Eduardo Almeida Reis

 Eduardo

TERRAS PRETAS

Informando que mora em apartamento pequeno, a telespectadora perguntou se podia fazer compostagem em domicílio. O repórter do Globo Rural foi entrevistar rapaz alto, magro e cabeludo, especialista no conjunto de técnicas para estimular a decomposição de materiais orgânicos por organismos heterófobos aeróbios com a finalidade de obter, no menor tempo possível, um material estável, rico em substâncias húmicas e nutrientes minerais.

Palmas para o repórter que chamou o jovem cabeludo de doutor. É o tratamento devido no Brasil, pouco importando o doutorado do entrevistado ou o fato de ser médico. Na crise de falta de água, diversas mocinhas entrevistaram meteorologistas barrigudos, de cabelos brancos, chamando-os de você. O mínimo que se pede é o tratamento senhor.

Morando na roça a vida inteira, sempre me interessei pelo assunto compostagem. Fiquei curioso de ver a explicação do especialista e acabei me divertindo à beça. Em linhas gerais, o rapaz explicou que o processo é muito simples. A vítima deve comprar dois grandes baldes plásticos iguais, fazer muitos furinhos no fundo e nas laterais daquele que vai ficar por cima, buraquinhos que permitem o escorrimento dos líquidos da compostagem para o balde de baixo.

No fundo do balde de cima você começa botando um pouco de serragem, grama seca em camadas, lixo orgânico produzido no apartamento pequeno, esterco ou terra preta de mata, e vai subindo com as camadas em um processo que é muito mais complicado, muito mais difícil do que estudar mecânica quântica, nanotecnologia, neurociências e a quádrupla raiz do princípio da razão suficiente.

Para dar certo, um balde de composto orgânico de boa qualidade, feito pela senhora que reside no apartamento pequeno, é tão provável quanto um meteorito que perfure a cabeça da excelente brasileira ao sair do cinema com o namorado. E ainda falta explicar o que deve ser feito com os 30 ou 40 quilos de composto em um apartamento pequeno.

Trabalhei em imensa empresa rural, que produzia toneladas de compostos orgânicos em pátios gigantescos: tudo lá era plural. Número de empregados, de tratores, de caminhões, área plantada em cana para produção de açúcar. Como estávamos no Brasil, país sujeito a originalidades, todo o processo de produção do composto orgânico era coordenado por um dentista.

Ele mesmo, excelente odontólogo especializado em dentaduras instantâneas. Se o leitor não conhece a especialidade, explico: é processo adotado pelos políticos mineiros, em que o homem público chega à pequena cidade em uma tarde de sexta-feira com os dentes em pandarecos, hospeda-se em hotel discreto e volta à Câmara, ao Senado, à Assembleia, na manhã de segunda-feira com uma dentadura de fazer inveja às melhores atrizes do cinema americano.

Apaixonado pela agricultura, o dentista trabalhava em suas dentaduras nos finais de semana e dedicava os dias úteis à supervisão do composto, rocamboles de metro e meio de altura e 50 ou 100 metros de comprimento em um pátio a perder de vista. Pormenor curioso, que sempre me intrigou: em vez de usar termômetros, o odontólogo enfiava seu braço no rocambole de compostagem para sentir a temperatura. Sem luvas, valha a informação.

Muitos anos mais tarde conheci um sobrinho dele, agente de turismo de luxo que conduz mineiros ricos em viagens tão fantásticas quanto produzir e instalar dentaduras completas em 48 horas ou milhares de toneladas de compostos orgânicos controlando as temperaturas com o braço enfiado até ao sovaco.

Conheci, também, uma infinidade de produtos à venda, ensacados, para substituir o composto complicadíssimo que a boa senhora queria produzir com dois baldes plásticos superpostos em seu pequeno apartamento. De qualquer maneira, o assunto é fascinante. Procurando no Google o nome da terra preta, ensacada, vendida em Belo Horizonte, descobri estudo feito pela Universidade Federal de Minas Gerais, instituição séria, que vai utilizar a nanotecnologia na pesquisa da função do carbono para manter a fertilidade de um tipo especial de solo: a terra preta de índio.

Sempre ouvi dizer que os índios derrubavam a mata, aproveitavam a terra e se mudavam quando a fertilidade acabava. Agora, os cientistas descobriram na Amazônia a “terra preta de índio, de grande resistência à degradação e produtividade incomum”. Se é assim, por que os índios se mudavam? Pode ser tema para novos e demorados estudos científicos. Ainda outro dia, a ciência descobriu um peixe que viveu há 385 milhões de anos tinha o pênis em forma de L e teria sido o precursor do sexo neste planeta. Transava de lado pelo formato de seu pinto, operação quase tão difícil como compostar em dois baldes em um apartamento.