Abertura da Colheita do Arroz

 As demandas do ARROZ em pauta

A 25ª edição da Abertura Oficial da Colheita do Arroz, tradicional evento realizado este ano em Tapes/RS, promoveu discussões e apresentou tecnologias para o segmento orizícola

O município de Tapes/RS recebeu aproximadamente 8 mil pessoas para a Abertura Oficial da Colheita do Arroz, neste ano em sua 25ª edição, evento itinerante promovido pela Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) – nesta edição, em conjunto com a associação local. Orizicultores, técnicos, expositores e políticos envolveram-se de 5 a 7 de fevereiro com as causas do cereal, tanto econômicas como tecnológicas. O evento tradicionalmente reúne autoridades, como o governador do Rio Grande do Sul, José Ivo Sartori. “Temos produção, produtividade e gestão. Mas, da porteira para fora ainda é preciso melhorar, pois temos tarifas altas e ampliar os mercados. O Estado é parceiro das federações, das associações e dos produtores”, argumentou Sartori, que “ajudou” no gigantesco carreteiro e participou da colheita simbólica de um hectare.

Muitas foram as atrações no evento que teve este ano como tema “Cesta Básica Garantida com Renda no Campo Comprometida”, sobretudo palestras e debates sobre as causas e reivindicações do segmento no Rio Grande do Sul. O estado plantou na safra 2014/15 1,18 milhão de hectares e estima- se que vá colher 8 milhões de toneladas, o que representaria exatos dois terços da produção nacional. Um dos debates no evento foi a dificuldade para o escoamento da safra, debate que reuniu o presidente da Federarroz, Henrique Dornelles, secretários e dirigentes do Governo Gaúcho e 12 prefeitos.

Segundo Dornelles, uma das prioridades é acelerar uma obra no Porto de Rio Grande/RS que hoje emperra a utilização de um terminal de grãos da Companhia Estadual de Silos e Armazéns. “O terminal está parado e não está realizando embarques e desembarques porque virou o canteiro de obras dessa empresa que está realizando as reformas. Quanto mais demorarmos para iniciar as obras, mais tarde o local demorará para reiniciar as operações e isso prejudicará as exportações brasileiras de arroz”, lamentou o dirigente. Ele recebeu a garantia que o Governo vai se empenhar para qualificar o terminal.

Custos da lavoura — Outra das abordagens foi o custo de produção do cereal, na palestra do consultor da Agrotendências, Tiago Barata, que expôs dados de estudo encomendado pela Federarroz. O consultor trabalhou com um custo diferenciado para cada localidade para poder avaliar as características específicas das diferentes regiões. “Quando se lança um custo de produção, os produtores dizem que está errado. Cada um tem a sua realidade”, justificou. Pelo levantamento, o município de Santa Vitória do Palmar apresentou o maior custo: R$ 6.227,80/hectare ou com R$ 39,92 a saca de 50 quilos; já Camaquã foi o menor custo por hectare, R$ 5.413,23, enquanto por saca menos custosa coube a Dom Pedrito, com R$ 34,61.

Um dos itens que mais pesa no custo é o arrendamento de terras, que pode chegar a 21%, à frente de fertilizantes, 11%, e mão de obra, com 10%. Já quanto à energia elétrica, Barata mencionou uma propriedade de Itaqui que, no ano passado, gastava com esse item R$ 11.301,03, e que agora esse dispêndio chega a R$ 17.385,86 – ou +53,83%. “O produtor precisa melhorar a eficiência produtiva e aumentar a produtividade”, avaliou. E finalizou com o recado que o produtor tem que buscar menores gastos para fazer a lavoura. No final, deixou um recado aos produtores para que busquem dar mais ênfase à luta por melhores custos de produção para suas lavouras. “Temos os melhores preços em comparação com o mercado mundial, o que nos é favorável. O nosso problema é o custo de produção. Esta é a nossa preocupação e precisamos desviar o foco para esse tema”.

Vitrine tecnológica — A chamada Vitrine Tecnológica foi outra das atrações da Abertura. Um total de 11 empresas apresentaram suas novidades, tecnologias, variedades e tendências para as culturas de arroz, além de soja e milho. Cada grupo de agricultores foi conduzido por um guia pelas parcelas e receberam orientações e explicações dos técnicos e agrônomos das empresas e entidades expositoras. Segundo a técnica do Instituto Riograndense do Arroz (Irga), Mara Cristina Barbosa Lopes, a proposta da Vitrine da entidade foi mostrar os lançamentos das variedades. “Nós estamos apresentando as principais características das variedades de forma que o produtor conheça e faça o melhor uso conforme a situação das suas lavouras”, descreveu.


A ALTERNATIVA DO ETANOL DE ARROZ

As oportunidades do arroz na geração de energia também foram tema de palestras. O melhorista do Irga Sérgio Gindri abordou a logística e o aproveitamento da palha de arroz. Segundo ele, a estimativa é que o Rio Grande do Sul produza cerca de 3,7 milhões de toneladas de palha e 4,2 milhões de toneladas de casca, dois materiais que sobram nas lavouras. “Toda essa palha que fica passa a ser um problema de manejo e muitas vezes o produtor precisa se livrar dela para implantar a próxima lavoura”, lembrou. Para ele, apesar do potencial do estado na produção de etanol a partir da utilização desses subprodutos do cereal, ainda não existem projetos de industrialização dessa matéria-prima para a elaboração do combustível.

Já a pesquisadora da Embrapa Juliana Lemões apresentou a composição das matérias-primas para a produção de etanol de segunda geração. Mostrou também os processos industriais, principalmente das biorrefinarias. No Brasil, é produzido especialmente o combustível por meio da cana. No mundo, o único exemplo com o arroz é da Itália, que produz 60 milhões de litros de etanol de segunda geração. Quanto à potencialidade do cereal para o etanol, argumentou que a palha de arroz tem 65,5% de carboidratos que podem ser utilizados para a produção do biocombustível. Considerando as variedades que são utilizadas com destinação para a formulação do combustível, há uma possibilidade de se produzir 6,76 mil litros por hectare. “Esta é uma estimativa do potencial teórico que temos sobre a produção nas lavouras”, disse.


O agrônomo e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Aldo Merotto Júnior enfocou os problemas causados pelas plantas daninhas. O especialista apresentou um cenário onde aponta que as plantas daninhas causam perdas de 10,2% sobre o que é cultivado no mundo. No caso do arroz, se não houver controle das plantas daninhas, o prejuízo pode atingir até 90% do potencial produtivo. “Por mais automático que seja o ataque ou a forma de controle é necessário sempre ter atitude, conhecimento e assistência técnica qualificada”, observou.

O governador gaúcho, José Ivo Sartori (de bigode, mexendo no carreteiro), participou do evento e lembrou que o Estado é parceiro das demandas dos orizicultores

Para ele, há uma superestimação do uso de herbicidas nas lavouras. Em muitos casos, os produtores erram no planejamento pensando apenas em questões como eficiência e custos, mas não existe um plano concreto na utilização dos insumos nas lavouras. Lembrou que é muito comum produtores aumentarem as doses de herbicidas quando o problema se intensifica, mas que esse não é o caminho. Entre as sugestões do especialista para amenizar os prejuízos causados pelas plantas daninhas está a rotação de herbicidas de diferentes grupos químicos.