Gestão

Se vários produtores se unirem para a construção de um armazém de uso conjunto, os custos de operação caem e o benefício fica para todos os associados

Negócios em GRUPO, ganhos individuais

A Aprosoja/MT incentivou os produtores do Mato Grosso a formarem grupos, condomínios ou cooperativas para aumentar suas margens de lucro nas vendas e diminuir os custos nas compras. Aqueles que negociam os insumos de forma coletiva têm reduções de 5% a 20%

Cid Sanches, gerente de Planejamento da Associação de Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja/MT)

Os produtores no Mato de Grosso, durante a grande crise de 2004-2006, sentiram na pele a necessidade do controle de custos e da gestão financeira para as propriedades agrícolas, pois nesse período as margens foram muito apertadas e por vezes, negativas. Pensando nisso, a Associação de Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja) decidiu investir no desenvolvimento do Projeto Referência para construir parâmetros básicos de custos e gestão financeira e, com isso, capacitar os produtores e difundir o modelo, melhorando assim o nível da gestão financeira das propriedades.

Além disso, outro atrativo do Projeto Referência é a possibilidade de o produtor se comparar com os mais e os menos eficientes em custos e receitas de sua região e do restante do estado, através da ferramenta de benchmarking. Isso gera também um aprendizado maior, mostrando que sempre há melhorias a serem feitas na propriedade, porque outros estão melhores em algum item de custo ou receita.

No início dos anos 2000, a maioria dos produtores do estado estava buscando a ampliação dos negócios através de novas áreas e também a mecanização das lavouras com as mais modernas tecnologias empregadas. Assim, a temática da gestão empresarial das fazendas era deixada em um segundo plano, e várias eram as fazendas que não tinham nenhum sistema ou nenhuma simples anotação das suas despesas e receitas no ano, dificultando o planejamento para a próxima safra e trazendo muito risco ao negócio.

Hoje, devido a iniciativas como o Projeto Referência, a gestão empresarial nas propriedades rurais é bem melhor do que naquela época, e há grupos empresariais ou grupos familiares que já possuem relatórios, balanços e gestão financeira comparáveis às grandes empresas de outros ramos de negócio do mundo. Porém, de uma forma geral, ainda há muito para se avançar no gerenciamento das propriedades rurais, mas percebe-se que todo ano essa evolução vem acontecendo gradativamente. Após a crise já mencionada, houve ainda alguns anos difíceis para os produtores no estado, com intempéries climáticas e aparecimento de novas pragas e doenças, além da sempre caótica logística do Mato Grosso, que fizeram com que as margens fossem ainda apertadas até o ano de 2010. Após isso, até a safra de 2013/2014, ocorreram anos muito bons para a agricultura do estado devido aos bons preços da soja no mercado internacional.

Mesmo assim, sem esquecer a crise anterior, a Aprosoja incentivou os produtores a formarem grupos, condomínios ou cooperativas para poderem aumentar suas margens de lucro nas vendas e diminuir os custos de produção através de compras conjuntas. Também nesse período as cooperativas e grupos já existentes fortaleceram- se, melhoraram suas práticas comerciais, aprimoraram a gestão e ampliaram seu quadro de associados/cooperados devido ao bom período pelo qual passou a sojicultura no estado. Assim, é possível identificar vários grupos que se formaram nesse período ou apenas que formalizaram alguma união já iniciada antes.

Neste momento, a rentabilidade para esta safra de soja mostra-se menor do que nos últimos anos e, portanto, é mais importante ainda o controle de custos e a possibilidade de diluí-los através da união entre produtores. Através dos relatórios de benchmarking do Projeto Referência é possível ver que todos os anos os produtores que negociam os insumos de forma coletiva têm os menores custos de produção do que aqueles que fazem isso individualmente. São reduções de custo que variam de 5% a 20% a favor de quem negocia em conjunto.

Cid Sanches: ainda há muito para se avançar no gerenciamento das propriedades, mas percebe-se que todo ano essa evolução vem acontecendo gradativamente

Também na armazenagem — Outra vantagem interessante para os produtores que pensam em se unir é a construção de silos para armazenagem de grãos. Para viabilizar a instalação de uma estrutura de armazenagem na fazenda é preciso, em média, se plantar mais de 2.500 hectares de grãos. Porém, esse número pode variar, devido a inúmeros fatores como distância da sede do município, disponibilidade de lenha para o secador, energia elétrica na região e mão de obra. Há no site da Aprosoja um simulador que mostra qual é a viabilidade da instalação do armazém para cada realidade.

Porém, se vários produtores se unirem para construção de um armazém de uso conjunto, os custos de operação caem e o benefício fica para todos os associados, pois se o produtor não possui uma estrutura dessas, ele precisa, no momento da colheita, entregar toda a produção diretamente para as empresas compradoras, pegando filas, em um momento complicado devido às chuvas, à operação de colheita, ao plantio de milho safrinha e à falta de caminhões para frete devido à alta demanda. Tudo isso ao mesmo tempo. Já se o armazém for do produtor ou da cooperativa, esses problemas não acontecem, pois ele é dono da estrutura e pode depois, em um momento mais calmo, negociar seu produto, conseguindo até mesmo obter variações interessantes de preço na entressafra.

Este tema não é novidade da agricultura dos Estados Unidos, em países da Europa, Austrália ou Nova Zelândia. As cooperativas nesses países têm a média de 100 anos de atuação. Muitas vezes os produtores participam de mais de uma cooperativa e algumas delas ficaram tão grandes que acabaram por se tornar empresas internacionais, concorrendo com as conhecidas multinacionais presentes no mercado. Agora o modelo das cooperativas e grupos que estão surgindo no Mato Grosso é bem diferente da maioria das cooperativas estabelecidas na Região Sul do País. No Mato Grosso, as cooperativas procuram não correr muitos riscos e toda a intermediação financeira acontece entre empresas e produtores. A cooperativa é apenas um elo entre eles.

O lema é cooperativa fraca (com baixo patrimônio) e produtor forte. Além da evolução na gestão das propriedades, os produtores devem pensar hoje em dia em como se associar ou criar uma cooperativa, condomínio ou grupo familiar para garantir a sustentabilidade das suas propriedades no longo prazo. Todos os grupos formados nos últimos dez anos em Mato Grosso estão felizes e buscando a ampliação dos negócios, seja na construção de armazéns, na operação logística ou mesmo buscando a verticalização da produção. A grande dificuldade no início é juntar pessoas e famílias com ideias e pensamentos diferentes, objetivos distintos, porém, essa é uma barreira que deve ser quebrada quando se busca a sustentabilidade de longo prazo para uma atividade de tantos riscos como a produção agrícola.