O Segredo de Quem Faz

 

Trabalho em defesa do ORIZICULTOR

Denise Saueressig
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O engenheiro agrônomo Guinter Frantz assumiu no início do ano a presidência do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) com a missão de trabalhar pela rentabilidade da cadeia que responde por mais de 65% da produção brasileira do cereal. Com uma experiência que ultrapassa 30 anos de mercado, Frantz dedicou mais de 20 anos de trabalho à Granja 4 Irmãos, referência na produção agropecuária em Rio Grande, no Sul do Rio Grande do Sul. No currículo profissional, as especializações em Administração de Empresas e Qualidade Total ajudaram a implantar projetos de planejamento estratégico e de gestão de processos e de pessoas na empresa. Agora, o desafio é atender as demandas que vêm do campo e atuar pelo constante incremento da sustentabilidade da lavoura que envolve mais de 18 mil produtores gaúchos.

A Granja – Como o senhor avalia esse início de trabalho no Irga e quais são os principais objetivos e desafios como presidente do Instituto?

Guinter Frantz – Desde que deixei de trabalhar na Granja 4 Irmãos, em 2010, estava atuando em consultorias e cursos nas minhas áreas de formação. Fiquei feliz pela indicação para o Irga ter partido de produtores e órgãos de classe. O desafio de representar essa cadeia tão importante também foi aceito em função da equipe de trabalho que tenho ao meu lado, como o diretor técnico e ex-presidente do Irga, Maurício Fischer, o diretor comercial, Tiago Barata, que tem muita experiência na área de mercados, e o diretor administrativo e ex-presidente da Federarroz (Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul), Renato Rocha. Representamos uma autarquia e vamos trabalhar sempre em parceria com o secretário da Agricultura do estado, Ernani Polo.

Nossos desafios virão do campo, das necessidades dos produtores. O que for apresentado por eles será levado para dentro do Irga e transformado em tecnologia. Um dos grandes diferenciais do Irga é justamente a capacidade de pesquisar e gerar tecnologias e ainda trabalhar como extensão rural, levando as novidades ao campo. Há pouco tempo, o Irga teve um concurso público que ajudou a fortalecer a parte intelectual do Instituto, mas precisamos continuar incentivando a qualificação e a ampliação do corpo técnico. Também queremos dar continuidade ao trabalho de promoção junto ao consumidor, enfatizando o arroz como alimento barato e de alta qualidade nutritiva.

A Granja – Quais são as grandes demandas e necessidades dos produtores de arroz neste momento?

Frantz – Hoje identificamos que existe a necessidade de trabalhar as áreas de manejo e incorporação tecnológica, mas também é preciso focar na gestão da atividade. Precisamos que o produtor faça um melhor uso das variedades disponíveis, dos insumos e dos defensivos na sua lavoura. É preciso fazer a conta e saber quanto custa o uso da tecnologia. Por incrível que pareça, ainda existem produtores que não têm conhecimento sobre o custo real da sua safra. Isso é preocupante, porque pode ocasionar gastos desnecessários. Queremos manter o produtor saudável para que possamos perpetuar o crescimento da atividade.

Há variáveis no custo que não são controladas nem pelo produtor, nem pelo Irga, como os impostos, a energia e os combustíveis. Por isso, é tão importante o trabalho ser conduzido com eficiência na parte onde o produtor tem interferência.

A Granja – Quais foram as principais mudanças e evoluções percebidas na atividade arrozeira em todos esses anos de trabalho?

Frantz – Acredito que a principal evolução veio do aumento da produtividade. Até o início dos anos 2000, o estado colhia, em média, entre 5 mil e 6 mil quilos de arroz irrigado por hectare, e agora a produtividade média é de 7,2 mil quilos por hectare, sendo que muitos produtores obtêm números muito superiores a esses. Parte desse crescimento creditamos ao trabalho do Irga com o Projeto 10, que difundiu técnicas importantes de manejo entre os produtores. Também precisamos lembrar que é fundamental mantermos a produtividade em alta para que o aumento dos custos tenha um impacto menor sobre a rentabilidade.

A Granja – Qual é a expectativa de produção para a lavoura gaúcha nesta safra?

Frantz – A lavoura está em um cenário de estabilidade, com uma área plantada bem parecida com a do ciclo anterior, em torno de 1,118 milhão de hectares e a colheita entre 8 milhões e 8,2 milhões de toneladas. Tivemos alguns problemas com o excesso de chuva e com a baixa luminosidade, além de algumas dificuldades no controle de plantas daninhas e doenças, mas de uma forma geral, a produtividade não deve sofrer alterações significativas.

A Granja – E qual é a previsão para os custos de produção no atual ciclo?

