Armazenagem

Manter a QUALIDADE nas commodities é o desafio

Cada um dos processos de recepção, classificação, transporte, secagem, aeração, controle de pragas e monitoramento de grãos deve ser criteriosamente realizado para garantir a qualidade do grão durante o armazenamento

Irineu Lorini, pesquisador da Embrapa Soja, [email protected]

Oprocesso de desenvolvimento do Brasil está fortemente associado à garantia da segurança alimentar de sua população em todos os níveis. A geração de alimentos de qualidade deve ser resultado de aumento da produção agrícola, por meio do incremento na produtividade, da expansão em áreas marginais subutilizadas e da redução das perdas que ocorrem nos diversos elos da cadeia produtiva, de tal forma que seja possível melhorar o abastecimento interno e elevar a competitividade do setor agrícola.

A agricultura brasileira, em geral, e a produção de grãos, em particular, têm sofrido fortes pressões em razão da conscientização dos consumidores com relação principalmente à qualidade nutricional dos alimentos e à redução no uso de agrotóxicos. Da mesma forma, as pressões sociais para a redução das perdas de alimentos que acontecem ao longo da cadeia produtiva; a inexistência de mecanismos de proteção ao mercado interno; as exigências cada vez maiores do mercado internacional; a necessidade de viabilizar novas relações comerciais e agregar valor aos produtos agrícolas; e a necessidade de adoção de práticas modernas para o estabelecimento de uma rede de logística perfeitamente integrada com seus clientes propiciam um momento adequado para a adoção de procedimentos que visem tornar os segmentos da cadeia agroalimentar mais modernos e eficientes, principalmente do setor de armazenamento.

O cenário da produção de grãos no Brasil mudou muito ao longo dos últimos 34 anos, a produção total de grãos estava em 38 milhões de toneladas na safra 1977/78 e alcançou os 194 milhões na safra 2013/14, um incremento de 406%. Os maiores volumes de grãos produzidos foram soja e milho, sendo que a soja teve um aumento significativo de produção da ordem de 785%, passando de 9,7 milhões de toneladas na safra 1977/78 para 86,1 milhões na safra 2013/14 (Conab, 2014). Para a safra 2014/15, a estimativa é de 202 milhões de toneladas de grãos com a soja atingindo cerca de 95 milhões.

Os produtos agrícolas podem sofrer a ocorrência de pragas, fungos e micotoxinas, tanto no campo quanto nas unidades armazenadoras. Sendo assim, além dos cuidados e investimentos para evitar o ataque de pragas no campo, os produtores devem estar atentos para os problemas que ocorrem nos armazéns. Os contaminantes comprometem a comercialização, pois é exigido que os grãos a serem comercializados estejam isentos dos mesmos. As perdas por qualidade de grãos refletem-se por rejeição e/ou condenação dos lotes, pois a utilização dos mesmos irá acarretar diminuição da qualidade do produto final.

O processo de exportação também será comprometido devido ao potencial de risco de contaminação. As perdas ocorrem durante a colheita do grão na lavoura, na secagem em função do teor de umidade sob o qual foram colhidos, no transporte da lavoura ao armazém e durante o armazenamento, principalmente por pragas e fungos, presença de micotoxinas e deterioração por controle inadequado da termometria.

Os grãos podem ter alterações por causas físicas, bioquímicas, químicas não enzimáticas e microbianas, e de tipos, conforme sua classificação comercial. Essa tipificação e a qualidade tecnológica dos grãos podem ser alteradas em função das condições de armazenamento e se não for realizado em condições adequadas. Os contaminantes podem se multiplicar na armazenagem do produto, pois as estruturas armazenadoras "guardam" esses agentes bióticos e abióticos ao longo dos anos nas diferentes partes de máquinas, equipamentos e instalações de armazenagem. A eliminação total de focos de infestação dentro dessas estruturas (resíduos de grãos, poeiras, sobras de classificação, etc.) permitirá o armazenamento sadio e a redução da contaminação. A solução de perdas muitas vezes passa pelas boas práticas provenientes da análises de perigos e pontos críticos de controle.

A coloração verde em produtos de soja é devido à presença de clorofila em grãos colhidos ainda imaturos. Essa coloração é um problema porque estará visível no óleo extraído e nos produtos proteicos, acarretando considerável aumento de custos nos processos de refino do óleo e produção de produtos proteicos.

Grãos armazenados de forma correta apresentam baixa probabilidade de ocorrência de micotoxinas, entretanto, a grande fonte de contaminação está nas impurezas e/ou matérias estranhas permitidas na comercialização. A legislação brasileira permite a comercialização de grãos com até o limite de 1% de impurezas, que podem gerar custos ao processo de armazenagem, pois a presença de impurezas e/ou matérias estranhas pode formar partículas menores que os espaços intergranulares diminuindo a porosidade, dificultando a aeração da massa de grãos e comprometendo a qualidade durante o armazenamento.

Os processos de recepção, classificação, transporte interno, secagem, aeração, controle de pragas e monitoramento da massa de grãos devem ser criteriosamente realizados a fim de garantir a sua qualidade durante o armazenamento. A gestão desses processos é fundamental para evitar que contaminantes de qualquer ordem prejudiquem a competitividade dos produtos armazenados, propiciando que estes sejam entregues à indústria com a qualidade desejada. A armazenagem de grãos bem estruturada e com qualidade dos processos passa a ser um regulador de logística e mercado, pois otimiza fluxos de escoamento e abastecimento, possibilitando maior competitividade e sustentabilidade dos produtos.