Milho Adubação

 

NUTRIENTES na medida para a segunda safra

As lavouras de milho safrinha devem ser implantadas em áreas de excelente fertilidade, com adequado teor de nutrientes, e a adubação deve ser eficiente, uma vez que, além do custo, o uso indiscriminado de adubos pode limitar a produtividade e poluir o ambiente

Luciano Grillo Gil, pesquisador em solos do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar)

Oplantio da segunda safra, ou safrinha, de milho após a cultura de primavera-verão é praticado em todo o Brasil, mas predomina nas Regiões Sul e Centro-Oeste, responsáveis, em 2014, por 89,4% dos 9.182,7 mil hectares cultivados no Brasil, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A produtividade média é de 90 sacas por hectare, mas o rápido avanço das pesquisas indica que há espaço para ampliar significativamente esse desempenho. A sequência usual é o plantio do milho safrinha após a cultura de soja, sistema que se tornou viável a partir da consolidação do plantio direto.

Nas principais regiões produtoras, o cultivo vai de janeiro a agosto, período em que adversidades climáticas, como o déficit hídrico e as geadas, podem comprometer o desenvolvimento das lavouras. Por isso, a escolha de híbridos, tratos culturais e o manejo da adubação, principalmente, devem ser cuidadosamente planejados.

Preferencialmente, lavouras de milho segunda safra devem ser implantadas em áreas de excelente fertilidade, com teor adequado (no mínimo) de nutrientes. Em solos pobres, o baixo teor de nutrientes e a grande necessidade de fertilizantes pode tornar a produção economicamente inviável. É recomendável considerar o histórico – cultura antecessora, consórcios de espécies, entre outros – da área no planejamento da adubação, pois a dinâmica de nutrientes varia muito em cada sistema. Por exemplo: palhada de soja deixa mais nitrogênio disponível que outras culturas; o consórcio de milho com forrageiras aumenta o teor de matéria orgânica do solo, a ciclagem e a disponibilidade de nutrientes e incrementa a fertilidade do sistema.

A adubação deve ser eficiente, pois, além de alto custo financeiro, o uso indiscriminado de fertilizantes pode limitar a produtividade e poluir o ambiente. O ideal é atingir a máxima produtividade esperada com a mínima aplicação. Além da quantidade correta, fatores como a fonte de nutriente, época e forma de aplicação são questões técnicas importantes que devem ser consideradas. Em áreas com nível adequado de nutrientes, a quantidade existente no solo geralmente é suficiente para suprir a necessidade das plantas. No entanto, é recomendável fazer adubação de manutenção para repor a quantidade exportada pela produção de grãos (veja tabela) e manter a fertilidade da área.

Segundo Gil, uma estratégia para áreas com fertilidade construída é aplicar todo o fertilizante na cultura de verão e deixar o milho segunda safra se beneficiar do efeito residual, mas é preciso avaliar criteriosamente

Outra estratégia para áreas com fertilidade construída é aplicar todo o fertilizante na cultura de verão e deixar o milho segunda safra se beneficiar do efeito residual. No entanto, essa medida deve ser precedida de uma cuidadosa avaliação: a) dos custos relacionados ao aumento da quantidade de adubo e do tempo de operação envolvido na adubação única; b) das espécies utilizadas no sistema, pois doses elevadas de fertilizantes podem comprometer o desenvolvimento de determinadas culturas.

Nitrogênio: é um elemento muito dinâmico no solo e o mais requerido pela cultura de milho segunda safra que, na maioria das vezes, responde bem à adubação nitrogenada. Devido a dificuldades metodológicas, os teores de nitrogênio (N) no solo não são usados como parâmetros para a recomendação, pois a maior parte está na forma orgânica e a sua disponibilidade depende da decomposição da matéria orgânica. Considera- se, portanto, o histórico da área, o teor de matéria orgânica do solo e a produtividade esperada. Em áreas com alta fertilidade, após o cultivo de soja há disponibilidade, em média, de 100 quilos de nitrogênio por hectare para o cultivo de milho, quantidade suficiente para suprir uma produção de 70 sacas. Se o interesse é buscar uma produção maior, é necessário complementar por intermédio de adubação.

As recomendações de adubação nitrogenada para o milho segunda safra variam entre 30 e 100 quilos de nitrogênio por hectare: 40 kg (no máximo) via sulco de plantio e a quantidade excedente em cobertura – que, para fugir do risco de estiagem e garantir maior desenvolvimento inicial, deve ser antecipada em comparação ao procedimento adotado no milho de verão. Além do custo, deve-se considerar que algumas fontes podem acidificar o solo e, ainda, a volatilização do nutriente. Se aplicadas a lanço sobre palhada em plantio direto, certas fontes podem perder até 70% de nitrogênio.

Na adubação, além da quantidade correta de fertilizantes, fatores como a fonte de nutriente, época e forma de aplicação são questões técnicas importantes que devem ser consideradas

Fósforo: em solos com teor adequado de fósforo (P), diversos pesquisadores recomendam aplicar somente a quantidade exportada. Atualmente, a maior divergência entre os especialistas recai sobre a definição da melhor forma de aplicação – a lanço ou em sulco. No curto prazo, não há diferença entre essas formas de aplicação. Todavia, em sistemas de plantio direto, há tendência de o fósforo se acumular na parte mais superficial do solo e, com isso, estimular a planta a desenvolver raízes nessa camada para absorvê-lo, tornando a lavoura mais suscetível aos veranicos. Vários estudos demonstraram que, mesmo em solos com elevada fertilidade, a deposição de fósforo no sulco e abaixo da semente aumenta o enraizamento do milho na região onde o adubo fosfatado foi aplicado.

Potássio: segundo elemento mais requerido na cultura do milho, o potássio (K) tem alta mobilidade e pode ser aplicado tanto em sulco no plantio como a lanço (em pré-plantio ou cobertura) nos solos que apresentam nível adequado do nutriente. Já nos solos em que o teor de potássio é baixo, deve-se aplicar uma parte no sulco de plantio – máximo de 60 kg equivalente em óxido de potássio (K2O) por hectare, pois, em doses maiores, o efeito salino do fertilizante pode afetar as raízes e prejudicar o desenvolvimento inicial das plantas – e a quantidade remanescente em cobertura, a lanço.

Enxofre, cálcio, magnésio e micronutrientes: baixos teores de enxofre limitam a produção de milho, mas esse elemento pode ser facilmente corrigido, já que entra na composição de algumas fontes de fertilizante fosfatado e nitrogenado; gesso agrícola ou enxofre elementar também são possibilidades de aplicação. O cálcio e o magnésio são adicionados na correção da acidez do solo pela calagem.

Quanto aos micronutrientes, zinco e boro são frequentemente encontrados em níveis abaixo do ideal para a cultura. Podem ser corrigidos por adubação foliar ou, de preferência, via solo, que é mais barata e deixa um residual por alguns anos. Além do mais, quando a deficiência é diagnosticada – e corrigida por meio da adubação foliar –, certamente já terá havido algum comprometimento no desenvolvimento das plantas e, consequentemente, da produção de milho.