ILP

Como INICIAR na integração lavoura-pecuária

A implantação do sistema ILP na propriedade requer conhecimento, planejamento e posterior execução adequada. O começo é uma fase que envolve adaptações tecnológicas, assistência técnica e investimentos – que podem inclusive ser obtidos via linhas de crédito oficiais. O ideal é buscar orientação

Alvadi Antonio Balbinot Junior, Julio Cezar Franchini, Henrique Debiasi, Osmar Conte, pesquisadores da Embrapa Soja

Aintegração da produção vegetal com a animal tem experimentado evolução científica e tecnológica expressiva no Brasil, sobretudo nas últimas três décadas, em função de vários benefícios econômicos, ambientais e sociais que o sistema pode proporcionar. Atualmente, a integração lavourapecuária (ILP) é considerada como o principal sistema de produção capaz de otimizar o uso dos recursos de produção em larga escala, tanto em clima subtropical quanto tropical, tornando-se um negócio atrativo. Além disso, em muitas circunstâncias, a ILP é necessária para viabilizar a reforma de pastagens degradadas e possibilitar o cultivo de espécies graníferas, notadamente a soja, em áreas arenosas e com clima quente.

A consolidação do sistema plantio direto (SPD) foi fundamental para viabilizar a ILP, principalmente em regiões frágeis sob o ponto de vista de conservação do solo e da água. Nesse sentido, o uso associado do SPD e da ILP é muito relevante na construção de um agronegócio produtivo, rentável e conservacionista. A seguir, mencionam-se dois exemplos típicos de ILP: 1) produção de grãos no verão, intercalada com pastagens anuais de inverno, geralmente formadas pelo consórcio de aveia-preta e azevém, na Região Sul, especialmente onde o clima é mais frio; e 2) cultivo de pastagens perenes na região do Brasil Central, usualmente formadas por braquiárias, por dois ou três anos, intercaladas com cultivo de soja por duas ou três safras.

A implantação do sistema ILP na propriedade rural requer conhecimento, planejamento e execução adequada. Certamente sistemas integrados requerem Leandro Mariani Mittmann A GRANJA | 43 maior aporte de conhecimento e tecnologias, comparativamente a sistemas não integrados. O ordenamento das atividades relativas à produção vegetal e animal no espaço e no tempo deve ser cuidadosamente analisado para que as atividades sejam conciliáveis e provenham os benefícios almejados. Em função disso, indica-se que os produtores interessados em implantar a ILP procurem assistência técnica especializada no tema, para não cometer erros técnicos que podem inviabilizar o sistema, mesmo no curto prazo – menos de três anos.

Pensar em piquetes — No caso de propriedades rurais que originalmente apresentam a produção vegetal como foco, a inserção de animais, sejam bovinos para produção de carne ou leite, ovinos, caprinos, dentre outros, requer o planejamento dos piquetes, a montagem das cercas, aguadas, cochos e estrutura para o manejo dos animais. A montagem das cercas para contenção e manejo dos animais na pastagem é um dos principais custos relacionados à inserção do componente animal em ILP. Uma opção frequentemente utilizada é o uso de cercas eletrificadas, as quais apresentam adequado funcionamento, especialmente quando os animais possuem temperamento manso.

Quando a produção animal é baseada no pasto e há presença de animais durante todo o ano na propriedade, o planejamento forrageiro é indispensável na propriedade. Para isso, é necessário considerar que a produção esperada, a qualidade da forragem e os períodos de maior e menor produção de cada espécie forrageira inserida no sistema sejam anuais ou perenes. É importante considerar a possibilidade de produção de certa quantidade de forragem conservada, seja por meio de silagem ou feno, para utilização em momentos em que a pastagem apresenta baixa capacidade de suporte.

Muitas propriedades agrícolas que iniciam a ILP focam na engorda de bovinos, sendo a baixa disponibilidade de bezerros um fator limitante ao avanço do sistema. Por outro lado, a longo prazo, esse gargalo provavelmente será sanado, pois, à medida em que há carência de bezerros, o preço aumenta e, com isso, há maior interesse em produzi- los – é como o mercado se ajusta.

Para produtores de grãos que estão iniciando a criação de animais, é importante considerar que a ILP pressupõe a melhoria da qualidade do solo ao longo do tempo e, por conseguinte, as espécies forrageiras a serem adotadas precisam responder a essa condição favorável de solo, bem como os animais precisam utilizar e converter a forragem produzida em produto animal, seja carne e/ou leite. Para tal, é relevante o uso de genética animal com alto desempenho e com adaptação às condições ambientais; boa sanidade; e que os animais sejam submetidos a adequado bem-estar. Ou seja, é necessário transformar solo de alta qualidade em pastagem boa e, esta, em produto animal que será comercializado, sem que haja gargalos no processo de produção.