Frantz – Como a colheita está em andamento e precisamos considerar índices como trabalhos de colheita, transporte e armazenagem, ainda poderemos observar algumas mudanças nos números. Além disso, o custo varia muito em função da produtividade, estrutura produtiva e região. Mas identificamos que houve alta em comparação com a safra passada. No ano passado, em média, os produtores desembolsaram em torno de R$ 34 para uma saca. Em estudo encomendado pela Federarroz, nosso diretor comercial, Tiago Barata, que é consultor da Agrotendências, apontou algumas variações significativas que ocorreram neste ciclo.

Para citarmos um exemplo, uma lavoura em Itaqui apresentou aumento de quase 54% apenas no item energia elétrica do ano passado para cá. Em Santa Vitória do Palmar, foi identificado o maior custo por hectare, de R$ 6.227,80 e de R$ 39,92 por saca.

Em Dom Pedrito, o custo da saca foi calculado em R$ 34,61. Já a média do estado ficou em R$ 5.737,57 por hectare. O arrendamento é o item mais representativo na formação dos custos, com 21% do total. Para esse ano, é possível que tenhamos valores de venda em patamares em torno de R$ 38 a saca e, devido aos bons preços, muito vem se falando sobre o momento de estabilidade do arroz. No entanto, o cenário seria bem melhor se não houvesse a elevação de custos, que é a maior ameaça à sustentabilidade econômica da atividade. Um grande número de produtores enfrenta rentabilidade baixa e dificuldades para equacionar as contas, e a preocupação é ainda maior se olharmos para os próximos meses e para a safra de 2015/2016.

A Granja – Quais são as expectativas em relação ao mercado internacional e às exportações de arroz?

Frantz – O Irga vai continuar acompanhando de perto a questão, que é extremamente importante para a rentabilidade da cadeia. Hoje nosso arroz já é reconhecido internacionalmente pela altíssima qualidade, e esse é um diferencial que precisa ser mantido. Em 2014, as exportações chegaram a 1,242 milhão de toneladas, e a tendência é de crescimento para este ano. Na safra 2003/2004, os exportadores brasileiros de arroz atenderam 15 mercados no exterior. Nos últimos anos, o número ficou ao redor de 50 países. Precisamos consolidar os mercados já existentes e prospectar novos compradores.

A Granja – Nos últimos anos, os produtores gaúchos vêm intensificando o plantio de soja nas áreas de várzea em rotação com o arroz. Como o Irga avalia esse cultivo e de que forma o Instituto trabalha para incorporar tecnologia a essa realidade?

Frantz – Esse é um processo bastante interessante. Começamos com 15 mil hectares e, agora, são mais de 300 mil hectares cultivados com soja nessas condições. Não sei se chegaremos a esse número, mas acreditamos que o potencial para o plantio da soja nas áreas de várzea é de 1 milhão de hectares. O maior benefício vem da rotação de culturas e da rotação de produtos químicos, prática que colabora com a melhoria química e física do solo e com toda a sustentabilidade do sistema. No entanto, o produtor precisa ficar atento, porque produzir soja na várzea não é o mesmo que cultivar o grão em áreas de sequeiro que existem há 40 ou 50 anos.

Os números são variáveis, mas alguns produtores vêm conseguindo produtividades ao redor de 50 sacas por hectare. É um trabalho complexo e que requer análise e preparação. O Irga já lançou uma variedade de soja com um comportamento adequado para essas condições de excesso hídrico e vai continuar pesquisando variedades e tecnologias que auxiliem o produtor que optar por essa rotação. Estamos testando as variedades comerciais existentes e trabalhando em um novo material para a lavoura de soja.

A Granja – Como está o processo pelo uso mais racional da água nas lavouras? O que mudou nos últimos anos e o que ainda pode evoluir?

Frantz – Essa é uma preocupação de muitos anos. Inclusive trabalhamos com estudos que indicam que a água utilizada na irrigação sai da lavoura mais limpa do que estava quando entrou, ou seja, a plantação funciona como um filtro.

Precisamos desmistificar a ideia de que a lavoura arrozeira é poluidora e falar sobre isso à sociedade. O arrozeiro não é um consumidor de água, mas sim um usuário que devolve o recurso para o ambiente, além de armazenar a água que será utilizada.

As inovações desenvolvidas ao longo dos últimos dez anos ajudaram a reduzir entre 20% e 30% o uso da água nas lavouras irrigadas. Isso foi possível com medidas como treinamento de irrigadores e melhoria e manutenção de dutos e bombas. Acredito que nos próximos cinco anos poderemos reduzir em mais 20% o uso da água com tecnologias como os sistemas de mangueiras plásticas flexíveis, conhecidos como politubos.

O produtor deve lembrar sempre que, além de uma questão ambiental, a economia de água representa também redução de custos, ainda mais se considerarmos as altas nos valores da energia.