Soja

 PERCEVEJOS: um novo-velho problema

Com a adoção dos transgênicos para o controle das lagartas da soja, os percevejos passaram a ser as pragas de maior risco da cultura. Variedades precoces e, portanto, que florescem e emitem vagens mais cedo, favorecem o ataque dos insetos sugadores

Felipe Sulzbach e Francisco Lozano, área de Desenvolvimento Agronômico de Inseticidas da Bayer CropScience

Os insetos sugadores ganham importância crescente no novo cenário da cultura da soja, com o aumento da adoção de variedades Bt, que controlam somente lagartas. Assim, os percevejos (Hemiptera, Pentatomidae) são considerados no complexo de pragas da soja as de maior risco para a cultura, pois afetam seriamente seu rendimento e sua qualidade.

O aumento da área cultivada e a adoção de variedades de ciclo mais precoce e com hábito indeterminado, que florescem e emitem vagens mais cedo e por um período mais longo, merecem maior atenção aos danos dos percevejos. A colonização das plantas de soja por esses insetos inicia-se no final do período vegetativo ou durante a floração, sendo no período do desenvolvimento de vagens, ao final do enchimento de grãos, o de maior importância, causando danos diretos e indiretos às plantas.

Outras espécies vêm ganhando importância, como o Edessa meditabunda, que possui o hábito de alimentar-se de caules, originando lesões escuras

Principais espécies e identificação — São três as espécies de percevejos predominantes na cultura da soja: o verde (Nezara viridula), o pequeno (Piezodorus guildinii) e o marrom (Euschistus heros). O percevejo-verde, que já teve grande importância, está em população decrescente, sendo mais adaptado a regiões mais frias. As fêmeas depositam entre 50 e 100 ovos, de coloração bege, na face inferior das folhas, agrupados em forma de minicolmeia. As ninfas, ao eclodirem, têm coloração preta e manchas claras sobre o dorso, permanecendo agrupadas até o segundo ínstar. O período ninfal é dividido em cinco ínstares, com duração de 15 a 20 dias, dependendo de alimentação e temperatura. O adulto possui entre 12 mm e 15 mm de comprimento e possui coloração verde.

O percevejo-pequeno ocorre em todas as regiões produtoras de soja do Brasil. O adulto é verde, tendendo ao amarelo, atingindo em torno de 10 mm de comprimento. Apresenta uma listra marrom transversal no pronoto, que caracteriza a espécie. As fêmeas depositam seus ovos, de coloração preta, em fileiras pares com 10 a 20 ovos por postura, em ambas as faces das folhas, nas vagens, caule e ramos. As ninfas ficam agrupadas após a eclosão. Passam por cinco ínstares em 15 a 20 dias, mudando sua coloração do preto ao avermelhado e gradativamente adquirindo o tom verde, predominante no adulto.

O percevejo-marrom é a espécie mais abundante e adaptada às regiões mais quentes. O adulto apresenta dois espinhos laterais pontiagudos no pronoto. As ninfas têm coloração variada, desde o esverdeado ao marrom- escuro. Os ovos possuem cor bege, e em pequeno número (5 a 8 por postura), são depositados nas folhas e vagens da planta. Antes da eclosão, os ovos apresentam uma mancha rósea. A fase de ninfa dura de 15 a 20 dias.

As ninfas, a partir do terceiro ínstar, e os adultos causam danos à cultura a partir da fase de formação das vagens até o final do desenvolvimento das sementes (R3 a R7). Nesse período, necessita- se maior atenção, pois a planta está definindo o rendimento e a qualidade da semente. Os danos dos percevejos são causados por meio da inserção de seus estiletes (aparelho bucal), injetando toxinas histólicas (que destroem os tecidos) e extraindo porções líquidas e nutritivas durante a sua alimentação.

O estrago, dependendo do estágio em que se encontra o grão ao ser picado, varia desde a inviabilização total da semente, por abortamento, até a redução do vigor e potencial germinativo. Como danos indiretos, são citadas a transmissão de doenças fúngicas (Nematospora corily) e a indução de um distúrbio fisiológico que afeta a maturação normal das plantas atacadas, as quais permanecem com as folhas verdes ao final do ciclo. Isso causa problemas na colheita, pelo excesso de umidade no processo de trilha e nos grãos ou sementes.

