Florestas

 

Demandas, desafios e reivindicações do setor MADEIREIRO

Paulo Roberto Pupo, superintendente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci)

Durante o recente período eleitoral, a Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci) entregou aos candidatos que disputaram o segundo turno para a Presidência da República um protocolo de intenções e de demandas urgentes para a sustentabilidade do setor madeireiro. Até agora, no entanto, não obtivemos nenhum avanço ou retorno oficial, mesmo diante da promessa da Presidente eleita de estreitar o diálogo com o setor produtivo.

Com o presente descompasso da economia nacional que estamos presenciando e a crise de gestão do Governo Federal, uma política de gestão voltada para proteger a combalida indústria nacional se faz mais do que necessária e urgente. Os recentes números do desempenho da indústria nacional em 2014, amplamente divulgados por veículos oficiais do Governo, provam o abandono que a indústria nacional vem sofrendo.

Dentro deste cenário, são vários os desafios que o setor madeireiro enfrenta. Quando tratamos das fundamentais Fotos:Agência Fiep e necessárias desonerações fiscais, como exemplo a inclusão do setor no Plano Brasil Maior, que desonera a folha de pagamento das empresas, falamos em garantia do pleno emprego e isonomia competitiva com os demais setores industriais já contemplados nesse programa. Outras demandas mais pontuais como a inclusão de uma gama maior de produtos madeireiros na cesta básica da construção civil, a desoneração do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para chapas de compensados e a inclusão da madeira serrada no Programa Reintegra são imprescindíveis e inadiáveis.

Quando olhamos mais especificamente para os produtos destinados ao mercado externo, considerando que setor madeireiro é um dos mais importantes segmentos industriais que contribuem para o saldo positivo da balança comercial brasileira, vemos que a carga fiscal nacional é completamente oposta às políticas de incentivo às exportações praticadas pelos principais países concorrentes, incluindo aí países vizinhos no Mercosul, que possuem taxação diferenciada para suas políticas de exportação.

Nesse âmbito temos, em especial, a demanda necessária para alguns produtos madeireiros brasileiros serem redesignados dentro do Sistema Geral de Preferências (SGP) para o Mercado Americano, importante destino para nossos produtos, principalmente agora que a economia daquele país mostra claros sinais de recuperação. Como exemplo, o compensado de pinus brasileiro sofre uma taxação de 8% para que possa ser nacionalizado nos EUA, enquanto que nossos países vizinhos não possuem essa taxa.

Mercado interno — Por outro lado, um dos maiores desafios do setor é alavancar o aumento do consumo interno de madeira per capita no Brasil. O avanço no desenvolvimento do Sistema Construtivo em Casas de Madeira (Wood Frame) através da criação e oficialização de norma técnica específica que disponibilizará produtos conformes e certificados para o uso na construção civil é uma das soluções mais realistas e práticas para obtermos esse aumento.

Esse sistema possui as características ideais para se desenvolver rapidamente. Além de ser uma construção seca, representa rapidez e ganho de escala interessante nas obras, tem custos compatíveis com o mercado, possui elementos inovadores em sua estrutura, realiza alto desempenho acústico e térmico, tem excelente durabilidade, é resistente a agentes biológicos, proporciona grande conforto e dá garantias dentro das regras do mercado.

Estamos vivendo um momento importante em relação ao tema, com vários dos atores interessados se aproximando e colaborando. Acreditamos que somente com uma ação conjunta conseguiremos avançar na velocidade necessária, tanto nos quesitos técnicos como nas ações políticas para a inclusão do sistema junto aos organismos do Governo, beneficiando assim todo o segmento e em especial os produtos oriundos de florestas plantadas, somando ao processo a ótica da sustentabilidade tão necessária. Por consequência, necessitamos de uma política clara de incentivo para o aumento da área de floresta plantada do Brasil, que proporcionaria uma melhor equalização entre a oferta e a demanda.

Quando avaliamos o cenário produtivo para 2015, a principal expectativa é a da recuperação da economia nacional, normalizando assim a demanda e o consumo. Mesmo alguns produtos já possuindo boa margem de penetração no mercado externo, ainda o grande percentual de consumo e uso da produção nacional madeireira é absorvido pelo mercado doméstico. A expectativa da Abimci é que o setor consiga aumentar o percentual de uso de sua capacidade instalada, que não foi totalmente utilizada em 2014. A melhora no acesso ao crédito, principalmente para as pequenas e médias empresas, certamente trará uma melhor estabilidade econômica e constância na produção nacional.

Somos sabedores que o Custo Brasil, a dificuldade de obtenção e formação de mão de obra qualificada, a infraestrutura precária em várias modalidades logísticas e em vários pontos do País são cenários que impactam o desempenho do setor madeireiro, e todo esse panorama gera um fato: a indústria precisa de melhor atenção dos órgãos governamentais. Ainda assim, temas transversais como normativas que travam a rotina das indústrias devido à sua abrangência, muitas vezes desnecessária, como a NR-12, a Lei da Terceirização, a do Aprendiz, entre outras, estão engessando o setor. As urgências são muitas!

Cautela — O aumento da internacionalização do faturamento das empresas pode contribuir para uma melhor fluidez no mercado interno, tanto na demanda como em uma melhor remuneração dos produtos e, certamente, podemos citar que o câmbio foi um fator que atraiu novos volumes exportados durante o ano de 2014, mas agora, para 2015, temos uma posição conservadora.

A cautela é necessária porque estamos atualmente presenciando uma euforia para o aumento do volume destinado à exportação em alguns segmentos do setor, fator este que pode gerar um cenário perigoso, pois aumento de matéria-prima e insumos são costumeiros nessas ocasiões e podem sofrer alterações em seus custos prejudicando assim as margens de lucro. Esses dois cenários têm que ser absorvidos e interpretados com muito cuidado e com a correta ótica do mercado pelas empresas. Realmente há grandes desafios pela frente!