Show Rural Coopavel

 RECORDES para arrancar bem em 2015

A 27ª edição do Show Rural Coopavel, primeira grande feira agrícola do ano, realizada em Cascavel/PR, em fevereiro, registrou R$ 2 bilhões em negócios e apresentou tecnologias para os mais diversos segmentos agrícolas e diferentes perfis de produtores

Leandro Mariani Mittmann*
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No primeiro grande evento agrícola de 2015, ano que começa com incertezas e receios no ar em relação à economia do País, dois recordes: o Show Rural Coopavel, feira realizada no início do mês passado em Cascavel/PR, movimentou R$ 2 bilhões em negócios, bem mais do que a expectativa inicial de R$ 1,4 bilhão, e um incremento significativo em comparação ao R$ 1,8 bilhão no ano passado; e o número de visitantes foi Sérgio Sanderson - Mychael Allan Kaefer de 230 mil pessoas, 20 mil a mais que em 2014. Ambos os números são os maiores em 27 edições da feira. “É um bom momento no agronegócio, com boas produtividades, preços regulares e com tendência de melhora”, avalia Dilvo Grolli, diretor presidente da Coopavel Cooperativa Agroindustrial, instituição que promove a feira.

Agroindustrial, instituição que promove a feira. Conforme o dirigente, em carnes, onde também a cooperativa tem forte atuação nos segmentos de suínos e aves, “o momento é bom e com boas participações nas exportações”. “O Paraná tem boa logística para escoamento, tanto no mercado interno como externo”, acrescentou. Ele lembra que Cascavel está a 600 quilômetros do Porto de Paranaguá/PR, que recebeu melhorias e não registra mais filas de caminhões. Segundo ele, o ideal seria mais ferrovias, o que diminuiria os custos e, assim, aumentaria a remuneração do produtor. “Mas não temos qualquer dificulde para escoar a produção”, considera. Grolli atribui o momento positivo para o agronegócio na região ao aumento da produtividade das lavouras em uma média de 3% a 4% ao ano, resultado do investimento do produtor em tecnologias. E um evento como o Show Rural, lembra, é onde o produtor tem a oportunidade de buscar as novas tecnologias. “As maiores e melhores empresas do mundo estão aqui. A gente disponibiliza isso para o produtor da América do Sul”, sintetiza.

O produtor de leite Valmor Ruviar jamais vai esquecer a edição 2015 do Show Rural, pois foi nesta edição que ele adquiriu o primeiro trator de sua vida

Aquisição de produtos e conhecimentos — Um evento do porte e com as características do Show Rural é uma oportunidade para distintos objetivos. O visitante que pensa em adquirir algo tem a chance preciosa de comparar as opções do objeto do desejo que estão expostas lado a lado nos estandes. Outros usam a feira para saber das últimas novidades em tecnologias de cultivo, pois instituições como Embrapa e Iapar, além das empresas que atuam nos mais diversos segmentos, disponibilizam batalhões de experts ansiosos e solícitos para repassar seus conhecimentos. São centenas de excursões de agricultores e estudantes e dos mais variados grupos – de sindicatos rurais, empresas, cooperativas e assim por diante.

“As maiores e melhores empresas do mundo estão aqui. A gente disponibiliza isso para o produtor da América do Sul”, descreve Grolli o Show Rural Coopavel

O pequeno produtor de leite Valmor Ruviar jamais vai esquecer a edição 2015 do Show Rural. Foi nesta feira que ele adquiriu o primeiro trator de sua vida. O agricultor comprou uma máquina de 75cv por R$ 86 mil financiada pelo Programa Mais Alimentos para ajudar no trabalho com os atuais 45 animais (25 vacas em lactação) que mantém na propriedade de sete hectares em São Jorge do Oeste/ PR. Assim, não precisará mais do trator do irmão ou contratar o serviço terceirizado para realizar trabalhos cotidianos como fazer silagem, roçar, pulverizar. “Isso custa caro (terceirização). Ter a máquina própria conta muito”, comemorou.

