Glauber em Campo

  

CRESCER E PERDER: ATÉ QUANDO?

GLAUBER SILVEIRA

Acada safra brasileira acompanhamos o crescimento da nossa área agrícola. Como manada, crescemos se temos um ou dois anos de preços positivos. A área, em sequência, cresce de forma desordenada e sem planejamento, o que no mercado de oferta e demanda tem a consequência imediata de preços em queda. Acredito que existe uma dependência muito grande da China do mercado de soja, o que é muito temerário. A soja, por ser classificada como uma commodity, tem uma volatilidade muito grande de preço. Sendo assim, aumentos de produção de uma safra para outra tendem a trazer resultados negativos. Mas parece que isso não tem tido importância para os produtores brasileiros que se empenham em crescer.

Na safra 2000/01, plantamos o equivalente a 13,969 milhões de hectares. Quatro safras depois, em 2004/ 05, passamos para 23,301 milhões de hectares, crescimento de 66% em quatro safras, 16,5% de crescimento por safra. O que foi uma catástrofe. Quem é produtor deve se lembrar que seis safras depois, em 2011/12, plantamos 25,042 milhões de hectares, crescimento de 7,5% em seis anos. Claro que isso refletiu mundialmente em preços mais ajustados, tanto que vencemos em muito o preço histórico da soja em Chicago.

Mas como historicamente viemos com preços mais altos e rentabilidade presente no mercado de soja, novamente fomos ampliando a área. As pastagens incorporam-se na área de soja. Não que isso seja negativo, muito pelo contrário, mas a velocidade de incorporação é que vem a ser o x da questão. De 2011/ 12, quando plantamos os 25,042 milhões de hectares, passamos para 31,621 milhões de hectares em 2014/15, crescimento de 26% em apenas três safras, ou seja 8,66% ao ano.

É importante lembrar que o consumo mundial tem crescido em média em torno de 5%, o que é um bom número. Mas então, por outro lado, vemos em apenas uma safra os EUA crescerem em produção 16,6% e o Brasil, 7,8%, o que resultou em um crescimento de produção mundial de 11%. Claro que isso resulta em estoques mundiais crescentes. Em 2013/14, o estoque mundial era de 66,2 milhões de toneladas, e em 2014/ 15, deve ficar próximo de 89,3 milhões de toneladas. Isso significa um crescimento de 23% em um estoque que já era confortável, colocando os compradores em uma rede confortável de soja.

Aí vem a pergunta: será que algum dia iremos planejar melhor esse nosso crescimento, ou vamos continuar a crescer enxergando apenas o curto prazo, e esquecendo que a área agrícola dos EUA é muito maior que a nossa. Os americanos produzem três vezes mais grãos que o Brasil. Alguns analistas afirmam ainda que os EUA têm mais de 60 milhões de hectares de áreas usadas na pecuária que podem ser convertidas em agricultura no futuro. Apesar de isso não ser tão fácil e rápido, a situação deve ser estudada melhor e observada pelos produtores brasileiros, afinal, a agricultura norte americana é de longe mais competitiva que a nossa.

Outro ponto que chama a atenção é que quando olhamos a série histórica de soja da Conab, observamos que nos últimos dez anos em apenas um ano colhemos a média nacional acima dos 3 mil quilos por hectares (ou seja, acima de 50 sacas/ha). Já em Mato Grosso, nas últimas cinco safras, tivemos um decréscimo de produtividade de 3%, o que significa 1,5 saca/ha; a produtividade do Rio Grande do Sul tem sido uma montanha russa, variando em média dez sacas/ha de uma safra para outra, tendo safras em que a variação foi maior que 20 sacas.

Como podemos ver, alguma coisa precisa ser feita, afinal, os dados históricos apontam que em anos que crescemos muito em área há reduções proporcionais em produtividade. Há anos em que perdemos de seis a oito sacas/ha na média nacional, o que demonstra a importância da cautela e do planejamento. Claro que o clima influencia, mas seria muita coincidência a maioria dos anos que aumentamos muito a área o clima ter dado errado. Precisamos focar no aumento de produtividade e para isso precisamos de pesquisa e extensão.

Não vou nem falar dos custos de produção total que, nas últimas cinco safras, subiram mais de dez sacas/hectare. Sendo assim, a quem interessa crescer tanto em produção? Para o Brasil é ótimo, o Governo comemora e se vangloria, apesar de não contribuir em quase nada. O chinês agradece muito, as multinacionais também, afinal, por que não subir a margem de venda se o produtor aumenta a demanda de sementes, fertilizantes e defensivos? Mas e você, produtor, está satisfeito?

Presidente da Câmara Setorial da
Soja, diretor da Aprosoja e produtor
rural em Campos de Júlio/MT