Plantio Direto

 

Plantas de COBERTURA, estratégia contra plantas daninhas

Francisco Skora Neto, pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), [email protected]

Um dos grandes desafios para tornar o sistema plantio direto mais equilibrado ambientalmente é através de um manejo eficiente das plantas daninhas. As invasoras utilizam recursos do ambiente (água, nutrientes e luz), os mesmos utilizados pelas plantas cultivadas, para seu desenvolvimento e perpetuação. E para evitar prejuízos devido a sua presença e canalizar os recursos disponíveis para as plantas cultivadas, é necessário realizar o seu controle. O controle baseado em herbicidas, como único método, não tem sido suficiente. Esqueceu-se de prestar atenção nas relações ecológicas dos organismos vivos de um sistema agrícola em que estão inseridas também as plantas daninhas.

Exemplo de área de soja após plantio da braquiária com um manejo eficiente das plantas daninhas

A planta daninha “ideal” (do ponto de vista das plantas daninhas) é aquela que tem grande habilidade em invadir e colonizar (dominar e persistir) uma área. Uma área cultivada pressupõe que seja dominada pelas plantas de interesse econômico e não por outras oportunistas. A dominância do meio pelas plantas cultivadas é o que se almeja quando se planta uma espécie. Uma espécie é dominante quando usa os recursos daquele ambiente de forma eficiente. A estratégia de dominância baseia-se na eficiência no uso dos recursos. Os recursos são escassos para todos os indivíduos, por isso, aqueles que conseguem se estabelecer por primeiro e ocupar seu espaço são os que melhor aproveitam os recursos e dominam o ambiente.

No ambiente agrícola, o arranjo das plantas, isto é, a sua distribuição e densidade populacional na área, é de suma importância. Enquanto as plantas daninhas se estabelecem por meio do seu banco de sementes (ou estruturas vegetativas), nas plantas cultivadas o estabelecimento de uma população é por meio da semeadura. Então, nós definimos a sua distribuição e população. A população de plantas daninhas, enquanto regulada pelo seu banco no solo, também pode ser controlada se forem adotadas formas adequadas de manejo. O manejo, para regular a população de plantas daninhas, é o controle de sua reprodução.

A reprodução das plantas daninhas, quando evitada, reduz em aproximadamente 50% a população na próxima safra. Essa redução é fruto da eliminação das plantas que germinam e também da deterioração/predação das sementes que ficam no solo. É o método preventivo de multiplicação. A multiplicação ocorre principalmente durante os períodos entre as culturas de renda, denominados de curtos períodos de pousio ou janelas. As janelas podem ser evitadas com o uso de plantas de cobertura, intercaladas (exemplo de braquiária ou aveia com milho) ou em sucessão com as culturas de renda após a colheita.

Após a colheita da cultura, a planta de cobertura deve ser uma espécie de rápido crescimento e plantada de maneira a fechar rapidamente para não permitir o desenvolvimento das plantas daninhas e sua reprodução. A supressão das plantas daninhas é feita pela operação de dessecação e a imediata semeadura da planta de cobertura. A espécie de cobertura para intercalação deve ter ciclo longo e crescimento inicial não muito agressivo para evitar competição com a cultura. Também nessa condição os herbicidas usados na cultura devem ter certa seletividade para a espécie de planta de cobertura. A opção por espécies de ciclo longo é em razão de que vai sofrer intensa competição pela cultura e somente no final do ciclo e após a colheita, quando a luminosidade aumenta, é que vai ainda vegetar e formar massa para uma boa cobertura do solo.

Cobertura do solo com milheto mais crotalaria juncea, espécies de crescimento rápido e ciclo curto, ideais para curtos períodos de pousio

O solo permanentemente coberto é uma prática eficaz no manejo de plantas daninhas, incluindo as de difícil controle e também na prevenção ao surgimento e manejo de resistência. A resistência ao uso de plantas de cobertura pelos agricultores passa por questão socioeconômica e/ou cognitiva (percepção das vantagens), e ainda de gestão/ logística para adequação/viabilização das práticas (como disponibilidade de sementes de plantas de coberturas a baixo custo e a melhor forma de inserção e manejo das espécies nos sistemas de produção). O sucesso no uso das principais espécies de cobertura e formas de uso vai estar relacionado com o sistema de produção da região/produtor, condições de clima e características das plantas de cobertura.

