Administração

Tendências em GESTÃO para o agronegócio

Gerenciar é algo complexo e que exige empenho por parte do produtor, pois se ele opta apenas por produzir, precisará destinar um profissional para que administre o negócio. Técnicas da administração moderna começam a ser adotadas por empresas que são referência no agronegócio

Engenheiro agrônomo José Francisco Braccini Neto, MBA em Gestão Empresarial, diretor da Agrobiz Consultoria em Gestão

O Brasil transformou-se em um dos principais players mundiais na produção de alimentos. As principais razões que contribuíram para atingirmos essa posição de destaque no cenário global são bastante conhecidas, a começar pelo aumento crescente e constante das áreas de soja no Cerrado brasileiro. A produtividade vem atingindo níveis satisfatórios, tamanho o avanço tecnológico voltado para a produção de grãos, carne e biocombustíveis. Capacitação técnica disponível deixa de ser um gargalo, o que nos leva a concluir que os desafios voltados para o aumento da produtividade das lavouras continuarão a existir, porém, atualmente é o fator que menos preocupa.

Surge, no entanto, um questionamento: o que leva alguns produtores com bons resultados de safra a apresentar prejuízos e, inclusive, a abandonar o negócio? Tudo leva a crer que isso se deve a uma tarefa aparentemente simples, mas que envolve diferentes áreas do conhecimento, onde muitos produtores apresentam falta de foco e qualificação: a gestão. Os problemas decorrentes de uma gestão ineficiente tem como principal motivo a falta de foco na administração do negócio. Quando os decisores estão envolvidos durante a maior parte de seu tempo na produção, nos processos operacionais, inevitavelmente, os demais processos vitais para o bom andamento do negócio sentem os impactos dessa "negligência" por parte desses gestores.

Gerenciar é algo complexo e que exige empenho por parte do agricultor. Se este opta por dedicar-se somente a produzir, precisa destinar um profissional que cuide do negócio sob o ponto de vista administrativo. Quando passamos a enxergar a propriedade rural como uma empresa, adotamos medidas de controle que possibilitam identificar melhorias e, principalmente, quantificar através da análise de indicadores, se o retorno do investimento está de acordo com as expectativas atuais e com as perspectivas futuras dos sócios. É nesse nível que as questões a respeito do negócio mudam de patamar: quais índices de desempenho pretendemos atingir? Como seremos reconhecidos no mercado? Qual o percentual de aumenavanto em área cultivada e na produção de animais para os próximos cinco anos?

Valer-se de visão imediatista é extremamente nocivo ao setor produtivo. Áreas de lavouras que mudam de mãos a cada frustração de safra são apenas uma prova disso. Buscar unicamente a rentabilidade no curto prazo é possível e até mesmo simples de ocorrer na maioria dos casos. Porém, medidas como essa, tomadas sem o devido planejamento, vão contra a preservação do negócio e a saúde financeira da empresa rural. Diante desse cenário, o que continuará fazendo a diferença nos anos subsequentes será a adoção de boas práticas de gestão e líderes com visão empresarial.

Obviamente, não podemos deixar de lado as peculiaridades existentes no campo, sejam as dificuldades quanto à clareza da comunicação em todos os níveis hierárquicos, sejam os fatores não controláveis como o ambiente externo. É preciso resignação por parte do empreendedor, impedindo que tais adversidades sirvam de desculpas para que se continue atuando à margem do amadorismo, deixando passar oportunidades para estruturar e profissionalizar a empresa (enquanto ainda há tempo e recursos para isso).

Produtores de médio e grande porte, em sua maioria, possuem estrutura administrativa. De qualquer forma, é preciso atentar que o simples fato de contar com uma equipe para esse fim, por si só, não irá garantir que a empresa trabalhe sua visão estratégica e que analise a longo prazo os resultados do negócio.

Técnicas modernas na gestão de fazendas — Até pouco tempo atrás indicadas e utilizadas apenas por indústrias e grandes corporações, diversas técnicas da administração moderna começam a ser adotadas por empresas que são referência no agronegócio. Entre as tendências em gestão, destacam-se:

Controladoria e custos: desenvolver e implementar métodos para a medição e controle na empresa, de modo a eliminar desperdícios e otimizar resultados. De nada adianta dispor de dados, se esses não correspondem à realidade. Dados fidedignos transformam-se em informações valiosas para a tomada de decisão a médio e longo prazo.

