Fitossanidade

 

O duplo dano do PULGÃO DO ALGODOEIRO

No algodoeiro, a espécie de pulgão mais frequente é Aphis gossypii, cujo período crítico ocorre da emergência da planta ao aparecimento dos primeiros capulhos. Além de sugarem a seiva das plantas, os pulgões são vetores de vírus

Sandra Maria Morais Rodrigues, pesquisadora da Embrapa Algodão, e Rafael Major Pitta, pesquisador da Embrapa Agrossilvipastoril

Acotonicultura apresenta um elevado custo de produção em decorrência da utilização de grande quantidade de corretivos de solo, fertilizantes e produtos fitossanitários. A planta de algodão é hospedeira de pragas com diversos hábitos alimentares, portanto, capazes de ocupar todos os nichos da mesma, bem como de causar prejuízos à produtividade, dependendo da densidade populacional. Os pulgões estão entre os mais importantes grupos de insetospraga para a agricultura. Esses insetos vivem em colônias na superfície abaxial das folhas e brotações novas sugando a seiva, interferindo no desenvolvimento da planta, além de serem vetores de vírus. A reprodução dos pulgões pode ser sexuada e assexuada ou somente assexuada em países com clima tropical, gerando somente fêmeas (partenogênese telítoca).

No algodoeiro, a espécie mais frequente é Aphis gossypii e seu período crítico de ocorrência é da emergência das plantas ao aparecimento dos primeiros capulhos. Essa espécie mede de 0,9 mm a 1,8 mm de comprimento, apresenta antenas mais curtas que o tamanho do corpo, olhos vermelhos e sifúnculos escuros. A coloração do corpo varia em função da temperatura, da fonte de alimento e da densidade populacional, variando do amarelo-claro ao verdeescuro. Os indivíduos alados possuem abdômen verde-escuro, com algumas tonalidades de amarelo, devido à presença das ninfas em seu abdômen. O período ninfal (fase jovem) dura de 5 a 6 dias e o pulgão adulto vive de duas a três semanas. Cada fêmea pode gerar de duas a quatro ninfas/dia. Assim, é possível a ocorrência de uma nova geração a cada semana.

Os indivíduos alados são responsáveis pela dispersão da espécie, pois podem voar (dispersão ativa) ou serem arrastados por correntes de ar a distâncias consideráveis (dispersão passiva). Ao encontrarem uma planta hospedeira adequada, os alados geram indivíduos ápteros, que serão responsáveis pela colonização da planta em forma de reboleiras. No momento em que a população começa a detectar o declínio na qualidade nutricional da planta ou que a densidade populacional está alta, as fêmeas passam a desenvolver insetos alados visando à nova dispersão.

Danos diretos e indiretos — Os danos causados pelos pulgões podem ser diretos pela sucção de seiva e indiretos pela transmissão de vírus. Esses insetos vivem sob as folhas e brotos novos das plantas, sugando continuamente a seiva. No campo é possível detectá-los devido ao encarquilhamento das folhas, bordas das folhas viradas para baixo, deformação dos brotos e folhas brilhantes devido à secreção da mela (substância adocicada excretada pelos pulgões) que atrai formigas. Além disso, a mela propicia o desenvolvimento do fungo Capnodium spp., formador da fumagina, que prejudica o processo de fotossíntese da planta devido à redução da radiação solar que atinge as folhas. Quando os capulhos estão abertos a mela causa o “algodão doce” ou “algodão caramelizado”, isto é, a pluma fica manchada, pegajosa, tornando-se de baixa qualidade e causando prejuízos na indústria de fiação.

Os vírus transmitidos são Abutilon mosaic virus, Tobacco streak virus, Cotton anthocyanosis virus, Cotton blue disease, Cotton leafroll dwarf virus causadores do mosaico comum, mosaico tardio, vermelhão, mosaico das nervuras, mosaico das nervuras f. Ribeirão Bonito, respectivamente, e um patógeno desconhecido que causa o mosaico das nervuras atípico. O aumento populacional do pulgão é favorecido por tempo nublado, quente e úmido, ausência de inimigos naturais e adubações nitrogenadas. Já chuvas fortes reduzem sua população devido ao controle físico efetuado pelas gotas.

O monitoramento deve ser realizado nas folhas do ponteiro e nos brotos novos, onde a presença de mais de seis indivíduos por folha amostrada caracteriza-se como uma colônia. Atenção especial deve ser dada para a presença de indivíduos alados, que indicam a ocorrência de migração e colonização de novas áreas. Em fases mais adiantadas da cultura, atentar também para a presença de mela sobre as folhas situadas em posições inferiores. Diferentes táticas de controle podem ser usadas contra o pulgão como, por exemplo, eliminar plantas daninhas hospedeiras, eliminar plantas voluntárias ou restos culturais do algodoeiro, visando reduzir os focos iniciais, tratar as sementes, usar cultivares resistentes às doenças transmitidas pelo pulgão e usar produtos seletivos aos inimigos naturais.

Inúmeras espécies de predadores e parasitoides atuam reduzindo a população de pulgões como as vespas parasitoides Lysiphlebus testaceipes, normalmente presentes durante as infestações de pulgões. Ao parasitarem os pulgões, estes adquirem aspecto mumificado e cor de palha. Formas larvais de joaninhas (Cycloneda sanguinea e Scymnus sp.), crisopídeo (Chrysoperla externa) e mosca sirfídeo (Toxomerus sp.) também são encontradas comumente se alimentando de pulgões. O uso de inseticidas de largo espectro, como piretroides, para controlar outras pragas pode debilitar e suprimir populações de inimigos naturais de pulgões e aumentar a probabilidade de surtos populacionais da praga.

O tratamento de sementes é importante para retardar o estabelecimento dos insetos na cultura. Quando o nível de controle estabelecido para a cultivar for atingido, deve-se escolher um produto considerando a eficiência e a relação custo/benefício. O uso de inseticidas sistêmicos (que circulam na planta), como neonicotinoides, pode ser necessário. Uma vez que os pulgões colonizam a face adaxial (inferior) das folhas, o controle com inseticidas não sistêmicos fica comprometido.

Manejo — Para manejar as doenças, é fundamental planejar um controle adequado do vetor, lembrando que o uso do controle químico depende do grau de suscetibilidade de cada cultivar, da idade da planta e do nível populacional da praga. Em cultivares suscetíveis ao mosaico das nervuras atípico, as populações do vetor devem ficar abaixo do nível de controle que é de 10% até 80 dias após a emergência (DAE) e de 15% após 80 DAE. Já em cultivares resistentes, o nível de controle do pulgão é mais elevado, pois não havendo a transmissão da doença, o pulgão deve ser controlado apenas por seus danos diretos.