Outras espécies vêm ganhando importância em regiões produtoras, como o Edessa meditabunda, que possui o hábito de alimentar-se de caules, originando lesões escuras. Os percevejos- barriga-verde (Dichelops furcatus/ D. melachantus) vêm se destacando, principalmente pela adaptabilidade e ataque a várias culturas, especialmente o milho.

Amostragem e nível de dano — A amostragem tem como objetivo o monitoramento das lavouras a fim de antecipar os danos e evitar prejuízos, identificando todas as fases da praga (posturas, ninfas e adultos), e vistoriar as áreas destinadas ao plantio, identificando as potenciais espécies nocivas à cultura a ser plantada. Para estimar a quantidade de percevejos na lavoura, utiliza-se o pano de batida, identificando as ninfas e os adultos. A vistoria na lavoura deve ser realizada no mínimo uma vez por semana, nas horas mais frescas do dia, a partir do início do desenvolvimento das vagens (R3) até a maturação fisiológica. O monitoramento deve ser intensificado em períodos mais críticos, ou quando houver migração de cultivares de ciclo curto. Devem-se amostrar vários pontos da lavoura, calculando uma média de percevejos por batida de pano, e realizar as amostragens com maior intensidade nas bordaduras da lavoura.

O percevejo-marrom é a espécie mais abundante e adaptada às regiões mais quentes, e o adulto apresenta dois espinhos laterais pontiagudos no pronoto

O nível de dano estabelecido é de dois percevejos/metro em lavouras para grãos e de um percevejo/metro em lavouras destinadas a sementes, considerando insetos adultos ou ninfas maiores que 0,5 cm (terceiro ínstar) no início da formação de vagens e enchimento de grãos. Sempre que esses parâmetros não forem observados e a infestação de percevejos aumentar em demasia para somente então tomar a decisão de controle, é grande a probabilidade de não conseguir reduzir a população abaixo do nível de dano. A população restante repovoa rapidamente, exigindo novas aplicações em intervalos mais curtos.

Medidas de controle — Para a realização de manejo dos percevejos na cultura da soja, a adoção das várias táticas de controle é fundamental. Um manejo racional se dá por meio da identificação das principais espécies de ocorrência; monitoramento da dinâmica populacional de acordo com as culturas na safra, na segunda safra e na entressafra; monitoramento em plantas hospedeiras; timing de aplicação de inseticida; e nível de dano.

O conhecimento do comportamento dos percevejos pode auxiliar no manejo: eles iniciam a sua colonização pelas bordaduras; quando estão na fase adulta, permanecem na parte superior das plantas, principalmente no período da manhã. Na fase de ninfas, localizam- se no terço médio da planta, próximas às vagens, local de difícil penetração dos inseticidas; a sobrevivência dos adultos ocorre durante a entressafra em plantas daninhas ou leguminosas nativas; populações na fase vegetativa são decorrentes da migração da entressafra.

O controle químico como ferramenta de manejo de pragas é uma das principais estratégias capazes de evitar ou reduzir os danos causados pelos percevejos. A escolha de produtos mais seletivos para lagartas e outras pragas cujo controle tenha sido necessário antes da ocorrência de percevejos é aconselhável para a preservação dos inimigos naturais (vespinhas, moscas, predadores e parasitoides), para que atuem sobre as pragas- alvo. O controle biológico é outra forma que ajuda a manter as populações de percevejo em níveis baixos, especialmente alguns parasitoides que predam ovos.

O projeto Manejo Inteligente — A Bayer CropScience inicia o projeto de Manejo Inteligente de Pragas, por meio da colaboração dos principais entomologistas do Brasil abordando, o percevejo como uma praga polífaga atuando no sistema produtivo, deixada em segundo plano, em função do ataque de lagartas, e seus prejuízos crescentes. O projeto é embasado em três pilares: importância do manejo no sistema produtivo adaptado a cada região; danos e perdas em rendimento e na qualidade na entrega dos grãos ou sementes; e tecnologia de aplicação e boas práticas agrícolas. Para a transferência de informação, são realizados seminários nas Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, com os mais renomados entomologistas do País.