Os produtores interessados em implantar a ILP devem se informar sobre o assunto, como participarde dias de campo e procurar assistência técnica especializada

Enfatiza-se que a utilização e conversão da pastagem em produto animal é muito influenciada pelo manejo da pastagem, especialmente no que se refere à altura de manutenção das plantas. Cada espécie forrageira apresenta uma faixa de altura de manutenção para maximizar a produção, a qualidade e a persistência da pastagem. Normalmente, a altura de manejo indicada para as forrageiras também confere adequada quantidade de palha para cultivo posterior de grãos em SPD.

Um erro grave, percebido em muitas ocasiões, é o pastejo excessivo, o que provoca redução do rebrote e da quantidade de palha residual para cultivo posterior, com aumento da locomoção dos animais e da compactação superficial do solo. Nesse contexto, o correto manejo das pastagens é ponto-chave a ser considerado desde a implantação do sistema ILP.

No caso de propriedades destinadas à produção animal, a inserção da produção vegetal implica na correção química do solo, eliminação de desuniformidades na área para possibilitar a colheita mecanizada de espécies graníferas e aquisição ou contratação de serviços de máquinas para a semeadura, tratos culturais e colheita. Em regiões de fronteira agrícola, é crucial que o produtor faça uma análise sobre a disponibilidade de insumos para produção vegetal, bem como se há infraestrutura para armazenamento do produto colhido e as condições para a sua comercialização. A análise prévia das condições a montante e a jusante da produção é fundamental no planejamento das atividades.

A necessidade de aquisição de máquinas é certamente um gargalo para produtores que apresentam baixa escala de produção. Nesse caso, uma opção é a contratação do serviço de colheita, eliminando a necessidade de aquisição de colhedoras. A contratação dos serviços de semeadura e pulverizações torna o produtor muito dependente da disponibilidade de máquinas de terceiros, o que pode reduzir a eficiência produtiva, especialmente devido à execução das operações agrícolas em momentos inapropriados.

A necessidade de aquisição de máquinas é certamente um gargalo para produtores que apresentam baixa escala de produção. Nesse caso, uma opção é a contratação do serviço de colheita, eliminando a necessidade de aquisição de colhedoras. A contratação dos serviços de semeadura e pulverizações torna o produtor muito dependente da disponibilidade de máquinas de terceiros, o que pode reduzir a eficiência produtiva, especialmente devido à execução das operações agrícolas em momentos inapropriados.

Parcerias entre agricultores e pecuaristas — Uma alternativa para a viabilização da ILP são as parcerias entre agricultores e pecuaristas. Nas diversas regiões brasileiras, há muitos modelos de acordos em que o agricultor continua especializado na produção de grãos, fibras e/ou agroenergia e o pecuarista continua especializado na produção animal. Logo, os benefícios da sinergia entre a produção animal e vegetal são obtidos por meio da parceria.

Um exemplo típico é o arrendamento de pastagens anuais de inverno na Região Sul para engorda de bovinos. Nesse caso, o agricultor se preocupa em produzir grãos no verão e implantar adequadamente a pastagem em sucessão – muitas vezes formada pela emergência espontânea de azevém –, enquanto o pecuarista se preocupa com os fatores de produção ligados aos animais (cria ou compra de bezerros, genética, manejo, sanidade, bem-estar e venda dos animais). Assim, o agricultor tem uma opção de renda no inverno e o pecuarista consegue engordar os animais no momento de maior escassez das pastagens perenes de verão ou campos naturais.

O mesmo raciocínio vale para regiões tropicais do Brasil em que, na entressafra, com baixa disponibilidade de água, pode haver cultivo de espécies forrageiras, muitas vezes implantadas juntamente com o milho safrinha (Sistema Santa Fé). Com a efetivação de parcerias, a ILP transcende os limites de propriedades rurais; ou seja, mais de uma propriedade constitui um sistema de produção sistematizado para alcançar ganhos sinérgicos, sejam econômicos, ambientais ou sociais. É evidente que toda a parceria deve proporcionar ganhos às partes e ser regida por um acordo bem formatado desde o início do processo.

Nesse contexto, a implantação da ILP é uma fase que envolve adaptações tecnológicas e necessidade de assistência técnica e investimentos, que podem ser obtidos por linhas de crédito específicas. Sugere-se, portanto, um planejamento detalhado antes da implantação do sistema para que o mesmo seja viável economicamente em curto, médio e longo prazo.

Segundo os pesquisadores Balbinot Junior (foto), Franchini, Debiasi e Conte, uma alternativainteressante para viabilizar a ILP são as parcerias entre agricultores e pecuaristas