Já a aquisição dos irmãos Almir e Aldicir Alberton, de Verê/PR, foi bem maior. Eles compraram uma forrageira autopropelida no valor de R$ 1,270 milhão, com 40% de entrada e o restante financiado pelo banco da própria montadora. “A gente já está há sete anos na prestação de serviço de silagem, e os clientes foram aumentando e o mercado se tornando mais exigente em qualidade e agilidade”, revelou Alcidir. “Já adquirimos outras máquinas através do Show Rural, mas a visita é principalmente para acompanhar as novas tecnologias que o mercado agropecuário oferece. É um excelente lugar para você ficar atualizado”, comentou. “Esperamos que 2015 seja um ano de grandes conquistas com boa produtividade nas lavouras e na pecuária e com bons preços. Apesar do início estar meio turbulento, esperamos que o Governo Dilma entenda que o Brasil é um país agrícola e que precisa de condições para a agricultura e a pecuária produzirem”.

Os irmãos Alcidir e Almir Alberton, que são agricultores e prestadores de serviço, compraram na feira uma forrageira autopropelida no valor de R$ 1,270 milhão

Os produtores Euclecio Elger e Juceli Marasca, seu genro, visitaram o espaço do Iapar e até ganharam uma amostra de sementes de uma variedade para fazer testes de desempenho agronômico na propriedade em Corbélia/ PR, onde, além de feijão, produzem soja, milho e trigo, em um total de 500 hectares, mais 60 hectares de feijão, além de pecuária. “O que mais a gente vê são as novidades. Lançamentos, tecnologia”, justificou Elger, associado da Coopavel desde 1979, quem visita religiosamente a feira a cada ano. “Sempre tem preços diferenciados”, acrescenta Marasca, citando a vantagem de fazer aquisições no evento.

Apesar do interesse em buscar novas tecnologias, Elger mostrou-se insatisfeito com a remuneração das commodities. Segundo equiparação estabelecida historicamente por ele, a saca de soja deveria ter o valor de um engradado de uma determinada marca de cerveja e de um grama de ouro. Porém, nos dias da feira, a saca estava cotada a R$ 55, ante R$ 95 do valor da cerveja e também do ouro. Além disso, lamentou ter sido “enganado” pelo Governo que prometera pagar o preço mínimo de R$ 95 a saca de feijão. Ele confiou na promessa, porém, não sabia o que fazer com 1.800 sacas do cereal há um ano armazenadas, sem interesse por parte a Conab pela aquisição. “Que não garanta o preço mínimo. Que deixe o mercado se virar, porque assim a gente não se ilude”, reclamou.

Uso racional de defensivos — O manejo fitossanitário da lavoura teve diferentes frentes de atenção da Embrapa. A instituição relatou dados ao visitante do estande sobre um trabalho desenvolvido em parceria com o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) em relação ao Manejo Integrado de Pragas (MIP). Segundo experimentos conduzidos em 46 unidades de referência em propriedades paranaenses, o monitoramento correto das pragas da soja possibilitou a redução de aplicações de inseticidas para menos da metade. Foram 2,3 pulverizações nos locais pesquisados ante a média estadual de cinco. “Os resultados mostram ser possível reduzir o uso de agroquímicos no controle de pragas da soja e, assim, propiciar melhorias na renda do produtor de soja e minimizar o impacto ao ambiente”, argumentou o pesquisador Osmar Conte, da Embrapa Soja. “Nas áreas em que se praticou o MIP, os produtores fizeram a primeira aplicação de inseticida com mais 50 dias, enquanto que a média onde não se pratica o MIP é de 25 dias”.

Osmar Conte, pesquisador da Embrapa Soja, explicou aos visitantes sobre a importância e como deve ser feito o MIP em uma lavoura de soja

Segundo os pesquisadores da Embrapa, o MIP-soja é uma tecnologia de manejo das pragas que busca principalmente manter o ecossistema da soja o mais próximo possível do equilíbrio. Esse equilíbrio biológico permite a sustentabilidade da lavoura e a preservação do meio ambiente em longo prazo, evitando o uso abusivo de inseticidas. O MIP-soja promove o controle racional dos insetos-pragas através da associação de diferentes táticas, entre as quais estão, por exemplo, o uso de cultivares mais resistentes às pragas, o controle biológico e o uso de inseticidas apenas quando necessários. E ainda priorizando os produtos mais seletivos aos insetos benéficos e mais seguros ao homem e ao meio ambiente.

