Fitossanidade

Manejo preciso das INVASORAS na safrinha

Independentemente da região do milho de segunda safra, o enfrentamento das plantas daninhas é muito semelhante. E as condições das populações das espécies invasoras refletem o manejo da cultura imediatamente anterior, assim como refletirão no cultivo posterior. Neste artigo, orientações detalhadas para que o cereal não perca espaço – e produção – para as daninhas

Engenheiro agrônomo, DSc. Maurílio Fernandes de Oliveira, agrônomo, PhD Décio Karam, e agrônomo, DSc. Alexandre Ferreira da Silva, pesquisadores Embrapa Milho e Sorgo; agrônomo, DSc. Claudinei Kappes, pesquisador Fundação MT; e agrônomo, DSc Rubem Silvério de Oliveira Júnior, professor da Universidade Estadual de Maringá/PR

As principais regiões produtoras de milho safrinha localizam-se nos estados da Região Sul (RS, SC e PR), da região Sudeste (SP e MG), e nos estados da Região Centro-Oeste (MS, MT e GO). Apesar das diferenças regionais devido às propriedades de solo, condições de clima, sistemas de rotação ou sucessão adotados, o manejo das plantas daninhas na modalidade de safrinha é muito semelhante. Na condição de safrinha, as populações de plantas daninhas refletem o manejo adotado anteriormente, geralmente na soja cultivada no verão. As principais culturas presentes na safrinha são milho, sorgo, milheto e algodão. Na grande maioria das regiões, a semeadura do milho safrinha sucede majoritariamente a soja verão. Atualmente, há disponibilidade no mercado de milho e algodão com tecnologia Roundup Ready.

A utilização da soja Roundup Ready (soja RR) no verão padronizou o espectro de ação sobre as populações de plantas daninhas, que mesmo com a diversidade do banco de sementes de plantas daninhas regionalmente, tem sido caracterizado pelo aparecimento de populações resistentes ao glifosato. Nessa condição, os casos de resíduos de herbicidas aplicados na cultura de verão (ex. soja) para a cultura safrinha (ex. milho) foram reduzidos. Atualmente, a necessidade de associar ao glifosato, herbicidas graminicidas (para controle de espécies resistentes como o capim-amargoso e o azevém) e a latifolicidas (principalmente para o caso da buva resistente) retorna a demanda por atenção para os resíduos dos herbicidas para a safrinha.

A condição de safrinha caracterizase por menor população de plantas daninhas em relação ao cultivo de verão, independentemente da região ou da cultura. A ocorrência de altas populações pode ser esperada em áreas de cultivo de soja RR com ocorrência de plantas daninhas resistentes ao glifosato, como a buva (Conyza spp.), capim-amargoso (Digitaria insularis), capim-branco (Chloris elata), azevém (Lolium perenne ssp. multiflorum), e/ou das de difícil controle, como trapoeraba (Commelina benghalensis L.), corda-de-viola (Ipomoea spp.), erva-quente (Spermacoce latifolia), erva-de-touro (Tridax procumbens L.), poaia-branca (Richardia brasiliensis) e agriãozinho (Synedrellopsis grisebachii). Plantas voluntárias de soja RR são também comumente encontradas em alta densidade nas áreas de safrinha.

A condição de safrinha caracteriza-se por menor população de plantas daninhas em relação ao cultivo de verão, independentemente da região ou da cultura

O manejo das plantas daninhas na safrinha nas Regiões do Centro-Oeste e Sul ocorre em grande parte com a aplicação de atrazina para milho e sorgo. Em função das espécies de plantas daninhas, são realizadas aplicações de atrazina associadas ao 2,4-D. Em áreas com reduzida população de plantas daninhas, apenas dessecação pré-semeadura com glifosato isoladamente ou associado ao 2,4-D tem sido utilizada promovendo a semeadura e a condução da lavoura no limpo. A adoção do sistema "apliqueplante" garante a semeadura do milho na safrinha quando ocorrer atraso no início do semeio dentro da janela de semeadura. O atraso pode ser devido tanto ao início do semeio da lavoura verão quanto pela colheita da lavoura tardiamente por fatores como a chuva.

Glifosato na safrinha — Recentemente, a disponibilidade da tecnologia milho e algodão Roundup Ready (milho RR) trouxe a possibilidade de se utilizar o glifosato para o manejo das plantas daninhas na safrinha. No entanto, esse fato potencializa o aparecimento de plantas daninhas resistentes ao glifosato devido ao maior número de aplicações repetidas do mesmo princípio ativo na mesma área. O alto custo das sementes transgênicas e as oscilações no preço do milho são alguns dos motivos da menor adoção da tecnologia, além da falta de controle residual.

A mudança na distribuição das chuvas proporcionou atraso no início da semeadura da soja verão na safra 2014/2015, notadamente na Região Centro- Oeste. A situação delineada por esse fato promoverá atraso no início da semeadura da safrinha 2015 nessa região. O atraso na época de semeadura aumenta a probabilidade de frustração de rendimento. Nesse caso, uma das primeiras operações que são eliminadas para ganhar tempo para a semeadura da safrinha é justamente a dessecação que antecede a semeadura da safrinha.

Nesse caso, o produtor passa a contar com a baixa população das infestações na safrinha, mas ficando também mais dependente da aplicação que realiza dentro do ciclo de safrinha, que em muitos casos terá que ser feita mais precoce do que tradicionalmente. Uma possibilidade é a antecipação da dessecação para o final do ciclo da cultura de verão, principalmente onde existam escapes que justifiquem a utilização de dessecantes de final de ciclo (normalmente produtos de contato como o paraquat ou paraquat+diuron).