Culturas perenes — pomares de citros, café, maçã, etc.: as plantas de coberturas perenes para clima quente são soja perene, amendoim-forrageiro, calopogônio, braquiárias; para clima frio, trevos perenes e festuca. Essas espécies são plantadas (isoladas ou em consorciação) nas entrelinhas da cultura e permanecem formando uma cobertura viva permanente. Essas espécies podem ou não ser roçadas por meio de roçadeira lateral (roçadeira ecológica), que joga os resíduos na linha das árvores para formar uma cobertura morta e auxiliar o controle das plantas daninhas na linha. Nesses casos, é recomendável fertilizar também a área da entrelinha (onde estão as plantas de cobertura) para manter a fertilidade e a produção de biomassa, evitando dar oportunidade para espécies indesejáveis.

As principais plantas para coberturas anuais em clima (verão) são as crotalárias, lab-lab e mucunas; e para clima frio (inverno), aveia, centeio, azevém, nabo-forrageiro, ervilhacas. Da mesma forma que as perenes, podem ser roçadas para formação de cobertura morta na linha das árvores. A desvantagem deste sistema é que pode necessitar semeaduras anuais se a ressemeadura não for eficiente.

Culturas anuais — No caso do plantio de plantas de cobertura durante um longo período do ano são utilizadas espécies anuais de verão ou inverno, de ciclo longo, individuais ou em consórcios (coquetel). Para clima quente (verão), somente são utilizadas quando o agricultor disponibiliza uma área para esse fim. Normalmente é pouco utilizada, pois compete por área com culturas de renda. As principais espécies são as mucunas preta e cinza, guandu, crotalárias, feijão-de-porco, feijão-bravo-do-ceará, calopogônio. Para clima frio (inverno), as espécies mais utilizadas na Região Sul como coberturas de inverno, quando não há cultivo de renda, são aveia (variedades de ciclo longo), azevém, ervilhacas, tremoços e ervilha-forrageira.

A prática comum para formação de coberturas mortas em plantio direto para as culturas de renda no verão usa como principais espécies, em intervalos de curta duração (janelas) entre culturas anuais, plantio de plantas de cobertura de crescimento rápido para fechamento de intervalos curtos entre culturas de renda. Para o clima quente (verão), crotalária juncea, milheto, trigo-mourisco, girassol adensado, milho adensado e sorgo; e para clima frio (inverno), nabo-forrageiro, centeio, aveias e ervilha-forrageira.

Intercalação com culturas anuais — Plantas de coberturas são plantadas consorciadas durante todo ou parte do ciclo das culturas anuais. Recentemente é uma prática mais comum com a cultura do milho no consórcio com braquiária (Brachiaria ruziziensis), mas também possível com guandu, feijão-de-porco, feijão-bravo-do-ceará, Crotalaria breviflora, Crotalaria pallida, aveia-preta variedade ciclo longo (na safrinha). E intercalação com outras culturas, como o arroz (consórcio com calopogônio), girassol (consórcio com braquiária, guandu, crotalárias...), sendo que, em sobressemeadura em soja, também é possível. O plantio das plantas de cobertura pode ser simultâneo com a cultura ou retardado algumas semanas.

Na ilustração, exemplo de outras espécies para uso como plantas de cobertura em situações de clima quente

Dependendo da espécie consorciada e das condições do meio, o plantio simultâneo pode acarretar perdas no rendimento da cultura. E apresenta alguns problemas de manejo, principalmente o controle das plantas daninhas. E o herbicida utilizado na cultura não deve afetar a planta de cobertura. O efeito das plantas de cobertura em consórcio, sobre as plantas daninhas, ocorre no final do ciclo e após a colheita da cultura. No consórcio, a espécie consorciada deve ter ciclo longo, pois no início sofre intensa competição, e quando a cultura começa a completar o ciclo, a planta de cobertura irá se desenvolver e formar suficiente massa para suprimir plantas daninhas.