Florestas

Viabilidade do MOGNO-AFRICANO consorciado com a PALMEIRA

Eng. agr. José Alves Júnior, Adão Wagner Pego Evangelista, Derblai Casaroli, João Maurício Fernandes Souza, professores doutores na
Universidade Federal de Goiás (UFG), Escola de Agronomia (EA),www.agro.ufg.br

Além das espécies de eucalipto e pinus, já concretizadas como madeiras fornecedoras de matéria-prima, existem iniciativas da introdução de novas espécies com potencial madeireiro, como o mogno-africano no Cerrado

O Brasil é o segundo colocado no ranking dos países com maior cobertura florestal no mundo. Porém, apesar dessa abundância de recurso natural, para atender o mercado externo e interno da indústria moveleira, uma grande porcentagem da exploração madeireira no País ainda é feita de forma extrativista e criminosa. Daí surge à necessidade e justificativa para o reflorestamento e plantios comerciais legais, com árvores de uso para esse fim. Além das espécies de eucalipto e pinus, já concretizadas no cenário nacional como madeiras fornecedoras de matéria- prima, existem iniciativas da introdução de novas espécies com potencial madeireiro. E uma delas é o mogno-africano (Khaya ivorensis).

O mogno-africano, que pertence à família Meliaceae, é uma dessas espécies arbóreas que estão sendo utilizada em plantios comerciais devido a sua dureza e boa qualidade da madeira, alto potencial produtivo, resistente aos ataques da broca-doponteiro e ao seu alto valor comercial. Segundo estimativas, uma árvore de mognoafricano, ao atingir o ponto de corte, com média de 15 a 20 anos, poderá alcançar o valor de cerca de US$ 2 mil.

Entretanto, essa promissora rentabilidade pode ser excessivamente otimista se não for analisado que o aumento da oferta dessta madeira, em 20 ou 30 anos, com a colheita das inúmeras florestas que estão atualmente sendo plantadas, poderá reduzir drasticamente a demanda atual, levando a um cenário pessimista, com lucratividade baixa. E mesmo no cenário otimista, quando se analisa a realidade do pequeno produtor rural na região do Cerrado, observa- se que este terá dificuldade para comercializar, pois o maior lucro fica para atravessadores comerciais, serrarias, fábricas moveleiras e exportadores de madeira.

Assim, um dos elos da cadeia produtiva mais importante para a obtenção da eficiência econômica das explorações agrícolas e silviculturais é a comercialização. Nesse contexto de busca de competitividade, o conhecimento dos custos de produção e rentabilidade das culturas é cada vez mais importante no processo de tomada de decisão do produtor sobre o que plantar. Devido ao aumento de importância econômica da silvicultura na região do Brasil Central, é preciso saber a viabilidade técnica, analisando todos os fatores de produção de maneira local.

O consórcio do mogno-africano com palmeira-guariroba é relatado na literatura como um sistema agroflorestal de sucesso. A guariroba (Syagrus oleracea Becc) é uma palmeira importante no Cerrado, principalmente em Goiás, onde é muito usada na culinária. Seu palmito, de sabor amargo, é usado em pratos típicos da região, e além de ser consumido in natura já é industrializado e vendido em supermercado.

Este estudo teve como objetivo principal apresentar a viabilidade econômica do cultivo de mogno-africano em consórcio com palmeira-guariroba na região de São Sebastião/DF (Programa de Assentamento Dirigido no Distrito Federal). Para isso, levantou-se o custo operacional de implantação e produção, e obtiveram-se os resultados econômicos. No estudo de viabilidade, utilizou-se o sistema de consórcio entre mogno-africano com guariroba, implantado em uma área de um hectare, visando à produção de madeira, palmito e coco.

Para o preparo da área, foram consideradas duas arações com grade aradora, posteriormente sulcada e as covas receberam adubação de plantio com 100 g do formulado 4-30-10. O plantio foi realizado com mudas no espaçamento de 6x4 metros para o mogno, e 2x1 m para guariroba, totalizando, 416 mudas de mogno e 4.584 mudas de guariroba. As plantas deverão ser plantadas no início do período chuvoso (novembro). E as mudas podem ser adquiridas próximo ao município de São Sebastião, com o preço médio de mercado de R$ 5 a unidade, adotando uma margem de segurança de 3% de perdas. E foram considerados 10% de mudas para replantio no ano seguinte.

A comercialização dos produtos será realizada na fazenda. A estipe será vendida na propriedade por R$ 10 cada, e o coco, R$ 1/kg. A venda do mogno foi simulada com quatro preços de: R$ 100, R$ 300, R$ 1 mil e R$ 2,5 mil/m3 de madeira. A colheita do palmito é feita no quinto ano, a colheita dos cocos, a partir do sétimo ano, 50% das plantas de mogno colhidas com dez anos, 25% colhidas aos 15 anos e os últimos 25% colhidas aos 20 anos.

O ponto de colheita do palmito pode ser associado a alguns atributos como altura de plantas (+/- 1,4 metro de altura do solo a inserção da última folha e 10 centímetros de diâmetro de caule), os cocos com o início da queda dos frutos do cacho, e o mogno, a resistência da madeira.

O investimento necessário para a produção de madeira, palmito e coco em um hectare refere-se ao custo de mudas, 5 mil mudas a R$ 5 cada, totalizando R$ 25 mil por hectare. Para análise dos resultados econômicos foi estimado que a produção de palmito, coco e madeira se estenderão por 20 anos a partir do plantio (ano zero). A produção foi calculada pela média estimada da produção total, no período produtivo de um ano para palmito (referente ao ano cinco), 14 anos para coco (referindo-se ao período do ano sete ao ano 20) e dez anos para mogno (referente às colheitas nos anos 10, 15 e 20).

O cultivo de mogno-africano para produção de madeira nobre, guariroba para produção de palmito amargo (50% das plantas) e coco (outros 50%) no sistema em consórcio estudado e nas condições edafoclimáticas no município de São Sebastião, em um período de 20 anos, e taxa de juros de 2% a.a. apresentam receita bruta esperada de R$ 432.280,00 em um hectare, e o valor presente líquido é estimado em R$ 253.033,60. A relação benefício/ custo é de 4,6, ou seja, apresentou lucro no empreendimento, considerandose um bom investimento devido à Taxa Interna de Retorno apresentar 18,45%.

Conclusões — A produção de palmito (guariroba), coco (guariroba) e madeira (mogno) representa uma alternativa rentável para o produtor que deseja implantar, embora apresente um investimento inicial elevado com mudas. Na análise de viabilidade do projeto, observou-se que o produtor consegue abater os custos de implantação das culturas entre o 9º e 10º ano de produção, sendo assim viável, pois está dentro de um período de tempo preestabelecido, 20 anos. Isso para madeira comercializada a R$ 1 mil/m3.

Em um comparativo, mesmo em um cenário pessimista de comercialização da madeira do mogno (principal produto deste consórcio), a R$ 100 e R$ 300/m3, a rentabilidade do consórcio varia de R$ 1.313,00 a R$ 4.460,00/ha/ano. No cenário otimista de comercialização do mogno em toras na fazenda a R$ 1 mil e R$ 2,5 mil/m3, a rentabilidade sobe para R$ 15.470,00 a R$ 39.076,00/ha/ano, o equivalente entre cinco e 12 vezes a rentabilidade da agricultura convencional. Isso coloca o consórcio como uma boa alternativa para pequenos e médios produtores para otimizarem suas terras, assim como para grandes produtores que pretendem diversificar seus investimentos.