Semeaduras tardias, situadas dentro da primeira quinzena de março, são consideradas de alto risco na Região Centro- Oeste, pois a probabilidade de ocorrer limitação hídrica torna-se elevada. Diante disso, os produtores que insistem em semear milho safrinha em épocas consideradas tardias reduzem os níveis de investimentos. Além disso, espera-se que os produtores optem pelo semeio do sorgo e/ou milheto. Tal opção baseia-se no fato de essas culturas apresentarem maior estabilidade de produção em condições de deficiência hídrica temporária e menor custo de produção. Há baixa opção de herbicidas registrados para sorgo. Isso faz com que a utilização da atrazina tenha que ser eficiente. O amplo uso da atrazina no milho safrinha deve-se ao seu baixo custo, alta seletividade e a sua flexibilidade de aplicação (pré e/ou pósemergência).

O deslocamento da janela de semeio proporcionará, certamente, diferente cenário ao produtor quanto ao manejo e tratos culturais. Aspecto importante será a observação da época do manejo das gramíneas que germinam tardiamente em relação às dicotiledôneas nesste período. Na situação descrita, recomenda-se aplicação de atrazina na modalidade pósprecoce inicial das plantas daninhas, desde que as condições climáticas sejam favoráveis. Ocorrendo novamente fluxo de emergência das plantas daninhas, a segunda aplicação de atrazina poderá ocorrer entre 15 e 20 dias após a primeira aplicação. Importante prever divisão da dosagem do herbicida.

Gramíneas infestantes — As áreas produtoras de safrinha, tanto de milho quanto de sorgo estão caracterizadas por aumento das populações de gramíneas infestantes. Situação semelhante ocorreu quando da ampla utilização da formulação de 2,4-D aplicado tanto no milho quanto no sorgo. A condição de aplicação dos herbicidas, geralmente tardia nessa situação, pode ter favorecido o aumento da população das plantas daninhas gramíneas.

Devido a isso, a condição que deverá ser evitada diz respeito às aplicações tardias da atrazina, ou seja, quando as gramíneas infestantes estiverem perfilhando. Deve-se evitar aplicação no momento inadequado devido à baixa eficiência desse herbicida no controle de algumas espécies, especialmente de gramíneas. De fato, maior controle das gramíneas ocorrerá na aplicação desse herbicida na condição pós-precoce, ou seja, plantas com uma a três folhas. Salientase que o fabricante de algumas marcas comerciais não recomenda a aplicação dos produtos em áreas com altas infestações de gramíneas como capim-colchão (Digitaria horizontalis) e capimcarrapicho (Cenchrus echinatus), tanto em pré quanto em pós-emergência. Ocorrendo atrasos no semeio, o produtor poderá aplicar glifosato em associação com 2,4-D ou atrazina na condição "aplique-plante" possibilitando manejo adequado das plantas daninhas.

Recentemente, a disponibilidade da tecnologia milho RR trouxe a possibilidade de se utilizar o glifosato para o manejo das plantas daninhas na safrinha

Nas áreas de safrinha com milho, o controle das infestantes poderá ser realizado com aplicação de glifosato, optando- se por milho RR se não houver espécies de difícil controle ou resistentes a esse herbicida. Atualmente, devido à necessidade de controle da tiguera de soja no milho, atrazina tem sido aplicada com o glifosato. Em áreas com espécies de difícil controle, aplicação do glifosato no milho RR pode ocorrer em associação com outros herbicidas além da atrazina, como 2,4-D, mesotrione, tembotrione e nicosulfuron, por exemplo. Para a opção de semeio do milho convencional nas áreas com espécies de difícil controle ou com espécies resistentes, recomenda-se a aplicação de herbicidas em associação, como as seguintes: atrazina e mesotrione; atrazina e tembotrione; atrazina e nicossulfuron; atrazina e glifosato.

Ademais, observar a recomendação do fabricante quanto à adição de óleo vegetal, óleo mineral ou espalhante adesivo que ocorre para todas as formulações de atrazina aplicadas em pós-emergência. Devese atentar para a possibilidade de aplicação da atrazina na pré-emergência. Nessa modalidade de aplicação, o solo deve estar úmido. Para aplicação em pós-emergência, deve-se evitar dias quentes, condições de baixa umidade relativa do ar e ventos fortes. A utilização do equipamento de proteção individual deverá ocorrer desde o manuseio do produto puro e durante o preparo da calda até a aplicação no campo, inclusive durante a lavagem do pulverizador.

Importante observar que, nas situações descritas, a escolha dos produtos é função das populações de plantas daninhas, muitas vezes resultante do manejo adotado anteriormente. Para tanto, o técnico deverá ter conhecimento da área para recomendação adequada dos herbicidas. É muito importante lembrar que, mesmo havendo menores problemas de incidência de plantas daninhas na safrinha, a falta de cuidado nesse período do ano resulta frequentemente em problemas de maior dificuldade de controle na safra seguinte, além de abastecerem o banco de sementes do solo.

Muito produtores do Sul do MS, Norte e Oeste do PR, Sul de SP e Norte do RS passaram a implementar práticas mais consistentes de controle na safrinha para evitar maiores infestações da buva e do capim-amargoso resistentes a glifosato durante a entressafra, uma vez que altas infestações dessas plantas em desenvolvimento avançado podem requerer de duas a três aplicações de dessecação na entressafra para a semeadura da cultura de verão posterior. Prevenir, nesse caso, sai mais barato do que remediar!