maior patrimônio: a terra. A produção de grãos após a colheita do tabaco já é um hábito comum entre a maioria dos produtores e uma excelente alternativa de diversificação, uma vez que há uma redução sensível no custo de adubação. Nota-se que os produtores estão cada vez mais conscientes sobre a importância de diversificar a propriedade, maximizando a renda de acordo com sua realidade.

Programa — Em atividade há 30 anos, o Programa Milho & Feijão Após a Colheita do Tabaco é um estímulo à produção de culturas alternativas com o aproveitamento da adubação residual da lavoura de tabaco. Desenvolvido desde 2014 pelo Sindi- Tabaco, entidade na qual atuo como dirigente desde 2006, o Programa Milho e Feijão Após a Colheita do Tabaco conta com a parceria de órgãos públicos e entidades ligados à agricultura e funciona devido a uma grande estrutura no campo.

Por meio de mais de 1,3 mil profissionais das empresas associadas ao SindiTabaco e de técnicos das entidades parceiras, as informações do programa são divulgadas aos produtores do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná. Além de receber orientações das vantagens do plantio da safrinha, os produtores também recebem informações sobre o uso de práticas conservacionistas – como plantio direto e cultivo mínimo.

Ao utilizar sistemas de cultivo que protegem o solo, o produtor reduz a demanda de mão de obra, devido à menor necessidade de intervenção na camada arável do solo, como ocorre no sistema convencional de cultivo. No cultivo mínimo, o produtor mobiliza o mínimo possível o solo, protegendo parcialmente a sua superfície com resíduos da cultura anterior ou a biomassa resultante dos cultivos de cobertura, com o objetivo de diminuir os riscos de erosão.

Já o plantio direto na palha é o sistema de cultivo mais eficiente na proteção do solo. Consiste em evitar o uso das práticas tradicionais de revolvimento do solo, preservando integralmente a palhada dos cultivos de cobertura sobre a sua superfície. Essa tecnologia propicia redução no uso de combustíveis fósseis, redução na mão de obra e aumento da rentabilidade do produtor através da redução de custos. Trata-se de um sistema já consagrado e amplamente utilizado no Brasil, inclusive no cultivo de tabaco. O Brasil é uma referência mundial no desenvolvimento e uso dessa tecnologia.

A orientação técnica tem sido de inestimável importância na difusão dessas tecnologias e um aliado permanente, seja na diversificação ou na propagação de práticas conservacionistas. A expectativa é que mais produtores se mobilizem em torno da adoção dessas boas práticas agrícolas, benéficas não apenas para o solo e ao meio ambiente, mas para o próprio produtor, uma vez que a mão de obra também diminui. Além do aspecto da proteção do solo, a diversificação possui outras vantagens como a redução de custo de adubação da safrinha de grãos, maior produção de grãos, para consumo na propriedade, contribuindo para a segurança alimentar das famílias produtoras, e para fins comerciais, e geração de renda extra para a propriedade agrícola familiar. Para o produtor, diversificar é poder mais, com a mesma área de terra. É gerir da melhor forma o seu negócio.