Gestão de riscos: a exposição aos riscos é algo inerente ao segmento agro. Gerenciá-los e analisar todas as variáveis mantém a saúde financeira da empresa rural. Obterão êxito aquelas propriedades que dedicarem atenção aos riscos de mercado, legal (principalmente trabalhista, ambiental e tributário), financeiro e operacional. Metodologias comumente utilizadas em lavouras da Austrália e dos EUA, quando adaptadas ao cenário nacional, demonstram grande utilidade aos produtores brasileiros.

Agregação de valor: visa elevar as margens de lucro de determinado produto, ou receber um prêmio maior pela qualidade do mesmo. Através da diferenciação, atuação em nichos de mercado exigentes e da industrialização, é possível agregar valor ao que é produzido no campo.

Gestão sistêmica: analisar cada sistema produtivo agropecuário como único, com suas peculiaridades. Cada pilar dessa cadeia, quando alterado, causa impactos positivos e negativos no sistema. Desenvolver uma visão integrada do sistema garante a produtividade e a viabilidade econômico-financeira do negócio.

Gestão estratégica: consolidar um modelo de gestão orientado pela estratégia, resultando em colaboradores comprometidos e motivados na busca das metas estabelecidas. O principal diferencial dessa técnica em relação ao planejamento estratégico tradicional é que a gestão estratégica traduz as intenções da empresa em ações práticas do cotidiano da empresa. Assim, os processos são incorporados pelos colaboradores, e os resultados positivos se concretizam.

Desenvolvimento de líderes: capacitar as habilidades de liderança dos gerentes das lavouras. Além de aumentar a eficiência da equipe, reduz a rotatividade e contribui para reter os melhores profissionais na empresa.

Planejamento sucessório: planejamento sucessório demanda profundo conhecimento, análise e profissionalismo. Para que as vantagens desse processo se concretizem na prática, é imprescindível que os profissionais envolvidos na elaboração do plano cumpram todas as etapas necessárias, sempre considerando as peculiaridades e situações específicas dos casos em questão.

Quando o produtor enxerga a propriedade como uma empresa, ele adota medidas de controle que possibilitam identificar melhorias e, sobretudo, quantifica por meio de análise de indicadores se o retorno do investimento está de acordo com as expectativas

Atendendo essas premissas, são obtidas vantagens significativas:

Possibilita a transferência do patrimônio sem custo tributário, mantendo o poder decisório e a livre administração dos bens por parte do sucedido;

  • Proporciona benefícios tributários imediatos e posteriores;
  • Protege o patrimônio e encaminha a sua perpetuação;
  • Regula direitos e deveres entre os sucessores, evitando conflitos futuros;
  • Gera e exige compromisso por parte dos sucessores;
  • Representa a vontade das partes envolvidas;
  • Antecipa e administra conflitos;
  • A segurança de um trabalho de sucessão bem realizado evita riscos e garante a prosperidade da empresa para as próximas gerações.

Governança corporativa: a governança, uma prática adotada por grandes empresas, para ser implementada nas fazendas de modo eficaz, na maioria dos casos exige um trabalho prévio de planejamento sucessório. Consiste em orientar, dirigir e monitorar as organizações, estabelecendo as relações entre proprietários, conselho de administração, diretoria e órgãos de controle.

A adoção de boas práticas de governança corporativa possibilita converter princípios em recomendações objetivas, alinhando interesses com a finalidade de preservar e otimizar o valor da organização, de modo a facilitar o acesso ao capital. Dessa forma, é possível otimizar o retorno do investimento no longo prazo e mantém-se o equilíbrio entre os interesses de todas as partes (benefício apropriado e proporcional ao vínculo que cada um possui na organização).

Concluindo, independentemente do tamanho da empresa rural, para tornarse competitiva é primordial investir e dedicar foco nas diversas áreas que compreendem a gestão. Estruturando os níveis operacional e tático e destinando a devida atenção ao nível estratégico, o produtor irá obter a segurança necessária que garanta a rentabilidade e longevidade desejadas ao seu negócio.