Já a Embrapa Meio Ambiente mostrou tecnologias voltadas para a redução da aplicação de defensivos. Deu destaque ao bico pulverizador pneumático eletrostático, que pode ser utilizado em equipamentos de pulverização do tipo pistola para uso individual, em equipamentos estacionários com vários bicos para tratamentos sanitários zootécnicos ou em pulverizadores eletrostáticos transportados por tratores. Essa solução tecnológica foi desenvolvida pela Embrapa em parceria com outras instituições. Por ser eletrostático, propicia a indução de uma carga elétrica estática em cada gota emitida. “Assim, as gotas eletricamente carregadas se espalham melhor pela repulsão elétrica entre cargas de mesmo sinal, ficando mais homogêneas e são imediatamente atraídas pelas plantas para onde são dirigidas, atingindo os alvos biológicos mais escondidos e aumentando significativamente a deposição do produto desejado nesses alvos”, descreveu o pesquisador Aldemir Chaim.

Os produtores Euclecio Elger e o genro Juceli Marasca visitaram a feira para buscar conhecimentos e ganharam uma amostra de sementes de feijão no Iapar

O Software Gotas, desenvolvido conjuntamente pela Embrapa Meio Ambiente e pela Embrapa Informática Agropecuária pelos pesquisadores Chaim e João Camargo Neto, visa ajudar os agricultores a controlar o rendimento e a qualidade de suas pulverizações e a quantidade de produtos aplicados. O software oferece vários parâmetros de deposição, como tamanho e densidade de gotas depositadas, permitindo decidir sobre os melhores ajustes de aplicação, como melhor combinação de bicos de pulverização, consumo de calda e velocidade de deslocamento do trator, afetando diretamente o rendimento das operações.

A técnica consiste na utilização de cartões feitos de papel sensível à água que são afixados nas partes alta, média e baixa das plantas. Após a pulverização, os cartões são recolhidos e, em seguida, digitalizados para uso em computador. O objetivo é promover uma melhoria na deposição e na distribuição do defensivo nas plantas. Assim, o produto aplicado não é desperdiçado. O Software Gotas é de acesso gratuito e está disponível na Rede AgroLivre (https:// repositorio.agrolivre.gov.br/projects/gotas). Além disso, os produtores também terão acesso ao manual de utilização, que orienta sobre as especificações técnicas necessárias para o funcionamento.

O Iapar lançou três variedades de feijão, todas com bom comportamento em condições de seca, segundo Vania Moda- Cirino, que participou do desenvolvimento das cultivares

Área de refúgio — Também foi foco de orientações dos pesquisadores da Embrapa a importância do estabelecimento das áreas de refúgio para culturas transgênicas Bt. Os cultivos modificados precisam de áreas com somente plantas convencionais. A falta dessa medida preventiva, conhecida como área de refúgio, provoca a seleção de insetos-praga cada vez mais resistentes, tornando inócua a ação desejada dos transgênicos. “A área de refúgio é a principal estratégia que os produtores têm para evitar a quebra de resistência dos transgênicos, mantendo o equilíbrio ecológico e a produtividade das lavouras”, segundo a pesquisadora Simone Martins Mendes, da Embrapa Milho e Sorgo.

Conforme o pesquisador José Magid Waquil, da Embrapa Milho e Sorgo, o produtor que não utilizar a área de refúgio pode ser o primeiro a sofrer com os prejuízos, pois quando não há estímulos à migração, a tendência das mariposas emergidas em uma determinada área é permanecer no local. “É recomendado que, além de plantar a área de refúgio, o produtor faça uma rotação do seu híbrido, utilizando diferentes eventos de Bt na sua área plantada, principalmente onde já foi observada ocorrência de lagartas. Além disso, o produtor deve utilizar híbridos de milho expressando mais de uma proteína Bt e deve evitar o uso do mesmo evento Bt utilizado no ano anterior”, enfatizou Waquil. O percentual da área da lavoura a ser semeado com milho não-Bt é de 10% do total da lavoura, e 20% para soja. Para algodão, varia de 5% a 20%.

