Agricultura Familiar

Mais qualidade nos ERVAIS

Denise Saueressig
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Os esforços e incentivos para a qualificação são prioridade entre a cadeia produtiva da erva-mate. Matéria-prima do chimarrão, tradicional bebida dos gaúchos, a planta é alvo de pesquisas e trabalhos que visam ao aumento da rentabilidade nas propriedades rurais. Nativa da América do Sul, a erva-mate é produzida na Argentina – o maior produtor -, no Brasil e no Paraguai. No Brasil, o cultivo existe nos três estados do Sul e em Mato Grosso do Sul, em um total de 515 mil toneladas de folha verde em uma área de 67,4 mil hectares, segundo dados de 2013. O Rio Grande do Sul é o maior produtor, com 265,5 mil toneladas, seguido do Paraná, com 195,4 mil, Santa Catarina, com 50,7 mil, e Mato Grosso do Sul, com 3,79 mil.

A grande oferta do produto nos últimos 15 anos fez com que os produtores enfrentassem um período de baixos preços. No ciclo 2011/2012, o cenário mudou por conta de uma forte estiagem e de uma redução em torno de 30% na produtividade dos ervais. “Isso significou o abandono de muitas áreas”, recorda o engenheiro agrônomo Ilvandro Barreto de Melo, assistente técnico regional da Emater/RS. Com a queda nos volumes produzidos, os preços melhoraram em 2013. Na média nacional, os valores passaram de R$ 8 a arroba (15 quilos) em janeiro, para R$ 19 em dezembro. A escassez de matéria prima fez com que os preços chegassem a até R$ 32 em alguns momentos.

Os valores pagos estimularam investimentos, novamente a produção aumentou e, mais uma vez, no ano passado, houve queda nos preços para entre R$ 12 e R$ 14 a arroba. “Tudo indica que em 2015 vamos seguir com essa retração devido à grande oferta no mercado e, como consequência, teremos novos abandonos e arranquio de ervais, como ocorreu entre 2009 e 2012. Além da queda nos preços pagos ao produtor, o preço de venda das ervateiras ao mercado também caiu, mas o valor na ponta, ao consumidor final, se mostra estável”, cita o engenheiro florestal Roberto Magnos Ferron, diretor executivo do Instituto Brasileiro da Erva-Mate (Ibramate).

Produtora em Machadinho, município da Região Nordeste do Rio Grande do Sul, Selia Regina Felizari avalia que um bom preço para a matéria-prima fica A GRANJA | 55 entre R$ 16 e R$ 18, o que permite rentabilidade entre 30% e 40% para a atividade.

Manejo e novos mercados — A análise financeira ajuda a mostrar a importância de investimentos para o produtor conquistar o melhor retorno possível com a cultura. Técnicas adequadas de manejo, poda, limpeza, adubação e a correta seleção das mudas têm interferência direta sobre a qualidade da folha e sobre o rendimento dos ervais que, em boas condições, respondem com produtividade ao redor de 1 mil arrobas por hectare. “Há áreas que produzem entre 1,8 mil e 2 mil arrobas por hectare. São produtores que, mesmo em momentos de preços baixos, terão bons índices de retorno”, conclui Melo, da Emater/RS.

O setor também está empenhado em expandir novos e alternativos nichos de consumo para a colocação da erva-mate no mercado. Algumas iniciativas interessantes já existem, como a fabricação de cosméticos, farinha de trigo com erva-mate, cerveja e as bebidas energéticas. “Queremos adotar a classificação do produto folha, a fim de priorizar a qualidade. O bom produtor deve ter melhor remuneração para que cada vez mais se profissionalize e estimule os outros a evoluírem”, considera Ferron.

Para ajudar o produtor na qualificação, atividades como dias de campo, cursos e palestras são promovidos por meio de parceria entre as entidades do setor e organismos como a Emater, a Embrapa Florestas, o Sebrae e o Senar. Ainda este ano, o Ibramate pretende criar a Câmara Arbitral de Preços da Erva-Mate para que sejam estipulados valores de referência. “Vamos estabelecer planilhas de custos de produção e industrialização para definir preços. Sabemos que essa grande variação é altamente perniciosa para a cadeia”, ressalta o diretor do Ibramate.

Incorporação de tecnologia — No Rio Grande do Sul, assim como a tradição do chimarrão, o cultivo da ervamate foi transmitido entre gerações. Entre 13 mil e 14 mil propriedades distribuídas em cinco polos produtivos cultivam a árvore em uma área média de três hectares. Cerca de 240 indústrias absorvem a colheita. A engenheira agrônoma e presidente da Associação dos Produtores de Erva-Mate de Machadinho (Apromate), Selia Felizari, cultiva a erva em quatro hectares na propriedade da família, onde também mantém lavoura de soja e plantio de eucalipto.

A cadeia do município é referência pela organização e produção diferenciada da erva-mate Cambona 4 em sistemas agroflorestais, projeto que tem incentivo de diversas instituições. Descoberta em uma propriedade de Machadinho, o material genético da Cambona 4 é conhecido pelo sabor mais suave da erva e hoje é plantado em 208 hectares no município. “Além do cultivo junto a árvores nativas, desenvolvemos também um trabalho de proteção das nascentes nas propriedades. Nossas prioridades são a sustentabilidade econômica e ambiental da atividade e a geração de emprego na região”, relata Selia.

Produtora de erva-mate em Machadinho/RS, Selia Felizari avalia que um bom preço para a matéria-prima fica entre R$ 16 e R$ 18 a arroba, o que lhe possibilita rentabilidade entre 30% e 40%

Com 310 associados, a Apromate realiza atividades de capacitação e mantém parcerias com instituições de pesquisa e extensão. O engenheiro agrônomo da Emater/RS Ilvandro Melo observa que os produtores locais conseguem uniformidade de produção durante todo o ano, com equilíbrio genético. “As áreas com Cambona 4 são georreferenciadas, o que permite informações detalhadas sobre os ervais e maior precisão na tomada de decisões, como no momento da adubação”, detalha o técnico. Uma das mais recentes inovações incorporadas pelos produtores de Machadinho foi a tesoura elétrica, que facilita a colheita e ajuda a aumentar em cerca de 10% a produtividade dos ervais. Mais de dez desses equipamentos já foram adquiridos pelos produtores que dividem os custos no momento do uso.