A área de refúgio deve ser semeada com cultivares de portes e ciclos iguais aos do milho Bt, bem como é preciso observar que o refúgio não deve estar a mais de 800 metros de distância das plantas transgênicas. “Esse sincronismo entre o desenvolvimento das plantas Bt com as não-Bt permite o desenvolvimento de mariposas (adultos das lagartas) na área de milho Bt, simultaneamente com as emergidas na área de refúgio. Assim, ocorre o aumento de chances de acasalamento entre esses adultos, pois as mariposas não se dispersam por mais de 800 metros”, explicou Simone.


PLANTE SEU FUTURO ENSINA O AGRICULTOR A ECONOMIZAR

A feira foi uma oportunidade preciosa para a Emater propagar o Programa Plante Seu Futuro, desenvolvido em parceria com outras instituições desde 2013. Pelo programa, o agricultor é orientado para práticas corretas de cultivo, sobretudo a partir do que é executado em propriedades exemplares distribuídas pelo estado e que recebem a orientação de técnicos da Emater, as chamadas unidades de referência. De acordo com o engenheiro agrônomo Onóbio Werner (foto), coordenador do Espaço Emater na feira, nada do que é pregado pelos técnicos é novo ou diferente do que já se tem conhecimento, porém, os conhecimentos por vezes são ignorados pelos produtores. “É usar o que é de conhecimento científico e do produtor”, explicou. A Emater participou da feira com 62 técnicos e a estimativa é que tenha recebido em seu espaço 80 mil visitantes.

O Plante Seu Futuro é dividido em seis linhas principais: MIP; monitoramento de doenças; manejo de plantas daninhas; manejo e conservação de solos; formigas cortadeiras; tecnologia de aplicação (de defensivos). “Na unidade de referência já se tem os resultados. Mostramos de forma correta como devem ser feitas as coisas”, descreveu. De acordo com ele, foi possível comprovar nas propriedades exemplares a redução para 2,4 aplicações de inseticidas em comparação à média de cinco no Paraná “sem perder a produtividade e com maior rentabilidade”, destacou Werner. No caso do monitoramento de doenças, foi viável evitar entre meia a uma aplicação de fungicida ao retardar a primeira pulverização em 15 dias “sem perder nada”.


Iapar: novas variedades de feijão — O Iapar recebeu milhares de agricultores em seu diversificado espaço para demonstrações e dinâmicas. Apresentou, por exemplo, três novas cultivares de feijão carioca – Curió, Bem-te-vi e Quero-quero. As três têm indicação para cultivo no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul. Segundo a pesquisadora Vania Moda-Cirino, que trabalhou no desenvolvimento das variedades, todas apresentam bom comportamento em condições de seca e de altas temperaturas durante o período reprodutivo, desenvolvem-se de modo eficiente em solos ácidos e com baixa disponibilidade de fósforo e, ainda, têm planta com arquitetura apropriada à colheita mecânica. E destacam-se ainda pelo desempenho culinário – cozimento rápido, bom caldo e ótimo sabor – e pelas características nutricionais, com alto teor de proteína, ferro e zinco.

A capacidade produtiva, que pode superar a marca de 4,4 toneladas por hectare, e a resistência moderada às principais doenças do feijão são a principal característica da cultivar IPR Quero-quero. De ciclo médio, pode ser colhida em cerca de 90 dias. Igualmente de ciclo médio (colheita em 88 dias), a IPR Bem-te-vi tem potencial de rendimento superior a 4,2 toneladas/ hectare. É resistente a ferrugem, oídio e mosaico-comum, e moderadamente resistente a antracnose, mancha angular e murcha de curtobacterium. Já a cultivar IPR Curió destaca-se pela precocidade, chegando à fase de colheita em cerca de 70 dias. E mostra resistência ao vírus de mosaico- comum, oídio e ferrugem, mas é apenas moderadamente resistente ao crestamento bacteriano comum, murcha de curtobacterium e murcha de fusarium.

  • Com o apoio de assessorias de imprensa de Embrapa e Iapar. Mais informações sobre o Show Rural em Novidades no Mercado e Gente em Ação.